Por Rodrigo Rodrigues
Ao longo de mais de cinco séculos, o Brasil vive uma contradição profunda: uma nação de cultura rica, diversa, formada pela miscigenação de povos indígenas, africanos, europeus e imigrantes de diversas partes do mundo, mas governada por uma elite que, por via de regra, nunca se reconheceu como parte desse país. Desde os primeiros anos da República, a elite brasileira tem se dedicado a um projeto de negação da própria brasilidade, preferindo copiar modelos externos e manter uma distância simbólica — e real — da população que diz governar.

Essa rejeição não é apenas cultural, mas política e social. Ela moldou nossas instituições, ditou os rumos da economia, interferiu na forma como educamos nossos jovens e até no modo como enxergamos a nós mesmos no mundo. O resultado é um país fragmentado, sem identidade sólida, em que a maior parte da população nunca se vê representada no poder.
A Proclamação da República e o “novo velho Brasil”
A proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, é frequentemente retratada como um ato de ruptura e modernização. Na prática, foi um golpe militar articulado por uma elite descontente com o Império, que temia perder privilégios diante das transformações sociais que se aproximavam, como a recém-conquistada abolição da escravidão.
A elite republicana não se via como brasileira no sentido popular da palavra. Pelo contrário, tinha vergonha do país real — mestiço, pobre, marcado por tradições indígenas e africanas. Inspirados por uma visão aristocrática, os líderes da nova República passaram a se espelhar na antiga nobreza portuguesa. As práticas políticas mantiveram-se excludentes, com eleições controladas e participação restrita aos grandes proprietários de terra.
O povo, majoritariamente analfabeto e recém-liberto do regime escravista, ficou fora do processo. A República não foi proclamada para todos; foi proclamada sobre a população, mantendo as estruturas de poder praticamente intactas.

Século XIX: a França como ideal civilizatório
Com a virada do século XIX para o XX, um novo modelo de “civilização” passou a guiar a elite brasileira: a França. Paris era vista como o centro do mundo moderno, da moda, da ciência e da cultura. A elite urbana, especialmente no Rio de Janeiro, então capital federal, buscava reproduzir os costumes franceses, desde a arquitetura dos prédios públicos até o comportamento social das classes altas.
Esse processo ficou evidente durante as reformas do prefeito Pereira Passos, entre 1902 e 1906, conhecidas como “Bota-abaixo”. Inspirado na remodelação de Paris conduzida por Haussmann, o Rio passou por uma grande reforma urbana que derrubou cortiços, desalojou milhares de famílias pobres e ergueu avenidas largas, palacetes e monumentos europeizados.
A população negra, recém-liberta, foi empurrada para os morros e periferias, criando os primeiros núcleos de favelas. A elite, por sua vez, importava móveis, roupas, livros e até professores franceses para reforçar sua imagem de sofisticação. Essa admiração cega pela França era uma forma de reafirmar uma suposta superioridade cultural, mas ao custo de negar as expressões culturais locais.
Nesse contexto, manifestações populares como o samba e a capoeira eram vistas como práticas primitivas, associadas à marginalidade. Não por acaso, o samba chegou a ser criminalizado no início do século XX.

Século XX: o sonho americano e a “modernização” dependente
Com a ascensão dos Estados Unidos como potência global, principalmente após a Segunda Guerra Mundial, a elite brasileira mudou de referência. Se antes sonhava em ser europeia, agora aspirava ser americana. O modelo francês perdeu força, substituído pelo pragmatismo capitalista e pelo ideal de consumo vindo do norte.

Durante o governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961), com o lema “Cinquenta anos em cinco”, o país passou a apostar na industrialização acelerada, financiada por capital estrangeiro. A construção de Brasília, símbolo máximo desse período, representava uma tentativa de criar uma identidade moderna para o país.
Mas, novamente, essa modernização veio acompanhada da exclusão. O projeto de JK privilegiou grandes empresas estrangeiras e a elite urbana, enquanto as populações rurais e periféricas continuaram à margem.

Nos anos seguintes, especialmente durante a ditadura militar (1964-1985), a imitação dos Estados Unidos se intensificou. A elite política e militar via o modelo norte-americano como símbolo de progresso e combate ao comunismo. O país abriu suas portas ao capital estrangeiro e se alinhou geopoliticamente aos interesses de Washington, aprofundando a dependência econômica.
Mais uma vez, a brasilidade foi relegada ao segundo plano. A cultura popular, rica e plural, era tolerada apenas como produto folclórico, enquanto se promovia uma ideia de modernidade baseada em padrões externos.

A vergonha de ser brasileiro
Essa trajetória histórica deixou marcas profundas. Até hoje, persiste no imaginário de boa parte da elite a ideia de que o Brasil verdadeiro — o do samba, do maracatu, do candomblé, da culinária indígena, das festas populares — não é digno de ser valorizado.

Isso se reflete em diversas áreas:
• Na educação, onde durante décadas se privilegiou a história europeia em detrimento da indígena e africana.
• Na economia, que continua dependente de exportação de commodities e de multinacionais que ditam regras.
• Na política, com governantes mais preocupados em agradar investidores externos do que em atender às demandas internas.
• Na cultura, com a constante valorização de produtos importados como símbolos de status.
Enquanto isso, manifestações genuinamente brasileiras, como o samba, a literatura regionalista, a culinária popular e a religiosidade afro-brasileira, muitas vezes são vistas como secundárias ou exóticas.

Um país sem espelho
O resultado dessa negação histórica é um país sem espelho, que não consegue se enxergar como nação. Ao invés de buscar soluções próprias para seus problemas, o Brasil constantemente importa modelos prontos, que raramente se adaptam à sua realidade.
Esse movimento impede a construção de uma verdadeira identidade nacional. Não se trata de rejeitar influências externas, mas de equilibrá-las com o reconhecimento de nossa própria riqueza cultural. Enquanto a elite continuar a se envergonhar do país que governa, continuará governando contra ele.

O desafio da brasilidade
Resgatar a brasilidade não significa um retorno nostálgico ao passado, mas um ato político de afirmação. Significa reconhecer que nossa história foi feita não apenas por barões do café e generais, mas por indígenas, negros, imigrantes pobres, mulheres e trabalhadores anônimos.
Significa valorizar as tradições locais sem transformá-las em mercadoria, e construir políticas públicas que partam das necessidades reais da população, e não das expectativas de organismos internacionais ou mercados financeiros.
Enquanto isso não ocorrer, o Brasil continuará sendo governado por uma elite que sonha em viver em Paris ou Miami, mas que, ironicamente, nunca será aceita como parte plena desses mundos que tenta imitar. O preço desse sonho alheio é pago pela maioria, que segue à espera de um país que ainda não existe — um país que seja, de fato, brasileiro.




























