O GRANDE GOLPE

O estranho e cabuloso caso do rombo da Cooperlucas

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JK

Um episódio de 2000 e 2001, envolvendo a Cooperlucas, em Lucas do Rio Verde, que ainda levanta perguntas incômodas — justamente numa época em que moralidade e combate à corrupção voltam ao centro do discurso político

Existem histórias que o tempo não deveria apagar. O chamado caso Cooperlucas, em Lucas do Rio Verde, é uma delas.

Entre 2000 e 2001, um rombo estimado à época em aproximadamente R$ 200 milhões colocou a cooperativa e seus envolvidos no centro de uma crise que ganhou repercussão muito além de Mato Grosso. O episódio foi noticiado nacionalmente e deixou uma pergunta que permanece especialmente incômoda quando alguns dos personagens daquele período passaram a ocupar posições de enorme poder econômico e político.

Entre eles está Otaviano Pivetta, hoje governador de Mato Grosso e candidato à reeleição.

É importante separar duas coisas: uma é a existência do episódio e das acusações e processos relacionados a ele; outra é atribuir individualmente responsabilidade criminal definitiva sem apresentar a decisão judicial correspondente. Mas justamente por isso o assunto merece ser revisitado. O que aconteceu? Quem foi responsabilizado? O que foi efetivamente recuperado? E por que um episódio de tamanha dimensão financeira parece ter desaparecido do debate público?

Duzentos milhões de reais no início dos anos 2000 já representavam uma fortuna extraordinária. Atualizado apenas pela inflação, o montante alcançaria hoje uma cifra superior a R$ 1 bilhão, conforme o índice e a data utilizados. Se o mesmo capital tivesse permanecido aplicado durante todo esse período, a conta poderia ultrapassar R$ 5 bilhões, dependendo da taxa de remuneração adotada.

São números que ajudam a dimensionar o tamanho da discussão.

Não estamos falando de um pequeno erro contábil, de uma empresa que fechou as portas ou de uma aventura empresarial que deu errado. Estamos falando de uma cifra que, trazida para o dinheiro de hoje, representa uma soma capaz de mudar completamente a vida de qualquer pessoa.

E aqui começa a parte mais desconfortável dessa história.

Ao longo das décadas, alguns dos empresários ligados àquela geração do agronegócio mato-grossense construíram patrimônios gigantescos e passaram a ser apresentados como exemplos de eficiência, empreendedorismo e competência. Alguns chegaram à política. Outros se transformaram em referências econômicas. E o discurso passou a ser conhecido: quem venceu, venceu porque foi competente.

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Mas existe uma diferença entre contar a história do sucesso e contar toda a história do sucesso.

Quando aparecem cifras bilionárias, é legítimo perguntar qual foi o ponto de partida, quais foram os negócios realizados, quais foram as dívidas, quais foram os incentivos recebidos, quais foram os processos judiciais e, principalmente, qual foi o dinheiro público envolvido direta ou indiretamente.

Porque o discurso da competência fica incompleto quando se apaga a parte menos conveniente da biografia empresarial.

E isso vale para qualquer empresário que tenha participado da política.

O caso Cooperlucas deveria ser estudado justamente por essa razão. Não para condenar alguém antecipadamente, nem para transformar uma eleição em tribunal. Mas para impedir que a memória pública seja seletiva.

Quem ganhou? Quem perdeu? Quem pagou a conta? Quem recuperou o dinheiro? Quem foi responsabilizado?

Essas perguntas são mais importantes do que qualquer discurso de palanque.

E há uma ironia particularmente forte no Mato Grosso de hoje.

Enquanto se fala diariamente em moralidade, combate à corrupção, responsabilidade fiscal e eficiência do Estado, muitos dos mesmos setores que ocupam o espaço privilegiado do poder econômico apresentam-se como professores de administração pública.

O servidor público é frequentemente chamado de caro.

O funcionário público é aconselhado a empreender.

O Estado é acusado de gastar demais.

Mas quando a história envolve grandes grupos econômicos, incentivos, benefícios fiscais, dívidas, renegociações e recursos públicos, a conversa costuma assumir outro tom.

Aí aparece a palavra mágica: empreendedorismo.

Empreendedorismo é legítimo. Construir uma empresa é legítimo. Enriquecer honestamente é legítimo. O que não pode ser legítimo é transformar a riqueza acumulada em salvo-conduto moral.

E muito menos utilizar o sucesso econômico como argumento para não prestar contas sobre episódios controversos do passado.

O caso Cooperlucas precisa, portanto, sair da gaveta.

Não porque uma eleição precise ser transformada em acerto de contas, mas porque a democracia exige memória.

Se existem decisões judiciais definitivas, elas precisam ser conhecidas. Se existem processos arquivados, também. Se houve absolvições, devem ser registradas. Se houve condenações, igualmente. Se houve recuperação de valores, é preciso saber quanto. Se não houve, a sociedade tem o direito de perguntar por quê.

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É assim que se faz uma discussão séria sobre moralidade pública.

O que não pode acontecer é uma história de centenas de milhões de reais simplesmente desaparecer porque seus personagens ficaram poderosos demais para que alguém tenha coragem de perguntar.

E existe uma pergunta ainda maior.

Se aqueles R$ 200 milhões do início dos anos 2000 fossem hoje mais de R$ 1 bilhão apenas pela correção inflacionária — e potencialmente vários bilhões se considerado o custo de oportunidade de uma aplicação —, quanto patrimônio teria sido construído a partir daquele período?

Essa conta não serve para acusar ninguém. Serve para entender.

Porque a sociedade mato-grossense não precisa apenas saber quem ficou rico.

Precisa saber como as grandes fortunas foram construídas.

É perfeitamente possível ser empresário, ser político, ser rico e defender a moralidade. O que não é aceitável é usar a palavra “competência” como resposta universal para perguntas que exigem documentos.

O Mato Grosso de hoje é muito diferente daquele de 2000. Mas uma coisa não mudou: dinheiro público continua sendo dinheiro de todos.

E quando bilhões de reais estão em discussão, não existe passado suficientemente distante para impedir a pergunta.

O estranho caso da Cooperlucas ainda merece respostas.

E talvez a pergunta mais incômoda seja justamente a mais simples:

Se qualquer cidadão recebesse, no começo da vida, um “incentivo” de centenas de milhões de reais — ou tivesse à disposição recursos públicos equivalentes a bilhões de hoje —, também não seria muito mais fácil ser chamado de empresário competente?

A verdadeira competência empresarial deve sobreviver à transparência.

E a verdadeira moralidade pública também.

O que não pode existir é uma regra para o cidadão comum e outra para quem chegou ao topo do poder econômico e político.

 

A COOPERLUCAS manda um

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