Cadê a "politica"?

Uma guerra de torcidas

Concept of debate and political argument symbol as two opposing competitors debating and arguing with mouths open and symbolic bullets flying towards each other as an dispute metaphor with 3D illustration elements.

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Por Rodrigo Rodrigues

No Brasil de hoje, ter opinião política se tornou um exercício perigoso. Não importa o que você pense, em qual cidade viva ou quais sejam suas prioridades: se você critica Jair Bolsonaro, é automaticamente rotulado de “Lulista”, “petista” ou até “comunista”. Por outro lado, se ousa apontar falhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, passa a ser chamado de “direitista”, “bolsonarista” ou, em casos mais radicais, “imbecil”.

Essa visão maniqueísta da política transformou o debate público em uma guerra de torcidas organizadas, onde não existe espaço para nuance, diálogo ou análise racional. O resultado é um país paralisado, incapaz de discutir os problemas reais que afetam a vida da população — como saúde, educação, segurança e infraestrutura — porque todos os temas acabam sequestrados pela disputa entre dois polos.

A minoria que grita mais alto

Pesquisas de opinião indicam que os eleitores mais radicais, tanto da extrema-direita quanto da extrema-esquerda, somam juntos algo em torno de 20% do eleitorado. É um número expressivo, mas ainda uma minoria.

O problema é que esse grupo, barulhento e mobilizado, domina as redes sociais, pautando o debate público e intimidando quem se posiciona de forma independente.

“Os extremos têm a vantagem da mobilização. Enquanto a maioria silenciosa está preocupada em trabalhar e cuidar da família, esses grupos vivem para militar nas redes, participar de atos e pressionar políticos”, explica o cientista político Paulo Sérgio Almeida, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

No Brasil, essa dinâmica se torna ainda mais crítica por conta do sistema eleitoral de dois turnos. Em um cenário em que a maioria da população não se identifica com nenhum dos dois extremos, ela acaba obrigada a escolher “o menos pior” na fase final das eleições. Assim, a eleição se transforma em uma disputa entre rejeições, não entre propostas.

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Quando não sobra opção

O fenômeno ficou evidente nas eleições presidenciais de 2022. Naquele pleito, mais de 30% dos brasileiros declararam que votaram em Lula apenas para tirar Bolsonaro do poder, segundo pesquisa do Datafolha. Do outro lado, cerca de 25% admitiram ter votado em Bolsonaro apenas para impedir a volta do PT ao Planalto.

Esse voto por negação, e não por convicção, cria governos frágeis e sociedades ainda mais divididas.

“A democracia não funciona bem quando as pessoas votam com raiva ou medo. Ela precisa funcionar com base na confiança e no debate racional”, afirma Maria Clara Torres, socióloga especializada em comportamento eleitoral.

O desaparecimento da política verdadeira

No meio dessa briga, a verdadeira política — aquela que se preocupa em resolver problemas concretos — desapareceu. Discutir como melhorar o transporte público, como combater a fome, como reduzir a violência urbana ou como gerar empregos se tornou algo secundário.

Em vez de planos de governo, temos slogans vazios. Em vez de projetos, temos memes e ataques pessoais.

Esse fenômeno não é exclusividade brasileira. Países como os Estados Unidos vivem situação parecida, com democratas e republicanos travando batalhas culturais e ideológicas que afastam o eleitor comum. A diferença é que, no Brasil, a desigualdade social e a fragilidade das instituições tornam o impacto ainda mais grave.

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O caminho de volta ao diálogo

Especialistas defendem que o primeiro passo para superar esse impasse é reaprender a discutir política no sentido original do termo: como administrar a cidade, o estado, o país. Política não é idolatria a líderes, nem guerra contra inimigos imaginários. É sobre melhorar a qualidade de vida da população.

Para isso, é fundamental:
1. Resgatar o debate público com base em dados e propostas, e não apenas em narrativas emocionais.
2. Fortalecer partidos políticos que representem diferentes visões de mundo, não apenas projetos pessoais de poder.
3. Educar a população para o pensamento crítico, desde a escola, incentivando a participação cidadã consciente.
4. Valorizar a imprensa independente, que possa informar sem se curvar a pressões ideológicas.

 o silêncio da maioria

Enquanto a minoria radical domina a narrativa, a maioria segue silenciosa — e sofrendo as consequências. São milhões de brasileiros que não se sentem representados nem por Lula, nem por Bolsonaro, nem pelo que eles simbolizam.

Se esse grupo permanecer calado, continuará condenado a escolher, a cada quatro anos, entre duas opções que não os satisfazem. Mas se começar a se mobilizar, mesmo que aos poucos, pode abrir espaço para uma nova política — menos tóxica, mais plural, e voltada para aquilo que realmente importa: a vida do povo brasileiro.

No fim, política deveria ser sobre soluções, não sobre rótulos. O Brasil não precisa de mais inimigos, mas de mais pontes.

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