O que acontece a partir de agora

A partir dessas evidências, a Anvisa e o Ministério da Saúde aprovaram o início de estudos clínicos de fase 1 com a polilaminina.

Essa fase vai avaliar a segurança da substância em cinco pacientes, para conferir se a aplicação é bem tolerada e não provoca efeitos colaterais graves.

Sampaio explica que todos os cinco pacientes terão o tipo mais severo de lesão medular, a lesão modular completa, e na região torácica. A injeção da substância deverá ocorrer em até 72 horas após o acidente.

“A maioria dos pacientes que sofrem uma lesão medular tem necessidade de uma abordagem cirúrgica de emergência, então, a aplicação é feita nesse momento”, destacou.

O estudo será conduzido em parceria com o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, instituições que contam com cirurgiões treinados para a aplicação da substância.

Já a etapa de reabilitação contará com o apoio da AACD, organização sem fins lucrativos dedicada ao tratamento de pessoas com mobilidade reduzida permanente ou temporária.

A previsão é que essa etapa seja concluída em cerca de um ano. Se os resultados forem considerados positivos, o estudo avança para a fase 2, cujo objetivo é determinar a eficácia do tratamento.

Em seguida, uma eventual fase 3 combina análises de segurança e eficácia, com ainda mais rigor.

Somente após concluir esse processo, a Anvisa poderá avaliar a aprovação da polilaminina como tratamento para todos os pacientes que se encaixarem no perfil avaliado.

Segundo Rogério Almeida, da Cristália, a ideia é concluir a fase 1 até o fim deste ano e evitar que cada etapa ultrapasse um ano de duração.

“Agora, precisamos gerar os dados clínicos, em seres humanos, dentro de todo o rigor regulatório que um estudo para registro de produto pede”, diz Almeida.

“Se tudo correr bem, em 2028, a gente conseguiria submeter o pedido de registro definitivo.”

Uso experimental por meio de liminares

Mesmo sem autorização para comercialização, e ainda em uma fase inicial de pesquisas, a polilaminina tem levado pessoas, com diferentes tipos de lesão medular, a entrar na Justiça para obter acesso ao tratamento por meio de liminares.

Para Sampaio, do ponto de vista científico, o uso de um tratamento experimental dessa forma é “errado, inadequado e impróprio”

“É errado do ponto de vista ético, porque a pessoa está fazendo uso de um tratamento experimental sem os resultados, sem que haja garantia de coleta de dados a partir desse uso”, avalia ela.

“Imagina se tiver um efeito adverso que acontece uma em cada cem pessoas. Ele ainda pode aparecer e a gente talvez não fique sabendo”, complementa a cientista.

Ao mesmo tempo, Sampaio destaca que é preciso também considerar o aspecto humano de uma situação dessas.

“Eu sou uma pessoa. Então, quando estou diante de um indivíduo que diz para mim: ‘Meu parente não tem nenhuma perspectiva de melhora. Tem uma lesão muito alta, vai ter uma qualidade de vida péssima. Me ajuda, por favor.'”

“E ela me pergunta: ‘Você acha que pode funcionar?’ Eu respondo: ‘Sim, acho.’ E aí eu ajudo”, declarou ela.

“Felizmente, eu não posso tomar essa decisão, mas um juiz pode.”

Para a médica fisiatra Ana Rita Donati, que não esteve envolvida diretamente nas pesquisas com a polilaminina, ainda é cedo para qualquer uso amplo ou fora de protocolos de pesquisa.

Ela pondera que é fundamental ter cautela, especialmente porque há casos de lesão medular em que o paciente pode apresentar melhora, mesmo sem o uso de novos remédios.

“A gente sempre tem que ter muita atenção quando fala em recuperação neurológica, porque já se espera algum grau de melhora mesmo sem a introdução de um medicamento novo”, explica a médica, que trabalha na AACD.

A médica reconhece a urgência sentida por quem está diante de uma lesão medular, mas lembra que avanços terapêuticos em outras áreas seguiram caminhos longos até chegar ao uso na prática clínica.

“A gente fica com expectativa, né? A gente quer dar a melhor condição para o paciente”, admite a especialista.

“Mas, nessas horas, a gente que tem o conhecimento, tem que ter mais tranquilidade para falar: ‘Calma, vamos respirar. Vamos ver como vai o desenrolar disso'”, prossegue.

“Vamos ainda precisar de um bom tempo para tentar entender. E um bom número de pacientes também, para a gente conseguir chegar a algumas conclusões [sobre a polilaminina].”