Bohn & Krishnamurti

O ENCONTRO ENTRE DOIS ABISMOS: BOHM & KRISHNAMURTI

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Por Rodrigo Rodrigues

“As conversas que tentaram decifrar a mente humana”

. Quando o físico encontra o filósofo que rejeitava toda filosofia

O ano era 1961. David Bohm, já reconhecido como um dos físicos mais brilhantes e subversivos de sua geração, havia sido convidado a participar de uma palestra de um indiano pouco comum: Jiddu Krishnamurti, pensador que rejeitava gurus, religiões, tradições e sistemas.

Bohm esperava ouvir espiritualidades vagas. O que encontrou foi clareza cirúrgica.

Krishnamurti falava sobre:
• condicionamento mental,
• a ilusão do ego,
• o movimento do pensamento,
• e a fragmentação da consciência.

Bohm saiu atordoado. Aquele filósofo estava descrevendo a mente com uma precisão quase científica — mas sem fórmulas, sem números, sem teorias.

O físico decidiu procurá-lo. Começava ali uma relação que duraria três décadas.

A pergunta que uniu os dois: “Por que vivemos divididos?”

O centro da interlocução entre Bohm e Krishnamurti era simples e devastador:
por que seres humanos vivem fragmentados — internamente e socialmente?

Para Bohm, que estudava a ordem implícita do universo, essa fragmentação era quase um erro do pensamento.

Para Krishnamurti, a fragmentação era um mecanismo de defesa do ego — um truque da mente.

Bohm via em Krishnamurti aquilo que Einstein chamava de “pensadores originais”: pessoas que começam do zero, sem a bagagem de tradições.

Krishnamurti via em Bohm alguém que não buscava respostas prontas — o oposto do cientista dogmático.

Os diálogos: longos, intensos, às vezes explosivos

As conversas entre eles costumavam durar horas. Sentavam frente a frente, normalmente em Brockwood Park (Inglaterra), e mergulhavam em temas como:
• a estrutura do pensamento
• a natureza da percepção
• a raiz do medo
• a ilusão do observador
• a possibilidade de uma “mente não-condicionada”

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Bohm perguntava com rigor científico.

Krishnamurti devolvia com beleza poética — mas sempre precisa.

Ambos gravavam tudo. Os diálogos se transformariam em livros como O Fim do Tempo, A Totalidade da Vida, A Energia da Mente.

Quando Bohm tentou “teorizar” Krishnamurti — e ouviu um NÃO

Em certos momentos, o físico tentava sistematizar o que Krishnamurti dizia. Tentava dar “estrutura”, “modelo”, “lógica”.

Krishnamurti reagia:

“O momento em que você estrutura, você mata.”

Para ele, qualquer sistema se tornava prisão.

Bohm aceitava, a contragosto. Ele compreendia que a mente humana precisava de liberdade, mas sua formação o empurrava a organizar o caos.

Essa tensão os acompanharia por anos.

O ponto de fusão: o pensamento como sistema autocondicionado

Em um dos diálogos mais famosos, Bohm pergunta:

“Por que o pensamento retorna ao conflito, mesmo conhecendo o sofrimento que causa?”

Krishnamurti responde:

“Porque o pensamento é memória. E memória é passado.
Você vive do passado e chama isso de ‘eu’.”

Bohm percebe ali uma ponte entre psicologia e física:
• assim como partículas quânticas seguem padrões invisíveis,
• a mente humana segue padrões de condicionamento.

Desse encontro nasce um conceito central:
o pensamento cria problemas que ele mesmo tenta resolver.

Krishnamurti não era mestre; Bohm não era discípulo

Krishnamurti se recusava a ser visto como guru. Detestava o papel.

Bohm, por sua vez, nunca se colocou como seguidor — era um interlocutor.

Por isso, as conversas tinham a força de dois abismos se encontrando: não havia hierarquia, mas sim curiosidade absoluta.

As divergências — e o dia em que quase romperam

Nos anos 1980, Bohm começou a demonstrar preocupação com a maneira como alguns seguidores de Krishnamurti se comportavam — muito próximos do culto, muito devotos, pouco críticos.

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Krishnamurti, por outro lado, achava que Bohm estava ficando “cansado” e “mentalmente pesado”. Alguns diálogos ficaram tensos.

Em 1984, durante o livro O Fim do Tempo, Krishnamurti insistia em que o pensamento precisava morrer para surgir a “atenção sem escolha”. Bohm, exausto, tentava racionalizar.

Krishnamurti respondeu:

“Você está preso em sua própria rede.”

Bohm ficou profundamente ferido.

O relacionamento esfriou. Ficaram meses sem se falar.
Voltaram a conversar somente pouco antes da morte de Krishnamurti, em 1986.

A despedida: um vínculo que nunca se rompeu totalmente

Nos últimos encontros, Krishnamurti disse algo que marcou Bohm:

“Nós vimos juntos algo muito profundo. Não perca isso.”

Bohm chorou. Poucos sabiam, mas ele considerava Krishnamurti “o ser humano mais lúcido que conhecera”.

Após a morte do filósofo, Bohm entrou em depressão profunda.
Continuou escrevendo sobre consciência, ordem implícita e totalidade — mas a chama do diálogo havia se apagado.

O impacto intelectual da dupla

O encontro entre os dois gerou uma das mais ousadas combinações do século XX:
• ciência sem reducionismo
• filosofia sem dogmas
• psicologia sem Freud
• espiritualidade sem religião

Foram dois pensadores tentando libertar a mente do condicionamento — um pela física, outro pela observação direta da consciência.

O legado para o futuro

Hoje, estudiosos de:
• neurociência,
• inteligência artificial,
• estudos de consciência,
• filosofia da mente
• e física quântica

voltam aos textos Bohm–Krishnamurti como quem revisita mapas antigos de territórios ainda não explorados.

Eles sabiam que estavam à frente do tempo.
E talvez ainda estejam.

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