Por Bia Azevedo
Pioneiro no combate ao racismo científico e humanista na medicina, Juliano Moreira desafiou os preconceitos de seu tempo e deixou um legado indelével na saúde mental brasileira

Nascido em Salvador, na Bahia, em 6 de janeiro de 1872, Juliano Moreira foi um dos maiores nomes da medicina brasileira e uma figura revolucionária na luta contra o racismo científico e os métodos desumanos no tratamento de pessoas com transtornos mentais. Filho de uma empregada doméstica negra, Moreira superou as barreiras sociais e raciais do final do século XIX para se tornar um dos primeiros médicos negros do Brasil e referência internacional em psiquiatria.
Graduado pela Faculdade de Medicina da Bahia com apenas 18 anos, Juliano se destacou desde cedo por sua inteligência e dedicação. Em um período em que predominavam teorias eugenistas — que relacionavam doenças mentais a fatores raciais — ele foi uma voz contrária ao determinismo biológico, defendendo que o ambiente social, as condições econômicas e culturais eram determinantes muito mais relevantes para o adoecimento mental do que a raça.
Ainda jovem, foi estudar na Europa e trouxe para o Brasil conceitos mais modernos de psiquiatria, influenciado por correntes alemãs e francesas da medicina mental. Em 1903, assumiu a direção do então Hospício Nacional de Alienados, no Rio de Janeiro, e promoveu uma verdadeira revolução institucional: acabou com as celas, punições físicas e métodos humilhantes, substituindo-os por práticas terapêuticas e mais humanas. Foi também responsável pela introdução de atividades artísticas e ocupacionais para os pacientes, além de uma reestruturação arquitetônica dos espaços.
Juliano Moreira foi o primeiro a propor a criação de uma legislação voltada à saúde mental no Brasil e teve papel fundamental na fundação da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal. Atuou como professor, pesquisador e gestor público, sempre defendendo a dignidade humana e o acesso universal à saúde.
No campo social, foi uma figura de destaque no combate ao racismo e ao preconceito. Em uma época marcada por teorias de inferioridade racial, ele desafiava o senso comum com sua trajetória e seu trabalho científico, desmentindo mitos sobre a suposta inferioridade intelectual dos negros. Casou-se com uma alemã branca, enfrentando resistência da sociedade e da imprensa da época.
Juliano Moreira faleceu em 2 de maio de 1933, mas seu legado permanece atual. Seu nome hoje batiza hospitais psiquiátricos, centros de pesquisa e ruas pelo Brasil. É lembrado não apenas como um pioneiro da psiquiatria moderna, mas também como um símbolo da luta antirracista e do humanismo médico.

Legado de Juliano Moreira
•Primeiro médico negro a se tornar professor universitário e diretor de hospital psiquiátrico no Brasil.
•Introduziu o conceito de terapias ocupacionais e artísticas em hospitais psiquiátricos.
•Foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Psiquiatria.
•Combateu o racismo científico e o determinismo biológico em suas pesquisas.
•Inspirou políticas públicas de saúde mental e leis voltadas à proteção dos pacientes psiquiátricos.
Em tempos em que a saúde mental volta ao centro do debate público, revisitar a história de Juliano Moreira é também refletir sobre dignidade, inclusão e a luta contra o preconceito.
COMENTE ABAIXO:


























