Por Rodrigo Rodrigues
No coração do Cerrado, uma cidade que parece saída de outro mundo
O avião cruza o céu claro de Mato Grosso do Sul quando, no horizonte, uma silhueta inesperada surge entre morros e vales. Não é uma cidade comum. De longe, suas linhas geométricas lembram ruínas sumérias; de perto, parecem instalações futuristas.
Esse lugar é Zigurats, uma comunidade experimental fundada pelo grupo Dakila Pesquisas, em Corguinho — um município de apenas 5 mil habitantes.
Para viajantes, pesquisadores e curiosos, Zigurats é uma espécie de “enigma brasileiro”: parte cidade planejada, parte templo místico, parte laboratório de uma ciência que não encontra eco na academia.

O território: uma geografia carregada de simbolismo
Entre formações rochosas, cavernas e rios que serpenteiam o Cerrado, Dakila afirma ter encontrado “pontos de energia” e “anomalias magnéticas” únicas no planeta.
A ciência oficial não confirma tais fenômenos.
Mas o que é inegável é a força simbólica da paisagem:
• morros arredondados,
• áreas de mata densa,
• silêncio profundo,
• amanheceres dourados típicos da região Centro-Oeste.
Essa geografia ajuda a criar a aura de mistério que envolve a região, fomentando narrativas de portais energéticos, luzes no céu e encontros improváveis.
A origem: do Cerrado ao cosmos
O grupo Dakila nasceu nos anos 1990, guiado pelo sul-mato-grossense Urandir Fernandes de Oliveira. Sua figura é controversa: para seguidores, um pesquisador ousado; para críticos, um líder de seita.
Dakila afirma estudar:
• física “não convencional”,
• geologia alternativa,
• frequências sonoras,
• interação com seres extraterrestres,
• fenômenos atmosféricos,
• e a chamada “Terra convexa”.
Essa mistura de linguagens — ora científica, ora espiritual — construiu uma identidade própria, onde o Cerrado se torna palco de uma cosmologia imaginada.

A cidade nasce: tijolos, geometrias e mitologia
Zigurats começou a ser erguida no início dos anos 2000.
Seus arquitetos e idealizadores buscaram referências em:
• zigurates da Mesopotâmia,
• pirâmides latino-americanas,
• geometrias consideradas “sagradas”,
• astronomia,
• e crenças antigas sobre energia e espaço.
O resultado é uma paisagem arquitetônica onde:
• prédios têm base triangular ou piramidal,
• avenidas seguem alinhamentos celestes,
• torres funcionam como “observatórios”,
• e portais remetem aos antigos templos mesopotâmicos.
Para quem caminha por essas ruas, a impressão é de estar na fronteira entre passado remoto e futuro imaginado.
Ecos de uma civilização que nunca existiu
A estética de Zigurats é cuidadosamente pensada para provocar impacto.
As construções funcionam como símbolos — não de algo que existiu, mas de algo que poderia existir.
Como nas antigas cidades-estado do Oriente Próximo, tudo gira em torno de um centro ritualístico: um grande complexo triangular que abriga salas de estudos, auditórios e áreas de convivência.
A arquitetura não busca apenas abrigo.
Ela pretende comunicar uma visão de mundo

. A ciência alternativa segundo Dakila
O grupo afirma realizar estudos experimentais sobre:
• novas propriedades da água;
• efeitos de vibrações sonoras em plantas;
• campos eletromagnéticos inexplicados;
• cosmologia;
• e comportamentos atmosféricos fora do padrão.
Um dos trabalhos mais divulgados é o documentário Terra Convexa, onde afirmam, contra consenso científico, que a superfície terrestre apresentaria curvaturas diferentes das aceitas hoje.
Embora contestado por especialistas, esse discurso atraiu público, curiosos e seguidores.
Para Dakila, Zigurats não é uma cidade: é um laboratório vivo.
O modo de vida dentro da comunidade
Entre os que habitam a cidade — alguns permanentemente, outros de forma sazonal — há uma rotina organizada em torno de:
• estudos,
• práticas meditativas,
• alimentação natural,
• regras próprias de convivência,
• oficinas e vivências semanais,
• eventos anuais com centenas de visitantes.
Os moradores veem Zigurats como um lugar de conexão, silêncio e descoberta.
Críticos descrevem o ambiente como altamente controlado e influenciado pelo fundador.

