Nova Moeda

Russia abandona o SWIFT inaugura nova fase na geopolitica financira

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Por Rodrigo Rodrigues

A decisão da Rússia de abandonar de vez o sistema SWIFT marca um ponto de inflexão na disputa pela hegemonia monetária global. Moscou, isolada pelas sanções do Ocidente desde 2022, vem aprofundando alianças com China, Índia e Irã, criando uma rede de pagamentos alternativa ao domínio do dólar. O movimento, ainda restrito em escala, sinaliza o surgimento de um novo paradigma financeiro que desafia diretamente os Estados Unidos e seus aliados europeus.

O SWIFT — sigla para Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication — é, desde os anos 1970, o mecanismo que garante a interconexão de bancos em todo o mundo. Embora não movimente dinheiro diretamente, funciona como a infraestrutura que permite transferências rápidas e seguras entre instituições financeiras globais. Sua neutralidade sempre foi proclamada, mas na prática tornou-se um instrumento de poder geopolítico: ao cortar bancos russos da rede, o Ocidente praticamente congelou a capacidade de Moscou de negociar em dólar e euro.

Em resposta, o Banco Central da Rússia acelerou o desenvolvimento do Sistema de Transferência de Mensagens Financeiras (SPFS), um “espelho” do SWIFT, mas restrito a bancos parceiros. A partir de 2023, este sistema foi integrado parcialmente ao CIPS chinês, permitindo liquidações em rublos e yuans. O resultado é que uma parte significativa das exportações de petróleo e gás da Rússia já não passa mais por Nova York ou Londres, mas sim por canais financeiros alternativos.

A mudança tem implicações profundas no comércio energético. Historicamente, desde os acordos de Bretton Woods e a consolidação do “petrodólar” nos anos 1970, quase todas as transações internacionais de petróleo foram liquidadas em dólar. Esse arranjo garantiu não apenas liquidez à moeda americana, mas também uma fonte de financiamento quase ilimitada ao Tesouro dos Estados Unidos. Ao negociar com China, Índia e Irã em moedas locais, a Rússia mina as bases desse acordo tácito que sustentou o “império do dólar”.

Para Pequim, a oportunidade é estratégica. A China é hoje o maior comprador de energia russa e vem promovendo a internacionalização do yuan como moeda de comércio e reservas. A parceria com Moscou acelera esse processo, oferecendo liquidez em operações bilaterais e incentivando países do Sul Global a diversificarem suas reservas. Pequim vê, ainda, a chance de reduzir a vulnerabilidade de sua economia a choques vindos de Washington.

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A Índia, embora tradicionalmente mais alinhada ao Ocidente, também se beneficia. Nova Délhi garante acesso a petróleo russo com desconto, paga parte em rúpias e parte em yuans, e ainda amplia sua margem de manobra diplomática. O pragmatismo indiano reforça a percepção de que a disputa não é apenas ideológica, mas essencialmente econômica. O Irã, por sua vez, encontra nesse bloco um respiro contra décadas de isolamento imposto pelos EUA e Europa.

Especialistas ressaltam que a desdolarização ainda está longe de ser uma realidade plena. O dólar continua sendo 58% das reservas cambiais globais e está presente em mais de 80% das transações comerciais internacionais. Nenhuma outra moeda possui a mesma profundidade de mercado, liquidez e confiança institucional. Porém, a relevância crescente do yuan e o uso regionalizado do rublo mostram que o processo de erosão da hegemonia americana já começou.

O Brasil e outros países do BRICS observam a movimentação com atenção. O debate sobre a criação de uma moeda comum do bloco ganha fôlego, mas por ora a prioridade é ampliar a compensação em moedas locais. O uso do real em parte das exportações brasileiras para a China é exemplo de um movimento tímido, mas simbólico. No longo prazo, o avanço da desdolarização pode baratear transações, reduzir dependência cambial e abrir espaço para maior autonomia monetária.

No mercado financeiro internacional, o anúncio russo provocou cautela. Bancos globais ainda veem dificuldades técnicas e jurídicas em operar fora do SWIFT, mas investidores começam a precificar um mundo em que as reservas internacionais não dependem exclusivamente de Treasuries americanos. A diversificação para ouro, yuan e até moedas digitais de bancos centrais já é visível em relatórios de casas de análise.

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A médio prazo, especialistas apontam três cenários. O primeiro, de resistência, em que o dólar mantém sua dominância e absorve os choques. O segundo, de erosão gradual, em que moedas regionais ganham força em nichos específicos, como energia, minérios e alimentos. O terceiro, de ruptura, em que uma crise de confiança no Tesouro dos EUA acelera a transição para um sistema multipolar de moedas. A Rússia aposta claramente na segunda hipótese, mas sem descartar a terceira.

Há também o componente político. O abandono do SWIFT não é apenas uma decisão econômica, mas uma declaração de soberania. Para o Kremlin, trata-se de mostrar que sanções não são mais capazes de sufocar sua economia. Para o Ocidente, o risco é que outros países sigam o mesmo caminho, enfraquecendo a eficácia de um dos principais instrumentos de pressão diplomática.

O Fundo Monetário Internacional já alertou que a fragmentação financeira global pode encarecer custos de transação, reduzir a eficiência do sistema e aumentar a volatilidade cambial. Porém, para países emergentes, o custo pode valer a pena, se significar maior autonomia frente a Washington e Bruxelas. É nesse dilema que se encontram Brasil, África do Sul e outros parceiros dos BRICS.

Em última análise, a saída da Rússia do SWIFT não é apenas um capítulo da guerra financeira em curso, mas o sintoma de um rearranjo estrutural do sistema monetário internacional. Assim como em 1971, quando o presidente Richard Nixon rompeu a conversibilidade do dólar em ouro, o gesto russo pode ser lembrado no futuro como o início do fim da era do dólar absoluto.

Ainda é cedo para decretar o desmoronamento do “império do dólar”. Mas é inegável que a exclusão da Rússia, em vez de enfraquecer apenas Moscou, abriu uma caixa de Pandora que dá fôlego a projetos alternativos e reacende um debate que parecia adormecido: quem deve mandar no dinheiro do mundo?

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