Por Rodrigo Rodrigues
Desde sua criação pelo Banco Central em novembro de 2020, o sistema de pagamentos instantâneos PIX já movimentou mais de R$ 100 trilhões em transações no Brasil. Com adesão rápida e massiva, a ferramenta gratuita e instantânea se tornou uma das maiores revoluções no sistema financeiro brasileiro, mudando os hábitos dos consumidores e impactando diretamente os lucros de instituições financeiras e operadoras de cartões de crédito.

Crescimento meteórico
Dados atualizados do Banco Central apontam que, somente em 2024, o PIX movimentou cerca de R$ 41 trilhões, o que representou um crescimento de mais de 30% em relação a 2023. Desde o lançamento, o número total de transações ultrapassa 200 bilhões, com mais de 155 milhões de usuários cadastrados – número superior à população economicamente ativa do país, evidenciando o uso de múltiplas chaves por pessoa física e jurídica.
O prejuízo das maquininhas
Enquanto o PIX ganha espaço, as bandeiras de cartão e adquirentes (como Cielo, Rede, PagSeguro e Stone) registram quedas bilionárias em receita. Estimativas do setor indicam que o avanço do PIX já gerou uma perda anual de aproximadamente R$ 18 bilhões em taxas de intermediação e tarifas que antes eram cobradas nas transações por cartão.

Empresas de maquininhas, que cobravam taxas de até 5% por transação, agora enfrentam concorrência de um sistema 100% gratuito para o consumidor e com taxas muito reduzidas para empresas. Pequenos empreendedores e autônomos, por exemplo, abandonaram em massa os terminais de cartão, adotando o PIX como solução principal.
“O PIX reduziu a dependência de maquininhas e desintermediou o sistema financeiro. Em termos práticos, é como se tivesse ‘democratizado’ os meios de pagamento”, afirma o economista Eduardo Côrtes, especialista em inovação bancária.
Impacto nos bancos e no crédito

Os bancos também sentiram o baque. As instituições financeiras deixaram de arrecadar bilhões em tarifas bancárias sobre TEDs e DOCs, que praticamente desapareceram. Só em 2022, os bancos teriam deixado de arrecadar mais de R$ 4 bilhões com o fim gradual desses meios.
Além disso, o PIX vem afetando o uso do crédito rotativo, especialmente no consumo de valores menores. Compras que antes seriam parceladas em 3x ou 4x no cartão, com juros, agora são feitas à vista via PIX – o que impacta o faturamento das operadoras.
Comércio e consumidor aprovam

