Gakiya

Quem é Lincoln Gakiya: o promotor que declarou guerra ao PCC

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Por Rodrigo Rodrigues
Poucos nomes, no Brasil, se tornaram tão emblemáticos na luta contra o crime organizado quanto o de Lincoln Gakiya. Promotor de Justiça do Ministério Público de São Paulo (MPSP), ele transformou sua carreira em uma batalha quase solitária contra a maior facção criminosa do país: o Primeiro Comando da Capital (PCC). Por isso, tornou-se não apenas um dos mais respeitados e temidos membros do sistema de Justiça, mas também um alvo jurado de morte pela organização que ajudou a desarticular em diferentes frentes.
Origem e trajetória profissional
Filho de uma família simples de descendentes de japoneses, Gakiya formou-se em Direito e ingressou no Ministério Público paulista no final dos anos 1990. Logo no início da carreira, demonstrou interesse em atuar em casos complexos, sobretudo ligados à segurança pública.
Foi em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, que seu destino se cruzou com o PCC — e que seu nome passaria a figurar nos relatórios de inteligência da facção.
Na região, conhecida como uma das principais bases do crime organizado, Gakiya se especializou em investigações de organizações criminosas, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, temas que passariam a ocupar o centro de sua vida profissional.
O homem que não recua diante do PCC
O promotor ganhou notoriedade a partir dos anos 2000, quando comandou investigações que revelaram a estrutura de comando do PCC dentro e fora dos presídios.
Com base em seu trabalho, surgiram os primeiros pedidos de transferências de líderes do PCC para presídios federais de segurança máxima, como o de Catanduvas (PR) e o de Campo Grande (MS). Essas ações ajudaram a desarticular o comando direto de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, e de outros chefes da facção.
“Se não fosse o Gakiya insistir, Marcola e os demais estariam até hoje controlando o crime de dentro dos presídios paulistas. Ele foi peça-chave na mudança de estratégia do Estado”, afirma um delegado da Polícia Federal ouvido pela reportagem.
Vida sob ameaça constante
Desde então, Gakiya vive sob esquema permanente de segurança. Ele é um dos poucos promotores no Brasil que têm proteção 24 horas por dia, escolta armada e endereço mantido em sigilo.
Planos de atentado contra ele já foram interceptados em diversas ocasiões. Em grampos telefônicos, líderes do PCC discutiam até recompensas milionárias por sua execução.
“Nós sabemos que ele está jurado de morte, que a facção o considera inimigo número um. Mas o promotor não cede, não se dobra. É uma inspiração para todos nós”, diz um policial militar da Rota, que prefere não se identificar.
Mesmo assim, Gakiya já declarou em entrevistas: “Não sou herói. Apenas faço o que o Estado espera de mim. O problema é que, no Brasil, muitas vezes um servidor cumprir seu dever já é motivo para virar alvo.”
As grandes operações
Entre as operações mais emblemáticas conduzidas ou articuladas por ele, estão:
•Transferência de Marcola e cúpula do PCC (2019): após insistência de Gakiya, o governo federal autorizou a ida dos principais líderes da facção para presídios federais, enfraquecendo a comunicação e a coordenação da facção.
•Bloqueio de bens e combate à lavagem de dinheiro: medidas que atingiram o braço financeiro do PCC, bloqueando empresas de fachada, postos de gasolina, imobiliárias e até fintechs ligadas ao grupo.
•Investigações interestaduais: articulação com outros Ministérios Públicos e com a Polícia Federal que mapearam a presença do PCC fora de São Paulo e até em países vizinhos, como Paraguai e Bolívia.
Reconhecimento e isolamento
O trabalho de Lincoln Gakiya rendeu prêmios e reconhecimento de entidades jurídicas e da sociedade civil, mas também um isolamento forçado.
“Ele abriu mão da vida privada em nome da segurança da sociedade. Poucos teriam coragem de fazer o que ele fez. O Brasil deve muito a esse promotor”, afirma um desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo.
Mas a vida pessoal paga o preço. Amigos e familiares convivem com restrições de contato, deslocamentos monitorados e o medo constante.
Uma professora universitária que já participou de palestras com o promotor resume:
“Ele fala sobre crime organizado como quem fala de um vizinho de porta. É impressionante a clareza, mas ao mesmo tempo dá para sentir o peso que ele carrega. Não é só um trabalho, é quase um sacerdócio.”
O símbolo da resistência
Hoje, Lincoln Gakiya é visto como um símbolo da resistência do Estado contra o crime organizado. Ao mesmo tempo, sua história expõe o quanto o poder público depende de indivíduos com coragem e comprometimento incomuns para enfrentar facções que movimentam bilhões de reais e se infiltram em diferentes camadas da sociedade.
Um motorista de aplicativo ouvido em São Paulo traduz o sentimento popular:
“Eu não sei nem quem é o governador direito, mas sei quem é o Gakiya. Esse homem merece uma estátua. Se não fosse ele, o PCC mandava ainda mais no Estado.”
Lincoln Gakiya não buscou a fama, mas sua atuação o colocou na linha de frente de uma das batalhas mais desafiadoras do país. O promotor tornou-se um inimigo declarado do PCC, jurado de morte, mas também um exemplo de que é possível enfrentar o crime organizado com estratégia, persistência e, sobretudo, coragem.
Mais do que um personagem, ele representa a luta diária de instituições que, apesar de limitações e riscos, resistem ao avanço do crime no Brasil.
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