Por Rodrigo Rodrigues
Os que carregam o Brasil nas costas
No debate político brasileiro é comum ouvir falar das chamadas bancadas temáticas no Congresso Nacional. Há a poderosa bancada ruralista, que representa o agronegócio; a bancada evangélica, que articula pautas de caráter religioso e cultural; e a chamada bancada da bala, ligada ao setor de segurança e à indústria armamentista. Nos últimos anos, consolidou-se também outra força ainda mais poderosa, embora menos explícita: a bancada do sistema financeiro — talvez a mais dominante de todas.
Em meio a esse mosaico de interesses organizados, há um setor essencial da economia brasileira que, paradoxalmente, permanece sem uma representação política clara e robusta: o comércio.

São os comerciantes, na prática, que carregam o país nas costas.
Em um país continental como o Brasil, o comércio é a espinha dorsal da economia cotidiana. Ele está presente em absolutamente todos os municípios — das grandes capitais às pequenas cidades do interior. Onde há vida econômica, há um comerciante abrindo as portas cedo, acendendo as luzes da loja, organizando prateleiras, recebendo fornecedores e atendendo clientes.
É o pequeno mercado do bairro, a farmácia da esquina, a padaria que abre antes do amanhecer, a loja de roupas da rua principal, o armazém do interior, o atacadista que abastece regiões inteiras. São milhares de empreendedores que diariamente assumem riscos, geram empregos e mantêm a circulação de renda nas cidades.
Segundo dados do IBGE e do Sebrae, micro, pequenos e médios negócios respondem por uma parcela gigantesca dos empregos no país. Em muitas cidades brasileiras, especialmente fora dos grandes centros industriais, o comércio é simplesmente o principal motor da economia local.

Mais do que isso: o comércio é o grande esteio da própria indústria.
Sem o lojista, o distribuidor e o atacadista, a produção industrial não chega ao consumidor. A indústria pode fabricar, mas é o comércio que transforma produção em economia real. É nas vitrines, nas gôndolas e nos balcões que os produtos ganham vida econômica.
Apesar dessa centralidade, os comerciantes brasileiros não possuem uma bancada forte no Congresso Nacional que os represente de forma organizada.
Enquanto o agronegócio construiu uma das mais influentes frentes parlamentares do país, enquanto igrejas organizam sua representação política com grande eficácia, e enquanto setores ligados à segurança pública ganharam protagonismo político, o comércio permanece praticamente órfão de defesa institucional.

E, no topo da pirâmide de poder econômico, paira ainda a poderosa bancada do sistema financeiro.
No Brasil, os grandes bancos exercem influência decisiva sobre a política econômica e legislativa. Não se trata apenas de lobby — algo comum em qualquer democracia — mas de um poder estrutural que molda decisões sobre juros, crédito, endividamento público e tributação.
Para muitos empresários do setor produtivo, especialmente os pequenos e médios comerciantes, o sistema financeiro brasileiro muitas vezes se comporta como uma espécie de agiotagem institucionalizada. As taxas de juros cobradas no crédito empresarial ou no rotativo do cartão de crédito figuram entre as mais altas do mundo, criando um ambiente em que empreender frequentemente significa também conviver com um permanente peso financeiro.
Enquanto bancos acumulam lucros bilionários ano após ano, o comerciante comum luta para pagar aluguel, folha de pagamento, impostos e financiamentos. A conta do risco econômico recai quase sempre sobre quem está na ponta: o empreendedor que abre a porta da loja todos os dias.

Mesmo diante desse cenário, o comércio brasileiro demonstra uma resiliência impressionante.
Resiste à carga tributária complexa, à burocracia, aos juros elevados, à concorrência da informalidade e às oscilações do consumo. Resiste também à insegurança urbana, aos custos logísticos e às constantes mudanças nas regras econômicas.
Ainda assim, todas as manhãs, milhões de comerciantes levantam suas portas de aço.
São eles que financiam empregos, sustentam cadeias produtivas, movimentam bairros e garantem que a economia chegue ao cidadão comum. Quando uma loja fecha em uma pequena cidade, não é apenas um ponto comercial que desaparece — é um pedaço da vitalidade econômica daquela comunidade.
Talvez por isso o comércio seja, ao mesmo tempo, um dos setores mais essenciais e mais silenciosos da economia brasileira.
Sem discursos inflamados em Brasília, sem grandes bancadas organizadas, sem protagonismo político permanente, os comerciantes seguem fazendo aquilo que sempre fizeram: trabalhando, empregando e fazendo a economia girar.
Enquanto muitas forças disputam poder nos corredores do Congresso, são eles que continuam, discretamente, sustentando o país no balcão.





























