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Editorial – Entre o Carandiru e o Rio: a política da bala e o teatro da tragédia

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Mais de 120 mortos. Um número que, por si só, já bastaria para consternar qualquer nação civilizada. Mas no Brasil, o país onde a violência se repete como espetáculo e a política transforma a tragédia em palanque, o massacre recente nas favelas do Rio de Janeiro é apenas mais um capítulo da velha narrativa da “guerra ao crime” — uma guerra que raramente atinge os generais do tráfico, mas que insiste em dizimar soldados invisíveis, civis e inocentes.

A lembrança inevitável é o massacre do Carandiru, em 1992, quando 111 presos foram mortos pela Polícia Militar de São Paulo sob o argumento de “restabelecer a ordem”. Três décadas depois, a história se repete com novas fardas, drones e discursos reciclados: a de que a violência é o preço da segurança. Na prática, o resultado é o mesmo — a morte de brasileiros pobres, negros e periféricos —, enquanto os verdadeiros chefes, como o líder do Comando Vermelho, continuam a escapar.

O governador Cláudio Castro, que chegou ao poder por um golpe de sorte — vice que se viu alçado ao posto após o afastamento do titular —, tenta agora transformar uma tragédia social em instrumento político. A operação, que já ultrapassa uma centena de mortos e se aproxima de um massacre em escala comparável ao Carandiru, é apresentada como “um sucesso contra o crime”. Mas que sucesso é esse, se o principal alvo fugiu e o Estado voltou a deixar um rastro de sangue e descrédito?

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O paralelo com Carandiru vai além dos números. Em ambos os casos, há o mesmo enredo: a banalização da morte, o silêncio institucional e o uso da força como demonstração de autoridade. No caso paulista, o então governador Luiz Antônio Fleury Filho declarou que “a PM agiu dentro da legalidade”. Hoje, Castro repete o roteiro com outra linguagem, exaltando “a coragem das forças de segurança” — como se o heroísmo pudesse ser medido pelo número de corpos no chão.

Há ainda o timing político: Castro enfrenta uma disputa pela própria sobrevivência eleitoral. A operação, convenientemente transmitida em tempo real por helicópteros e drones, parece mais um ato de marketing armado do que uma ação estratégica de inteligência. No lugar de políticas públicas, o que se oferece é o espetáculo da violência — um produto de alto consumo para o eleitorado sedento por “ordem”, mesmo que isso signifique o caos.

Enquanto isso, as favelas continuam sob o fogo cruzado de dois Estados: o oficial e o paralelo. Ambos armados, ambos autoritários. A diferença é que o primeiro se legitima pelo voto, mas, na prática, pouco difere na lógica da imposição pela força.

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Trinta e três anos depois do Carandiru, o Brasil parece não ter aprendido nada. Continuamos confundindo segurança pública com vingança social, e governança com marketing bélico. A polícia é lançada à guerra sem política de prevenção, sem educação, sem inteligência e, muitas vezes, sem comando — porque quem governa o caos, governa o medo.

O resultado é previsível: a morte como instrumento político. E a cada operação, a cada coletiva de imprensa triunfal, o Estado brasileiro se afasta mais da justiça e se aproxima da barbárie institucionalizada.

No Carandiru, os mortos estavam atrás das grades. No Rio, vivem atrás de muros invisíveis, erguidos pela desigualdade. Em ambos os casos, o sangue derramado é o mesmo — o da falência moral de um país que insiste em chamar massacre de “operação”.

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