Por Rodrigo Rodrigues
Governar é, por definição, administrar escolhas sob escassez. Governar depois de oito anos marcados por factoides, marketing político e suspeitas de “pilhagem” do dinheiro público é administrar escombros. Cuiabá vive hoje esse dilema. O prefeito Abílio Brunini assumiu o Palácio Alencastro não apenas com promessas de campanha, mas com a responsabilidade concreta de reorganizar uma máquina pública que, segundo relatórios, auditorias e dados fiscais amplamente debatidos, acumulou distorções administrativas, contratos questionáveis e armadilhas financeiras de longo prazo.
É preciso dizer o óbvio: ninguém “conserta” em doze meses o que foi desorganizado ao longo de oito anos. A reconstrução institucional exige tempo, revisão contratual, reequilíbrio fiscal, renegociação de dívidas e, sobretudo, coragem política para enfrentar estruturas cristalizadas. O que para o cidadão aparece como “demora”, muitas vezes é a consequência inevitável de um passivo oculto que vai muito além do discurso.
Abílio Brunini, com seu estilo direto e despojado — que já demonstrou ao enfrentar as chamadas “empresas fantasmas” no Distrito Industrial — optou por mexer em feridas que outros preferiram maquiar. Isso, evidentemente, gera reação. Toda vez que se tenta reorganizar fluxos financeiros, rever contratos ou desmontar esquemas de favorecimento, surgem ruídos. Não é confortável para ninguém cortar privilégios.
O que soa, no entanto, como verdadeiro surrealismo político é ver ex-gestores — protagonistas do período questionado — recorrerem às redes sociais para “cobrar” ações imediatas, como se os últimos quatro anos não tivessem sido marcados por denúncias, desequilíbrios orçamentários e compromissos financeiros que agora recaem sobre a atual administração. É a inversão completa da lógica: quem deixou a conta passa a cobrar o pagamento.

Cuiabá não sofre apenas com buracos nas ruas ou filas na saúde. Sofre com buracos contábeis, contratos amarrados, compromissos assumidos sem lastro e estruturas administrativas inchadas. A reconstrução exige auditoria, planejamento e responsabilidade fiscal — três palavras que não rendem curtidas nas redes sociais, mas são as únicas capazes de garantir sustentabilidade.
É preciso separar crítica legítima de oportunismo político. Cobrar transparência é dever da sociedade. Exigir eficiência é saudável. Mas ignorar o contexto histórico-administrativo recente é desonestidade intelectual. Não se apagam oito anos de improviso, populismo fiscal ou eventuais irregularidades com um decreto.
O discurso fácil tenta reduzir a complexidade a slogans: “já passou um ano”. Sim, passou um ano. Um ano de reorganização interna, levantamento de contratos, revisão de folhas, enfrentamento de dívidas e tentativa de reconstruir credibilidade junto a fornecedores e órgãos de controle. A diferença é que o trabalho técnico não viraliza.
Abílio Brunini pode cometer erros — todo gestor comete. Mas há uma distinção fundamental entre erro administrativo e herança estrutural. A atual gestão responde por suas decisões; o passado responde pelos seus legados. E o legado que se tenta reorganizar não é trivial.
Governar é escolher prioridades. Em um cenário de restrição fiscal, isso significa dizer “não” a pressões corporativas e políticas. Significa revisar contratos antes de ampliar gastos. Significa reorganizar antes de expandir. É um processo menos vistoso, mas mais responsável.
A história administrativa brasileira está repleta de exemplos em que o ajuste foi impopular no curto prazo, mas necessário no médio e longo prazo. Cuiabá não será exceção. A reconstrução não acontece em velocidade de rede social; acontece na cadência das planilhas, dos relatórios técnicos e da recomposição institucional.

Talvez a pergunta mais honesta não seja “por que ainda não resolveu tudo?”, mas “qual cidade queremos daqui a cinco anos?”. Se a resposta for uma cidade fiscalmente equilibrada, administrativamente séria e menos refém de improvisos, então será preciso reconhecer que um ano é apenas o começo de um processo que exige maturidade política.
No fim, a verdadeira cobrança deve ser direcionada não a quem tenta reorganizar, mas a quem deixou a desordem. Porque governar após oito anos de alopração administrativa não é tarefa simples — é um exercício diário de reconstrução sob vigilância permanente. E reconstruir, ao contrário de destruir.



























