Banalização da violência

A violência banalizada: o crime que choca, mas já não surpreende

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Por Rodrigo Rodrigues

O crime que choca, mas já não surpreende

Em agosto deste ano, Belo Horizonte foi palco de uma cena de brutalidade que resume bem o momento atual do Brasil. Um gari, trabalhador conhecido na vizinhança, foi morto após uma discussão de trânsito. Não havia roubo, não havia tráfico, não havia facção envolvida. Havia apenas a fúria irracional de um cidadão contra outro. O caso, que deveria ter gerado comoção nacional, foi rapidamente substituído por novas manchetes — como se assassinatos gratuitos fossem parte corriqueira da vida urbana.

A escalada do feminicídio

Entre as várias faces dessa violência, o feminicídio continua crescendo de forma alarmante. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública registrou, em 2024, mais de 1.700 mulheres mortas por razão de gênero, o que equivale a uma a cada sete horas. Um aumento de quase 9% em relação ao ano anterior.

A psicóloga criminal Renata Silva alerta:

“O feminicídio é a ponta mais cruel de um iceberg. Por trás dele estão as agressões verbais, psicológicas e físicas que muitas vezes são tratadas como ‘normais’ dentro da sociedade. Esse processo de banalização abre caminho para que a violência letal aconteça sem freios”.

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Crimes sem lógica, sem sentido

Dados do Anuário de Segurança Pública apontam que cerca de 30% dos homicídios no Brasil não têm motivação aparente. São discussões em bares, brigas de vizinhos, pequenas disputas de trânsito que terminam em morte. Para o sociólogo Marcos Antônio de Souza, trata-se de um fenômeno ainda mais perigoso do que o crime organizado:

“Enquanto facções atuam de forma previsível e estratégica, os crimes cometidos por cidadãos comuns são aleatórios, imprevisíveis e, por isso, ainda mais difíceis de combater”.

Quando a violência se torna invisível

Se a escalada dos crimes preocupa, a reação da sociedade talvez seja ainda mais alarmante. Pesquisas do IBGE mostram que mais de 40% dos brasileiros já sofreram algum tipo de violência física ou psicológica, mas apenas uma parcela reduzida procura ajuda ou denuncia.

A antropóloga Helena Martins explica:

“O brasileiro está anestesiado. Quando um feminicídio ou um assassinato gratuito deixa de nos indignar, a violência se normaliza. Esse é o cenário mais perigoso: uma sociedade que se acostuma a conviver com a barbárie”.

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O nó das políticas públicas

Especialistas em segurança apontam que o enfrentamento dessa violência não se resume a aumentar a repressão policial. É preciso investir em educação, saúde mental, geração de emprego e políticas de prevenção específicas para grupos vulneráveis.

O promotor de justiça Lincoln Gakiya resume:

“Não podemos achar que violência é só questão de polícia. Precisamos de um pacto social de valorização da vida. Se não mudarmos o rumo, o Brasil continuará enterrando inocentes em silêncio”.

O futuro imediato

Com desigualdades sociais em alta e uma polarização que divide famílias e vizinhos, o risco é que o país veja aumentar ainda mais os crimes de ódio e violência sem motivação clara. Cada morte, como a do gari de Belo Horizonte, deveria ser um grito de alerta coletivo. Mas, até agora, parece ser apenas mais um número em uma estatística que cresce a cada dia.

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