O fenômeno social e o impacto em Corguinho
Nas ruas de Corguinho, a presença de Dakila desperta opiniões opostas:
há quem veja benefícios econômicos — aumento de turismo, obras, comércio — e quem enxergue o grupo com desconfiança.
Fotos antigas mostram que as primeiras estruturas de Zigurats contrastavam com a simplicidade da região: estradas de terra, casas modestas, crianças brincando na praça. Hoje, ônibus de visitantes chegam nos finais de semana, e pousadas foram abertas para receber adeptos e curiosos.
Para uma cidade pequena, Zigurats é um acontecimento.
As polêmicas que rodeiam Zigurats
Como toda iniciativa que desafia o pensamento convencional, a cidade é alvo constante de questionamentos.
Entre as principais críticas:
• teorias consideradas pseudocientíficas;
• relatos de controle rígido sobre participantes;
• divergências fundiárias e disputas sobre terras;
• ligação histórica com o episódio do “ET Bilu”, que virou piada nacional;
• ausência de reconhecimento científico das pesquisas.
Dakila argumenta que a academia é lenta, conservadora e fechada.
Cientistas acusam o grupo de manipular linguagem científica para justificar crenças místicas.
Entre esses extremos, Zigurats vive de paradoxos.

A paisagem humana: entre fé e curiosidade
Um visitante caminha ao entardecer pelas ruas geométricas.
O vento levanta poeira.
Pássaros se aproximam das torres metálicas.
Ao longe, uma luz branca pisca no céu — talvez um avião, talvez um drone, talvez apenas o reflexo da lua nascente.
Pessoas param, observam e comentam.
Para uns, é apenas um ponto luminoso.
Para outros, é sinal.
Zigurats desperta essa dualidade: é lugar onde o real e o imaginário dialogam o tempo todo.
Uma narrativa construída no presente
A força de Zigurats não está apenas em suas construções.
Está na história que o grupo conta — e que muitos querem ouvir.
A ideia de uma cidade:
• alinhada com constelações,
• protegida por energias invisíveis,
• aberta a contatos interdimensionais,
• dedicada à pesquisa de um conhecimento “perdido” da humanidade,
é poderosa para uma sociedade saturada de tecnologia, pressa e ceticismo.
Zigurats oferece outra narrativa: a de que o mundo ainda guarda mistérios.

O futuro que Dakila imagina — e o Brasil observa
O grupo planeja:
• expandir moradias;
• construir mais laboratórios;
• criar centros de inovação com tecnologia “própria”;
• desenvolver sistemas agrícolas de baixa interferência;
• e transformar a cidade em referência mundial de “ciência independente”.
É cedo para saber se esses projetos se consolidarão.
Mas a existência de Zigurats já coloca Mato Grosso do Sul no mapa de um fenômeno único: uma cidade idealizada não por governos ou empresas, mas por uma comunidade místico-científica que acredita escrever seu próprio capítulo da história humana.
Zigurats permanece, acima de tudo, como um espelho
Um espelho para:
• quem busca espiritualidade,
• quem procura explicações alternativas,
• quem quer fugir da lógica urbana,
• quem deseja acreditar em algo maior.
Para os cientistas, é um desafio.
Para os moradores de Corguinho, uma transformação.
Para os visitantes, um mistério.
Para seus seguidores, um sinal de que o desconhecido está mais perto do que imaginamos.
Zigurats é, em última instância, uma história de imaginação humana.
E como toda boa história, continua em construção.



