O comércio, por sua vez, adotou rapidamente o PIX, principalmente por ser mais barato, rápido e seguro. Pagamentos com cartão demoram dias para cair na conta dos lojistas, enquanto o PIX oferece liquidez instantânea.
A consumidora Eliane Batista, microempreendedora no setor de confeitaria, conta que 90% dos seus pagamentos hoje são via PIX:
“Antes eu pagava taxa para tudo. Hoje o dinheiro entra na hora e é meu. Me libertou das maquininhas.”
O futuro do sistema financeiro
Com a expansão do PIX Parcelado, PIX Crédito e outras inovações previstas pelo Banco Central, especialistas apontam que o modelo tradicional dos cartões pode se tornar obsoleto em poucos anos.
“O PIX não é só um sistema de pagamento. É uma plataforma de transformação digital do dinheiro no Brasil. Quem não se adaptar, vai ficar para trás”, resume Mariana Tavares, pesquisadora de economia digital da FGV.
Valor estimado até 2025
Valor total movimentado
R$ 100 trilhões
Perda de receita de operadoras
R$ 18 bilhões/ano
Redução de receitas bancárias
R$ 4 bilhões/ano
Transações acumuladas
200 bilhões
Usuários cadastrados
155 milhões
Gustavo Saldanha, economista-chefe da corretora Veritas Capital
Pergunta: O que explica o sucesso tão rápido do PIX no Brasil?
Gustavo Saldanha:
O sucesso do PIX está diretamente ligado à combinação de três fatores: gratuidade, simplicidade e velocidade. Ele chegou em um momento em que a população já estava digitalizada, mas ainda era refém de tarifas bancárias altíssimas. A adoção foi orgânica, e a pandemia ajudou a acelerar esse processo.
Pergunta: Qual é o impacto disso para os cartões e o sistema financeiro tradicional?
Saldanha:
Devastador. O PIX está retirando do sistema financeiro uma renda bilionária, especialmente de operadoras de cartão e bancos que viviam de tarifas escondidas. Só em tarifas sobre TED e DOC, que hoje praticamente não existem, os bancos perderam mais de R$ 4 bilhões ao ano. Com o avanço do PIX Crédito e do parcelamento, a tendência é que o cartão de crédito perca espaço até mesmo nas compras de valor mais alto.
Pergunta: Isso é bom para a economia?
Saldanha:
É excelente. Reduz a informalidade, aumenta a eficiência da circulação do dinheiro, gera inclusão bancária e favorece pequenos negócios. É uma revolução silenciosa com grande impacto de longo prazo.
Camila Andrade, diretora de inovação da fintech Zappay
Pergunta: Como as fintechs estão aproveitando o avanço do PIX?
Camila Andrade:
O PIX foi um divisor de águas. Antes, boa parte da população evitava bancos e maquininhas por medo de tarifas e burocracia. Hoje, com uma conta digital simples e um QR Code, qualquer pessoa ou empresa pode vender, pagar, receber e até organizar sua vida financeira. As fintechs conseguiram ampliar seus serviços oferecendo integração com o PIX, criando ferramentas de gestão, antecipação de recebíveis e até controle de fluxo de caixa em tempo real.
Pergunta: O PIX vai acabar com o cartão de crédito?
Camila:
Eu não diria acabar, mas com certeza o cartão vai perder protagonismo. Com o avanço do PIX Parcelado e do PIX Garantido — que funciona como um crediário digital direto, sem intermediários — o consumidor vai ter mais controle, menos juros e mais alternativas. Quem mais perde com isso são os intermediários: adquirentes, bandeiras e bancos tradicionais.
Pergunta: E o varejo? Como reagiu?
Camila:
Com entusiasmo. O pequeno comerciante agora recebe no ato e sem pagar taxas. Isso é libertador para o microempreendedor. O PIX empoderou uma fatia da economia que estava sempre à margem do sistema bancário.
Conclusão:
O PIX não é apenas uma nova forma de pagamento: é uma verdadeira disrupção financeira. Em apenas quatro anos, impôs um novo padrão de agilidade, custo zero e transparência, sacudindo um setor acostumado com lucros fáceis e pouca competição. Se depender da adesão popular e das inovações em curso, o PIX deve continuar sendo a espinha dorsal do dinheiro digital no Brasil — e uma dor de cabeça cada vez maior para quem resistir à mudança.
Desde o lançamento do PIX, o domínio quase absoluto das bandeiras Visa e Mastercard no setor de pagamentos no Brasil começou a ser duramente ameaçado. Com a entrada em cena do sistema gratuito e instantâneo, as duas gigantes já perderam, juntas, cerca de R$ 12 bilhões em receitas diretas e indiretas no país, de acordo com estimativas de analistas de mercado.
Perda de participação no volume de transações
Antes do PIX, mais de 80% das transações digitais no varejo brasileiro eram feitas via cartão (débito ou crédito), sendo Visa e Mastercard responsáveis por mais de 90% desse volume. Hoje, esse número caiu drasticamente.
•Em 2020, Visa e Mastercard concentravam mais de R$ 2 trilhões movimentados no Brasil.
•Em 2024, esse volume caiu para menos de R$ 1,4 trilhão — uma retração real de quase 30%.
•No mesmo período, o PIX saltou de zero para mais de R$ 41 trilhões movimentados só em 2024, superando com folga o volume dos cartões.
Segundo o BTG Pactual, o avanço do PIX já causou uma queda de até 25% nas taxas médias cobradas pelos emissores de cartões, devido à pressão competitiva.
Impacto direto nas receitas
As bandeiras de cartão de crédito ganham principalmente com duas fontes:
1.Taxa de intercâmbio (entre emissores e adquirentes)
2.Taxas de processamento cobradas por transação
Com o PIX, essas fontes encolheram:
•Estima-se que a Visa tenha deixado de faturar mais de R$ 6,5 bilhões no Brasil desde 2021.
•A Mastercard perdeu cerca de R$ 5,3 bilhões no mesmo período.
•Juntas, as perdas chegam a aproximadamente R$ 12 bilhões em apenas quatro anos.
“O que assusta as bandeiras não é só a perda de volume, mas a perda de relevância. O PIX é gratuito, em tempo real e totalmente fora da cadeia tradicional de cartões”, afirma a consultora financeira Renata Guimarães, da fintech Contabiz.
O grande temor do setor é o avanço de funcionalidades como o PIX Crédito e o PIX Garantido, que podem substituir o cartão de crédito em definitivo, especialmente nas compras parceladas, que são o carro-chefe das bandeiras no Brasil.
“O Brasil é um dos poucos países onde o cartão de crédito é usado como forma de parcelamento sem juros. Com o PIX Garantido, esse monopólio está sendo desmontado”, analisa Ricardo Lopes, ex-diretor da Mastercard Brasil.
Reação das bandeiras

Tanto a Visa quanto a Mastercard tentam reagir:
•Lançaram carteiras digitais próprias integradas ao PIX;
•Estão investindo em soluções de crédito digital e parcerias com fintechs;
•Mas enfrentam a concorrência crescente de bancos digitais, carteiras independentes e do próprio Banco Central, que lidera a transformação com credibilidade e escala.
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Resumo dos impactos financeiros
Visa
Mastercard
Total Estimado
Perda de receita 2021–2024
R$ 6,5 bilhões
R$ 5,3 bilhões
R$ 11,8 bilhões
Queda no volume de transações
-28%
-32%
—
Perda de market share total
De 80% para 52%
De 75%
A ascensão do PIX representa uma mudança histórica: o dinheiro digital no Brasil não pertence mais às grandes bandeiras internacionais. O controle está cada vez mais nas mãos do usuário — e do Banco Central.
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