Por Rodrigo Rodrigues
Em 1517, Martinho Lutero afixava suas 95 teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, na Alemanha, detonando a maior revolução religiosa do Ocidente: a Reforma Protestante. Seu alvo era claro — os abusos da Igreja Católica, sobretudo a venda de indulgências, que prometia perdão dos pecados em troca de dinheiro. Lutero pregava que a salvação vinha apenas pela fé, não pelas obras ou pagamentos. Era o início do protestantismo. Quase 500 anos depois, a ironia é pungente: igrejas evangélicas, herdeiras da Reforma, parecem ter resgatado práticas semelhantes às que Lutero tanto combateu.
Hoje, muitos templos neopentecostais vendem bênçãos, promovem campanhas milionárias e prometem “chaves do céu” mediante generosas ofertas. A teologia da prosperidade — corrente dominante em diversas igrejas — associa a fé à riqueza, e faz do altar uma vitrine de consumo espiritual. Fiéis são estimulados a dar “o melhor para Deus” com promessas de retorno financeiro, cura ou bênçãos familiares. A fé se converteu, em muitos casos, em moeda de troca.
A indulgência reformada
Na época medieval, as indulgências católicas eram justificadas como uma forma de reduzir o tempo das almas no purgatório. Hoje, os “sacrifícios financeiros” evangélicos funcionam com lógica parecida: ofertas que aceleram a intervenção divina. Há pastores que vendem “sementes de fé” de mil reais, óleos ungidos, toalhas abençoadas ou água de Israel, prometendo milagres em troca. Em alguns programas televisivos e redes sociais, o discurso se aproxima mais de um telemarketing da fé do que de uma mensagem espiritual.
A ironia é dupla: enquanto a Igreja Católica, ao longo dos séculos, passou por reformas internas, aboliu a venda de indulgências e modernizou muitos de seus dogmas, parte do universo protestante abraçou práticas que colocam o dinheiro no centro do sagrado.
Silêncio e conveniência
Outra semelhança inquietante: a centralização do poder. Assim como no passado o clero católico detinha o monopólio da interpretação bíblica, hoje muitos líderes evangélicos colocam-se como intermediários indispensáveis entre Deus e os fiéis. Questionar pastores virou tabu em certos círculos, e o culto à figura do líder, com seus jatinhos, relógios de luxo e mansões, lembra o luxo clerical que escandalizava os primeiros reformadores.
E diante disso, onde estão os novos Luteros? O silêncio da maioria dos líderes evangélicos históricos diante dessas distorções é revelador. A Reforma que um dia clamou por volta às Escrituras agora assiste, muitas vezes calada, ao evangelho ser transformado em negócio.
Um chamado à coerência
Não se trata de criticar a fé evangélica em sua essência, nem ignorar o trabalho sério de muitas igrejas no campo social. Mas é impossível não enxergar a contradição: aquilo que originou o protestantismo — o combate à corrupção espiritual — virou uma prática comum entre alguns de seus mais visíveis representantes.
A história parece girar em círculos. Da indulgência medieval ao pix ungido, o risco é o mesmo: transformar o sagrado em mercadoria. E talvez, em algum lugar do tempo, Lutero esteja revirando em sua tumba — não por causa da Igreja Católica, mas por aquilo em que parte do protestantismo se tornou.



















