Tiro no Senado

O dia em que um senador matou outro dentro do Senado

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Por Rodrigo Rodrigues

Brasília, 5 de dezembro de 1963 – o plenário vira cena de tragédia política

“TIROS NO SENADO — UM SENADOR MORTO!”

Manchete do jornal Correio da Manhã, 6 de dezembro de 1963

Naquela manhã abafada de quinta-feira, Brasília ainda era uma cidade em construção, com seus ministérios de concreto e avenidas largas cheias de poeira vermelha. Mas dentro do majestoso Palácio do Congresso Nacional, o clima era ainda mais quente.
O Senado, acostumado a debates inflamados, viveria um de seus dias mais trágicos: o momento em que um senador matou outro dentro do plenário.

Os protagonistas: Arnon e Silvestre, a rivalidade de Alagoas

O senador Arnon de Mello, de 53 anos, era uma das figuras mais influentes de Alagoas — jornalista, ex-governador e patriarca de uma das famílias mais poderosas do estado.
Seu desafeto histórico, o também alagoano Silvestre Péricles de Góis Monteiro, vinha de uma linhagem militar e política igualmente poderosa. Os dois se alternavam entre alianças e traições desde os anos 40, e a rivalidade se tornara pessoal.

Nos corredores do Senado, era sabido que os dois não se suportavam.
Naquele dia, ambos estavam presentes em uma sessão aparentemente rotineira, mas carregada de tensão. Segundo testemunhas, Arnon recebera informações de que Silvestre prometia “acertar contas” pessoalmente com ele.

O momento do crime

Por volta das 10h da manhã, durante a sessão plenária, o senador Silvestre levantou-se de sua cadeira e dirigiu-se em direção a Arnon, que ocupava uma das primeiras fileiras.
Em um gesto rápido, Arnon sacou um revólver calibre .32 de dentro do paletó.
Ouviram-se dois estampidos. O primeiro atingiu o peito do senador José Kairala, do Acre, que estava de pé, conversando com outro colega a poucos metros de distância.

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“Foi tudo muito rápido. O senador Arnon sacou a arma e atirou. Houve pânico, gritos, e muitos se jogaram ao chão”, relatou o repórter José Leal, do jornal O Globo.

Kairala caiu imediatamente, atingido mortalmente. O plenário mergulhou no caos. Servidores tentaram socorrê-lo, mas o senador morreu ainda no local, minutos depois, a caminho da enfermaria do Senado.

“SENADOR ARMADO MATA COLEGA — CONFUSÃO NO PLENÁRIO”

Manchete de O Globo, 6 de dezembro de 1963

A notícia correu o país em minutos.
Radialistas interromperam a programação e jornais da noite circularam com manchetes de guerra. O Brasil, atônito, assistia à tragédia política mais insólita desde a fundação da República.

A prisão e o julgamento

Arnon de Mello foi detido dentro do próprio Senado e levado sob forte escolta policial.
Nas fotos da época, aparece de terno claro e semblante tenso, cercado por repórteres e policiais militares.
Ele alegou legítima defesa, afirmando que Silvestre Péricles havia se aproximado de modo ameaçador e que ele “temeu ser alvejado primeiro”.

O processo judicial arrastou-se por meses.
Em 1964, o tribunal decidiu pela absolvição de Arnon de Mello, considerando o disparo “um ato instintivo de defesa” e a morte de Kairala “um trágico acidente”.

A decisão foi recebida com perplexidade e indignação pela opinião pública, mas não houve cassação do mandato. Arnon voltou ao Senado e concluiu seu período legislativo.
Já Silvestre Péricles continuou sua carreira política, mas sem jamais perdoar o rival.

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A vítima esquecida

José Kairala, o senador morto, era um homem simples, eleito pelo Acre, sem grandes influências ou fortuna.
Foi lembrado com discursos e homenagens protocolares, mas seu nome logo desapareceu da memória política nacional. Sua família recebeu uma pequena indenização, e o caso nunca mais foi reaberto.

O eco histórico

A tragédia ocorreu poucos meses antes do golpe militar de 1964.
Para muitos historiadores, o episódio simboliza a degradação moral e o colapso da convivência política que antecederam o fim da democracia no Brasil.
Em um país mergulhado em polarizações, o tiro de Arnon de Mello foi mais do que um ato de violência: foi um presságio do que viria.

“O Senado, casa da palavra, foi transformado naquele dia em casa da bala.”
— Comentário editorial do jornal Última Hora, 7 de dezembro de 1963. um tiro que ecoa até hoje

Décadas depois, o episódio ainda causa espanto.
O filho de Arnon, Fernando Collor de Mello, tornou-se presidente do Brasil em 1990, e o episódio do tiro no Senado voltou às manchetes, agora em tom de curiosidade histórica.
Mas, para os poucos que se lembram de José Kairala, o nome é sinônimo de injustiça e impunidade.

“O tiro que calou um senador, e envergonhou o país.”

O caso de 1963 é mais do que uma nota de rodapé: é um lembrete sombrio de que, quando o diálogo dá lugar à violência, a democracia sangra.

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