Pertecimento

O voto negro na direita: um espelho do opressor e a busca por pertencimento

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Por David Allen

No Brasil, a relação entre política, identidade racial e classe social é profundamente marcada por feridas históricas que jamais cicatrizaram. Quando se observa o comportamento eleitoral de parte significativa da população negra que se identifica com pautas conservadoras ou de direita, muitos analistas se perguntam: por que um grupo historicamente explorado, discriminado e excluído, opta por apoiar projetos políticos que, em grande parte, reproduzem ou reforçam desigualdades estruturais?

A resposta não é simples, mas envolve elementos psicológicos, culturais, históricos e econômicos. Em um país onde a elite construiu, ao longo de séculos, um sistema de exclusão que naturaliza privilégios e hierarquias raciais, votar na direita pode se tornar, paradoxalmente, uma forma de buscar inclusão — mesmo que ilusória. Não se trata de embranquecimento físico, como já ocorreu em outras épocas através de políticas explícitas de “branqueamento” populacional, mas de um embranquecimento simbólico, uma tentativa de se aproximar cultural e ideologicamente do grupo dominante.

O mito da “ascensão pelo esforço individual”

Um dos pilares do discurso da direita — especialmente da extrema-direita — é a defesa da meritocracia. Segundo essa narrativa, qualquer pessoa pode “vencer na vida” se trabalhar duro, independentemente da cor da pele ou da origem social. Esse discurso ignora deliberadamente as barreiras históricas impostas aos negros, como a falta de acesso à educação de qualidade, a segregação velada no mercado de trabalho e a violência policial desproporcional.

Para muitos eleitores negros, no entanto, essa narrativa pode soar sedutora. Aceitar a meritocracia como verdade é também se afastar da ideia de que são vítimas de um sistema injusto. É quase como dizer a si mesmos: “Eu não preciso de cotas ou de políticas afirmativas, porque sou capaz de vencer sozinho”. Essa mentalidade, ainda que legítima em termos de autoestima individual, acaba servindo aos interesses de uma elite que se beneficia exatamente da negação do racismo estrutural.

Essa lógica se conecta diretamente com o fenômeno que o sociólogo Frantz Fanon descreveu em Pele Negra, Máscaras Brancas: a tendência do oprimido a internalizar os valores do opressor como forma de se proteger e tentar ascender socialmente. No Brasil, isso se expressa na valorização de símbolos associados à branquitude — não necessariamente a pele ou o cabelo, mas comportamentos, gostos culturais, crenças políticas e até o modo de falar.

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Quando a direita se apresenta como “ordem” e “progresso”

Historicamente, a elite brasileira construiu um imaginário em que o negro, o nordestino e o pobre são vistos como preguiçosos, desordeiros e dependentes do Estado. Essa retórica remonta ao período escravocrata, quando se difundia a ideia de que pessoas negras não tinham “vocação para o trabalho” sem coerção.

A extrema-direita atual resgata esse discurso de forma atualizada, associando programas sociais à “vagabundagem” e culpando o próprio povo pela miséria em que vive. Ao mesmo tempo, promete um Estado “forte” que garanta segurança, punição e oportunidades para quem “faz por merecer”.

Muitos negros acabam sendo atraídos por essa promessa de ordem. Em comunidades marcadas pela violência, onde o Estado só se faz presente na forma da polícia, a retórica de segurança pública pode se sobrepor a qualquer outra pauta. O discurso conservador oferece uma sensação de pertencimento: “Se eu sigo as regras, se trabalho duro, se não me envolvo com crime, então sou parte do lado de cá”.

Esse desejo de reconhecimento pode levar à adesão a pautas que, no fundo, não beneficiam a própria comunidade. É uma forma de distinção social: votar na direita pode ser um gesto simbólico de se separar daqueles que ainda são vistos como “atraso” ou “problema”, mesmo que, na prática, compartilhem a mesma realidade de exclusão.

A mídia e a construção do inimigo interno

Outro elemento importante é o papel da mídia na formação de estereótipos. Programas policiais, novelas e noticiários reforçam diariamente a associação entre pobreza, negritude e criminalidade. Assim, muitos negros acabam reproduzindo a visão negativa que a sociedade tem deles mesmos.

Quando a direita aponta um inimigo — seja o “bandido”, o “vagabundo do Bolsa Família” ou o “comunista” —, parte dessa população negra se vê tentada a se alinhar com quem acusa, não com quem é acusado. Isso cria um fenômeno perverso: o oprimido que se identifica com a narrativa do opressor e volta sua raiva contra aqueles que estão na mesma posição de vulnerabilidade.

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Nordestinos, negros e a guerra cultural

A relação entre preconceito racial e preconceito regional também é central nesse debate. A extrema-direita frequentemente usa termos pejorativos para se referir a nordestinos, acusando-os de votar em partidos de esquerda por “interesse em esmolas” ou por serem “atrasados”. Essa mesma lógica é aplicada à população negra.

O voto conservador de parte desses grupos pode ser visto, então, como uma tentativa de rejeitar a identidade imposta pelo preconceito, adotando o discurso do outro lado. Em outras palavras: “Eu não sou como eles. Eu sou trabalhador, honesto, merecedor”. É uma busca por diferenciação dentro de uma sociedade que insiste em homogeneizar minorias como se todas fossem iguais.

Conclusão: uma escolha que revela a ferida aberta do Brasil

Quando negros e pobres votam na direita, não significa necessariamente que estão “traindo” sua própria história, como alguns militantes sugerem. Muitas vezes, trata-se de uma estratégia de sobrevivência simbólica, um gesto de resistência individual diante de um sistema que não oferece perspectivas coletivas de mudança.

O problema é que, ao reforçar a narrativa do opressor, essa escolha acaba perpetuando as mesmas estruturas que geram desigualdade. É um círculo vicioso: quanto mais se nega o racismo estrutural, mais difícil se torna combatê-lo.

O desafio para as forças progressistas não é apenas oferecer políticas públicas eficazes, mas também reconstruir a autoestima coletiva da população negra e pobre. Enquanto a direita continuar monopolizando o discurso de ordem, pertencimento e segurança, parte significativa desse eleitorado continuará a vê-la como o único caminho para “ser alguém” em uma sociedade profundamente desigual.

No fundo, o voto na direita, para muitos negros e pobres, não é um voto de ideologia — é um grito silencioso por reconhecimento. E esse grito revela, mais do que nunca, que o Brasil ainda não enfrentou sua própria história.

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