Omissão do BC

O Silêncio do Banco Central: A Ascensão do Banco Master na Era Bolsonaro e as Conexões Políticas Que Ainda Não Foram Explicadas

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Editorial JK
⁠O fenômeno Master: o banco que cresceu rápido demais
Entre 2019 e 2022, período da presidência de Jair Bolsonaro, o Banco Master deixou de ser um player médio do mercado financeiro para tornar-se um dos bancos que mais cresciam em operações estruturadas, crédito consignado, FIDCs e produtos com alto grau de alavancagem.
O crescimento, segundo analistas consultados à época, não era apenas veloz — era atípico. Enquanto instituições tradicionais limitavam riscos por causa da volatilidade econômica e da pandemia, o Master seguia caminho inverso: ampliava carteiras, comprava carteiras de crédito de fintechs, expandia produtos, assumia operações consideradas de risco elevado e atuava em nichos que outros bancos evitavam.
.⁠⁠Os alertas que chegaram ao Banco Central
Documentos de mercado, pareceres de auditorias independentes, reclamações formais e relatórios internos — todos citados por profissionais do setor — indicavam práticas pouco ortodoxas do Master, incluindo:
•operações de crédito com lastro duvidoso;
•taxas de captação incompatíveis com o risco do portfólio;
•triangulações envolvendo FIDCs e empresas parceiras;
•altas reclamações de consumidores em produtos estruturados;
•suspeitas de “empacotamento” de créditos ruins para revenda;
•uso de correspondentes bancários com histórico controverso.
Fontes do mercado afirmam que ao menos três alertas chegaram formalmente ao Banco Central, então presidido por Roberto Campos Neto. Nos bastidores, comenta-se que servidores de carreira pediram “avaliação mais profunda” sobre práticas contábeis e risco sistêmico.
Nada ocorreu.
Nenhuma intervenção, nenhuma auditoria extraordinária, nenhuma sinalização pública.
 ⁠O silêncio ensurdecedor de Roberto Campos Neto
A omissão de Campos Neto é hoje vista como a peça central do quebra-cabeça.
Por que o Banco Central — que interveio em instituições muito menores por riscos muito menores — optou pela complacência com o Master?
Especialistas apontam três hipóteses:
(a) Pressões políticas e o ambiente pró-desregulação do governo Bolsonaro
O governo estimulava flexibilização regulatória, acelerava autorizações e defendia “menor interferência” do Estado no mercado.
(b) Proximidade entre dirigentes do Master e figuras políticas influentes
Executivos do Master integravam círculos de relacionamento com parlamentares da base bolsonarista. Em Brasília, era comum vê-los em eventos, recepções e encontros de lobby regulatório.
(c) A estratégia de Campos Neto de blindar o BC de escândalos às vésperas da autonomia formal (2021)
A autonomia do BC foi uma das principais vitórias políticas de Bolsonaro. Qualquer intervenção polêmica poderia criar ruído com o Congresso.
Uma pergunta permanece:
Campos Neto silenciou por convicção técnica ou por conveniência política?
 ⁠As conexões políticas: um mapa que se repete
A ascensão do Master coincidiu com um período em que sua alta direção estreitou laços com:
•deputados federais ligados ao setor financeiro;
•senadores de estados onde o banco ampliava operações;
•operadores políticos com trânsito no Ministério da Economia;
•lobistas com ligações no Palácio do Planalto.
Um nome específico — não citado diretamente por veículos nacionais para evitar litígios — é apontado como o articulador político do Master. Ele teria trânsito em:
•gabinetes do Centrão;
•parlamentares da bancada evangélica;
•assessores da Casa Civil;
•figuras do entorno de Paulo Guedes.
Em todas essas arenas, o Master buscava três objetivos:
1.ampliar operações no consignado;
2.proteger FIDCs no Congresso;
3.evitar alterações regulatórias que afetariam seus produtos estruturados.
 ⁠O elo mais incômodo: a relação indireta com uma financeira ligada ao PCC
Um dos capítulos mais delicados dessa investigação envolve uma financeira parceira do Master, investigada por autoridades estaduais e federais por supostas operações ligadas à lavagem de dinheiro do PCC.
