Editorial:“O discurso mobiliza, mas as ações é que arrastam multidões”

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Editorial JK

O discurso mobiliza, mas as ações é que arrastam multidões”

Há décadas o Brasil aprendeu a conviver com uma gramática repetitiva: discursos inflamados sobre segurança pública, promessas de “endurecer a lei”, operações espetaculares para televisão e discursos moralistas em época eleitoral. Mas, passado o calor das palavras, o país retorna ao mesmo ponto: mais violência, mais medo, mais desigualdade e uma justiça que, apesar de sua retórica altissonante, segue funcionando como um filtro seletivo — dura para os pobres, leniente com os ricos.

O problema central não está na ausência de falas enérgicas. Está na falta do essencial: ação real e igualitária. Porque o discurso mobiliza, sim — cria manchetes, gera cliques, rende palanque. Mas são as ações concretas, imparciais e corajosas que arrastam multidões, que mudam a cultura institucional, que quebram ciclos históricos.

E, no Brasil, essa coragem ainda emperra justamente onde mais deveria existir: no enfrentamento aos criminosos do andar de cima.

O crime do colarinho branco continua intocado

Enquanto ladrões de celular e pequenos traficantes são massacrados na base da pirâmide penal, os grandes operadores do crime financeiro, os fraudadores do sistema bancário, os sonegadores profissionais, os lobistas travestidos de empresários, os operadores ocultos do mercado — os famosos “Faria Limers” de terno bem cortado e sapatos importados — seguem circulando entre restaurantes caros, reuniões exclusivas e jatinhos fretados.

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Eles roubam milhões, às vezes bilhões, dilapidam fundos públicos, desviam verbas da saúde e educação, fraudam licitações, manipulam informações internas, corrompem autoridades — e ainda assim raramente enfrentam o peso da justiça com a mesma severidade que o jovem periférico que furtou um pacote de macarrão.

A impunidade da elite econômica é tão estrutural que virou quase um componente do PIB brasileiro. Ela corrói a confiança social, desmoraliza o Estado e produz um sentimento coletivo de injustiça — terreno perfeito para a criminalidade multiplicar-se.

Justiça que protege privilégios produz insegurança para todos

Quando o sistema jurídico escolhe quem punir com base no CEP, no sobrenome ou no valor da conta bancária, ele deixa de ser justiça. Torna-se um aparato de preservação de privilégios.

E esse desequilíbrio tem consequências:
• Alimenta a descrença nas instituições.
• Gera sensação de abandono.
• Faz a criminalidade parecer, para muitos, a única forma possível de ascensão.
• Incentiva as máfias econômicas e financeiras, que operam com a segurança de quem sabe que será salvo por bons advogados, lobby e contatos certos.

Não existe sociedade segura quando ricos corruptos vivem acima da lei.

A criminalidade não será reduzida enquanto a elite ilícita estiver blindada

É impossível combater o crime atacando apenas a periferia.
É impossível reduzir homicídios sem reduzir corrupção.
É impossível desarticular facções criminosas enquanto conglomerados financeiros lavam e movimentam seus recursos com naturalidade.

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O discurso moralista contra “bandidos” nunca atingirá seu objetivo enquanto:
• bancos e fundos continuarem envolvidos em operações ilícitas sem responsabilização efetiva,
• servidores e políticos corruptos seguirem blindados por compadrio,
• grandes empresários forem tratados como “importantes demais” para serem presos.

O crime organizado de hoje só existe porque o crime organizado das elites o financia.

Chega de retórica. O Brasil precisa de ação — e ação igual para todos.

A sociedade brasileira não quer mais discursos, lives, slogans ou hashtags. Quer resultados.

Quer a prisão de quem desvia bilhões, não apenas de quem rouba cinquenta reais.
Quer ver executivos julgados com a mesma severidade que jovens de chinelo.
Quer ver operações contra sonegadores, fraudadores, lavadores de dinheiro e conglomerados cúmplices de facções.
Quer ver o Estado enfrentar os poderosos — não servi-los.

Porque só há justiça de verdade quando ela alcança o topo, não apenas a base.

E só haverá segurança pública efetiva quando as instituições forem capazes de afirmar, com ações e não com discursos, que no Brasil ninguém está acima da lei.

Até lá, todo discurso será apenas barulho.
E barulho não muda a realidade — ações mudam. Ações arrastam. Ações transformam.

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