Madeira ilegal

Procuradores brasileiros investigam uso ilegal de madeira nativa na produção de etanol de milho.

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Por Bia Azevedo
O estado brasileiro de Mato Grosso está investigando se usinas de etanol de milho estão queimando madeira proveniente de desmatamento ilegal para produzir o biocombustível, o que contraria as metas de descarbonização do setor, disse à Reuters a procuradora Ana Luiza Peterlini.
Mato Grosso é o maior produtor de soja do Brasil e responde por dois terços da produção nacional de etanol de milho, que teve um crescimento exponencial nos últimos anos. A investigação conduzida pelo Ministério Público estadual busca apurar se as usinas estão queimando ilegalmente madeira nativa para gerar energia no processo produtivo, afirmou Peterlini.
Embora as fábricas de processamento devam usar árvores plantadas para alimentar as caldeiras, algumas estão queimando madeira nativa a um custo cerca de metade do preço, de acordo com uma denúncia enviada aos promotores.
“Com certeza vou investigar. A hipótese de que essas empresas estejam usando matéria-prima proveniente do desmatamento já contradiz a própria lógica da indústria”, disse Peterlini, referindo-se à menor pegada de carbono do combustível renovável.

FONTE DE EMISSÕES PRINCIPAL

O Brasil tem sido líder na adoção de biocombustíveis, mas o desmatamento é a maior fonte de emissões de gases de efeito estufa no país, que sediará a próxima cúpula climática das Nações Unidas em novembro.
O governo divulgou uma queda de 11% no desmatamento da floresta amazônica nos 12 meses até julho. Mesmo assim, 5.796 quilômetros quadrados da selva foram destruídos no período.
Segundo Peterlini, os procuradores irão questionar a Sema, órgão ambiental do Mato Grosso, sobre uma norma de 2022 que permite o uso de biomassa nativa na indústria, o que pode estar em desacordo com o código florestal federal.
Caso a regra seja confirmada, Peterlini recomendará a sua revogação, afirmou, citando a dificuldade de rastrear a origem da madeira queimada nas caldeiras.
A Associação de Reflorestadores de Mato Grosso (Arefloresta) afirma que mais da metade da madeira utilizada na produção de etanol de milho provém do desmatamento de árvores nativas.
“Hoje, mais de 50% da madeira consumida no setor de etanol de milho é nativa”, disse Clair Bariviera, presidente da Arefloresta..
A madeira ilegal é significativamente mais barata, disse Bariviera, custando cerca de metade do preço do eucalipto plantado.

ESCASSEZ DE EUCALIPTO

Atualmente, dez usinas de etanol de milho operam no Mato Grosso e a Agência Nacional do Petróleo e Gás (ANP) autorizou a construção de mais sete, segundo o Sindicato Nacional do Etanol de Milho (Unem), que informou que outras oito usinas estão em fase de planejamento.
Segundo a Arefloresta, seriam necessários 30.000 hectares de florestas de eucalipto plantadas para abastecer as 13,5 milhões de toneladas métricas de milho moído para etanol projetadas para 2025/26, caso essa fosse a única madeira queimada nas caldeiras.
Embora cerca de 140.000 hectares de eucalipto estejam plantados em todo o estado, o setor fornece lenha de apenas 15.000 hectares por ano, com a maior parte das árvores colhidas para a indústria de papel. O fornecimento é limitado, disse Bariviera, porque as florestas plantadas levam de seis a sete anos para atingir a maturidade.
“Sou presidente da associação há três anos e temos lutado para plantar florestas no estado, dizendo que a biomassa vai acabar — e vai mesmo”, disse Bariviera.
Unem recusou-se a comentar sobre o fornecimento de biomassa ou sobre as questões levantadas na investigação em curso dos procuradores. Sema não respondeu de imediato ao pedido de comentário.
A Inpasa, maior produtora brasileira de etanol de milho, que possui duas unidades no Mato Grosso, afirmou que segue rigorosamente a legislação brasileira e que sua biomassa atende aos mais altos padrões de conformidade.
A FS, que possui três unidades fabris no Mato Grosso, afirmou ter 87 mil hectares de florestas plantadas, incluindo eucalipto e bambu, acrescentando que esses ativos foram desenvolvidos ao longo dos últimos oito anos e podem suprir todas as operações e planos de expansão.
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