Essa financeira — cujo nome aparece em relatórios de inteligência — teria:
•recebido aportes suspeitos de empresas “de fachada”;
•realizado empréstimos para terceiros sem lastro;
•servido como “ponte” entre capitais de origem duvidosa e o mercado formal;
•usado correspondentes bancários em regiões vulneráveis.
O ponto crítico:
ela mantinha operações de crédito compartilhadas, loteamentos de carteira e interação operacional com produtos do Master.
Importante ressaltar:
➡️ Não há evidência de participação direta do Master em qualquer atividade criminosa.
➡️ O problema é regulatório: como o Banco Central não investigou essa conexão, mesmo após sinais de risco?
Essa pergunta nunca foi respondida por Campos Neto. ⁠O modus operandi: a “zona cinzenta” do mercado financeiro
O Master se especializou em operar naquilo que analistas chamam de zona regulatória cinzenta:
•produtos híbridos entre investimento e crédito;
•vendas por correspondentes independentes;
•transferências rápidas de carteiras;
•securitização pouco transparente;
•operações com fintechs sem estrutura robusta de compliance.
Essa estrutura — legítima em tese — facilitava que:
•empresas problemáticas orbitassem o ecossistema;
•parceiros terceiros captassem clientes sem supervisão;
•carteiras fossem “fatiadas” de maneiras que mascaravam riscos.
A pergunta incômoda:
Como o BC não encontrou nada relevante para investigar, enquanto o mercado inteiro comentava?
As denúncias internas que nunca avançaram
Ex-funcionários (em depoimentos públicos e processos trabalhistas) mencionam:
•pressões por metas agressivas;
•pouca transparência em precificação de produtos;
•dificuldades internas de auditoria;
•pressão para acelerar operações com parceiros controversos.
Em ao menos dois casos, denúncias foram encaminhadas a órgãos de controle.
Nenhuma resultou em ação efetiva.⁠ ⁠O sistema político e o Master: interesses cruzados
A relação com políticos não se dava apenas por lobby. Incluía:
•doações indiretas através de empresários amigos;
•consultorias contratadas por empresas ligadas a assessores;
•relações societárias cruzadas em projetos regionais;
•apoio em votações-chave sobre regulação financeira.
O Master tornou-se um ator influente — e influenciar era parte da estratégia de expansão.
⁠ ⁠O que o BC deveria ter feito (e não fez)
Especialistas afirmam que o Banco Central poderia, no mínimo, ter realizado:
•auditoria extraordinária;
•revisão prudencial de carteiras;
•análise de parceiro de risco (KYC ampliado);
•enquadramento de produtos com risco sistêmico;
•verificação de correspondentes e fintechs associadas.
Nenhuma dessas medidas foi adotada.
 ⁠A sombra do PCC no sistema financeiro
A suposta ligação indireta do Master com uma financeira sob investigação é parte de um fenômeno maior: o PCC buscando institucionalizar seus fluxos financeiros para:
•profissionalizar lavagem de dinheiro;
•operar redes de crédito;
•usar correspondentes e fintechs menores com baixa supervisão;
•entrar em setores legalizados (postos, gás, logística, transportes).
O caso Master expõe o seguinte problema estrutural:
O crime organizado aprendeu a usar a desregulação para infiltrar-se em nichos legítimos do mercado financeiro.
 ⁠O pós-Bolsonaro: o que mudou?
Com a mudança de governo e maior rigidez regulatória, surgiram:
•maior escrutínio sobre FIDCs;
•investigações sobre correspondentes;
•fiscalização mais intensa em fintechs;
•discussões sobre regulação de crédito consignado digital.
Curiosamente, parte das operações do Master perdeu velocidade.
Coincidência? Talvez.
Conveniente? Sem dúvida.
 ⁠As perguntas que ainda não foram respondidas
1.Por que o Banco Central ignorou alertas sobre o Master?
2.Por que Roberto Campos Neto nunca se pronunciou sobre operações da instituição durante seu mandato?
3.Qual o verdadeiro grau de influência política dos dirigentes do Master em Brasília?
4.Quais foram as conexões reais entre o Master e a financeira investigada por ligações com o PCC?
5.O crescimento do Master foi resultado de competência — ou de complacência regulatória?
Até que essas perguntas sejam respondidas, a ascensão do Banco Master continuará sendo um dos episódios mais nebulosos do sistema financeiro brasileiro na última década.
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