Por Flávio Meireles
Cuiabá — Em uma cena política acostumada a paletós alinhados, discursos plastificados e à súbita metamorfose de candidatos em “autoridades”, o prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini, segue na contramão. Eleito, não trocou a linguagem direta pelo juridiquês, nem o estilo despojado pela liturgia do cargo. Não se deixou “picar pela mosca azul” — aquela que transforma representantes em cortesãos do próprio poder. Ao contrário: manteve o tom, o gesto e, sobretudo, a disposição para cutucar feridas antigas.
E a ferida mais sensível, até aqui, atende por um nome conhecido nos bastidores da capital: o Distrito Industrial.
A coragem de dizer o óbvio
Ao afirmar publicamente que boa parte das empresas instaladas no Distrito Industrial são “fantasmas”, Abílio fez algo raro na política local: verbalizou o que todo mundo sabe, mas poucos ousam dizer. Empresas que existem no papel, consomem incentivos, terrenos, benefícios fiscais e proteção política — mas não produzem, não empregam e não geram desenvolvimento real.
São estruturas parasitárias, mantidas por décadas à sombra da benevolência de agentes públicos — alguns eleitos, outros cooptados — que passaram a confundir interesse privado com política de desenvolvimento. O resultado é um simulacro de industrialização que serve a poucos e custa caro à sociedade.
“Não é ataque ao empresariado. É defesa do interesse público”, resumiu um auxiliar próximo do prefeito.
Um modelo esgotado
O Distrito Industrial de Cuiabá nasceu com um propósito claro: atrair investimentos, gerar empregos, diversificar a economia e reduzir desigualdades. Ao longo do tempo, porém, transformou-se em um território de exceções, onde regras são flexíveis para alguns e rigorosas para outros.
O modelo se degenerou. Incentivos viraram privilégios. Terrenos públicos, moedas de troca. E o discurso do “não mexe que dá problema” passou a funcionar como um escudo político para a manutenção do status quo.
Abílio rompe esse pacto tácito de silêncio.
Independência que incomoda
Não é por acaso que as reações foram imediatas. Entidades incomodadas, notas atravessadas, críticas veladas (e outras nem tanto). O prefeito tocou no ponto exato onde a política local costuma se acovardar: a simbiose entre interesses empresariais improdutivos e o poder público.
Há quem chame isso de “radicalismo”. Outros preferem “imprudência”. Mas, nos fatos, trata-se de independência. Algo cada vez mais raro em administrações municipais pressionadas por lobbies organizados e por uma cultura política que premia a acomodação.
Estilo é substância
O despojamento de Abílio não é apenas estético. Ele comunica método. Não performa poder; exerce poder. Não busca aceitação dos salões; fala com a cidade real. Em um ambiente onde a política frequentemente se afasta da vida cotidiana, a simplicidade vira ferramenta de conexão — e, paradoxalmente, de enfrentamento.
Ao manter o estilo, o prefeito sinaliza que não governa para uma casta. Governa para a maioria que paga impostos e não se beneficia de esquemas travestidos de “política de desenvolvimento”.
O risco calculado
Mexer no Distrito Industrial é mexer em interesses consolidados. É comprar brigas. É correr riscos políticos. Mas também é recolocar Cuiabá em um debate que importa: que tipo de desenvolvimento a cidade quer? Um baseado em favores e placas enferrujadas de fábricas que não funcionam? Ou um modelo transparente, produtivo e socialmente útil?
A resposta, pela primeira vez em muito tempo, começou a ser construída com clareza.
Um divisor de águas
Se conseguirá ir além do discurso e promover mudanças estruturais, o tempo dirá. Fiscalização, revisão de concessões, critérios objetivos e transparência serão as provas de fogo. Mas o gesto inicial já tem peso histórico: quebrou-se o silêncio.
Em uma Cuiabá acostumada a consensos artificiais, Abílio Brunini escolheu o caminho mais difícil — e, talvez, o único honesto: dizer o que precisa ser dito.



























