Paralisia, apatia, covardia e fantasia tomaram conta do que deveria ser a base popular de um ex-progressista, cujo mandatário se preocupa mais em ser liderança internacional do que enfrentar seus algozes no Congresso e até dentro da “cozinha do Planalto”
Por João Negrão
Aquele gritinho imbecil de passeantes quando Dilma Rousseff agonizava em 2016 já era um indicativo de que os movimentos sociais deixaram de ser movimentos e forças sociais. “Não! vai ter gol-peee!”
Uma palavra de ordem tão fraca política como ideológica. Depois feito o “Fo-ra Te-mer!” E, na sequência, o “Fo-ra! Bol-so-na-rooo!”
Teve golpe, Michel Temer fez seu desgoverno até o fim e Bolsonaro cumpriu seus quatro anos de desastre.
E para quê serviram aquelas palavras de ordem bobinhas? Apenas para uma coisa: catarse.
Era tão evidente que até as forças policiais a partir de um dado momento só assistiam, porque seus comandantes já davam ordem para só assistirem e não reprimir, orientados pelos ideólogos da ultradireita que perceberam que aquelas palavras de ordem “inocentes” só cumpriam a função catártica.
Impedir golpe, tirar o traidor do poder e derrubar o fascista era puro delírio, fantasia.
Os passeantes saiam das ruas, voltavam para suas casas ou seguiam para os bares da vida “de alma lavada”. Enquanto isso a boiada do golpe passava incólume.
E a turma paralisada, apática, numa covarde postura de que foi lá, berrou, mal ergueu o punho e considerou ter cumprido sua parte.
Agora, quando a extrema-direita estabelece uma perigosa aliança com a direita no Congresso Nacional, as lideranças dos movimentos sociais ainda apáticas e covardes, revivem a mesma fantasia.
A cada eleição constatamos que o parlamento brasileiro se torna pior. Este é o pior de todos, mas em 2027, quando tomarem posse os eleitos no ano que vem, a coisa ficará pior ainda.
A extrema-direita avança e não esconde seu propósito de tomar de assalto o Senado e interferir na composição do Supremo Tribunal Federal. Não pensem que só a cabeça de um Alexandre de Moraes ou de um Gilmar Mendes vai rolar. Até o benevolente com ela, um certo Luiz Fux, pode se tornar alvo.
Somem-se a isto o movimento, por ora sub-reptício, do semipresidencialismo.
Por enquanto, a extrema-direita, aliada à direita, avança com voracidade sobre o governo Lula, enquanto o presidente está mais preocupado em ser um grande líder mundial e deixa de enfrentar com afinco seus algozes no Congresso Nacional e até dentro da “cozinha do Planalto”.
É ele também um governo apático e covarde diante do monstro que vem corroendo desde o início os interesses de setores justamente da sua base social.
Atentem para o que é o Incra, a Funai, a Fundação Palmares, o Ibama e outros órgãos importantes diante da ferocidade de “aliados” de uma coalisão fantasiosa.
Reparem: o governo tem rifado pautas dos sem-terra, dos indígenas, dos quilombolas e ambientais, tudo em nome de uma governabilidade sempre ameaçada pelos oportunistas de fora e de dentro.
Enquanto isso, os movimentos sociais – ou melhor, suas lideranças – continuam apáticos, covardias e nutrindo a fantasia de que uma postagemzinha em redes sociais já está de bom tamanho.
* João Negrão é jornalista em Brasília.




























