Por Rodrigo Rodrigues
Em uma análise das maiores economias do mundo, uma discrepância salta aos olhos: entre as dez maiores empresas dos Estados Unidos e da Europa, nenhuma é um banco. Do outro lado do oceano e da lógica produtiva, no Brasil, metade das dez maiores companhias do país pertence ao setor financeiro. Itaú Unibanco, Bradesco, Banco do Brasil, Santander e BTG Pactual figuram entre os gigantes nacionais. Não é coincidência — é sintoma de um sistema econômico distorcido.
Nos EUA, Apple, Microsoft, Alphabet (Google), Amazon, Nvidia, Meta, Tesla e outras empresas de base tecnológica dominam os rankings. Na Europa, gigantes da indústria farmacêutica, de energia, automotiva e de bens de consumo encabeçam a lista. São empresas que geram tecnologia, empregos e inovação. Enquanto isso, no Brasil, os bancos crescem lucrando sobre juros altos, crédito caro e um modelo que concentra riqueza.
Segundo dados da Economatica e da B3, os bancos brasileiros têm margens de lucro superiores a qualquer outro setor. Em 2024, o Itaú Unibanco bateu recorde histórico: lucros de mais de R$ 40 bilhões. Ao mesmo tempo, pequenas empresas fecham as portas por falta de acesso a crédito, e famílias se afundam em dívidas com cartões, rotativos e empréstimos pessoais com taxas de juros que beiram o absurdo.
O problema não é ter bancos fortes — o problema é só ter bancos fortes. Quando a engrenagem financeira supera a produtiva, o país estagna. Um sistema saudável deveria fomentar o empreendedorismo, apoiar a inovação, permitir que empresas industriais, tecnológicas e sustentáveis prosperem. O Brasil, no entanto, criou uma economia cujo combustível é o endividamento da população e das empresas.

O que precisa mudar?
1. Reforma do crédito: é urgente democratizar o acesso ao crédito com juros baixos para micro e pequenas empresas. Hoje, o sistema pune o empreendedor e premia a especulação.
2. Incentivo à inovação e tecnologia: precisamos de políticas industriais modernas, que incentivem setores produtivos, como tecnologia, energia limpa, agroindustrialização e biotecnologia.
3. Tributação mais justa: o sistema tributário brasileiro ainda é regressivo e penaliza o consumo e a produção. Enquanto isso, lucros e dividendos de bancos seguem isentos de imposto.
4. Estímulo à concorrência bancária: a concentração bancária no Brasil é uma das maiores do mundo. Um número pequeno de instituições controla a maior parte do crédito e dos investimentos, o que eleva os custos e reduz a inovação no setor.
5. Educação financeira e bancarização consciente: é preciso empoderar a população com conhecimento e alternativas, como cooperativas de crédito, bancos comunitários e fintechs mais acessíveis.

A escolha é política
O Brasil precisa decidir se continuará sendo um país onde o lucro dos bancos é celebrado enquanto a economia real sangra, ou se vai reequilibrar suas prioridades. A concentração de poder nas mãos do setor financeiro não é uma consequência inevitável — é uma construção política, moldada por decisões e omissões ao longo de décadas.
Enquanto outros países apostam no conhecimento, na ciência e na inovação como motores de riqueza, o Brasil ainda mantém seu futuro hipotecado ao rentismo.
Se quisermos um país que produza mais do que lucros para os bancos, é preciso coragem para mudar. Porque nenhum povo prospera se vive eternamente pagando juros sobre o próprio atraso.




























