‘Trambicagens’ de advogados

O caso do Banco Master trouxe à tona novamente a discussão sobre se parentes de ministros e seus escritórios deveriam trabalhar em causas na Corte.

Isso porque a Polícia Federal encontrou no celular de Daniel Vorcaro, CEO do banco, um contrato de R$ 129 milhões firmado com o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes.

O contrato, segundo o jornal O Globo, não especificava processos ou causas determinadas e estabelecia uma atuação ampla de representação do banco.

Sem comentar o caso específico, Calmon diz que as decisões e comportamentos dos ministros “vêm contando com a conivência de todos os outros”.

“O STF vem se comportando de tal forma que não vem obedecendo ao sistema de freios e contrapesos e não vem obedecendo à legislação brasileira, que é extremamente rica e oportuna em todas essas questões éticas e morais”, afirma Calmon.

“Dentre elas está a questão da suspeição, do impedimento da magistratura, que são linhas mestras de comportamento de todo e qualquer magistrado.”

Uma reportagem da BBC News Brasil mostrou que oito ministros do STF têm parentes advogados com processos na Corte. A prática não é ilegal, mas vista com ressalva por especialistas por gerar críticas e desgastar a percepção pública de isenção do Judiciário.

O Código do Processo Civil (CPC) prevê impedimento do juiz nos casos em que defensores públicos, advogados ou membros do Ministério Público sejam seus parentes “em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive” e também quando o próprio juiz ou parente for parte do processo, dentre outros casos.

Em 2023, o plenário do STF julgou inconstitucional regra que impediria que juízes atuassem em processos envolvendo clientes de escritórios de advocacia com parentes dos próprios magistrados em seus quadros.

Calmon disse que, como ministra do STJ, esteve à frente de um movimento contra a advocacia exercida pelos filhos de ministros do STJ.

“Discuti longamente, entendi que não era possível. Existe, naturalmente, uma dificuldade de você acabar impedindo todos os advogados que fazem parte do escritório.”

Um dos pontos mostrados na reportagem da BBC News Brasil é que o número de processos movidos por advogados que são parentes de ministros cresceu, tanto no STF quanto em outras cortes, como o STJ, após a posse do ministro.

A ex-ministra diz que isso é comum e que não está limitado aos parentes.

“Digamos que uma questão muito grande chega a um tribunal e vai ser julgada por uma turma julgadora composta de cinco ministros, como no STJ. O que fazem os clientes? Eles começam a contratar vários escritórios e botar exatamente no processo um que tenha relações de amizade com o julgador A, outro escritório do julgador B, outro do C e, dessa forma, conduzir para que os cinco julgadores estejam de acordo com aquilo que o amigo está querendo.”

Ela conta que hoje, como advogada, já recebeu pedidos para dividir casos com outros escritórios “só para fazer figura”.

“Eu digo que não admito. Não tem problema. Paguem meus honorários pelo que já fiz e vão para lá ver se vocês conseguem o que querem”, diz Calmon.

“Não vou me submeter a ficar em uma procuração onde muitas vezes o escritório que é colocado é só para fazer figura e o julgador saber que aquele escritório está naquele processo.”

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A advogada avalia que é difícil criar regras que possam prever todas as situações de conflito de interesse.

“Você não pode combater, porque a sociedade brasileira é a sociedade do jeitinho. Vai dando um jeitinho para ver se considera possível ganhar a ação.”

Calmon avalia ainda que casos que colocam a credibilidade do Judiciário em xeque fortalecem esse “jeitinho”.

“Na medida em que o Poder Judiciário não tem credibilidade, mais trambicagens são feitas em torno da atuação dos advogados”, afirma Calmon.

“Se o cliente soubesse que o Poder Judiciário ia julgar de acordo com a lei e se tratava de magistrados sérios, não precisaria fazer isso. Mas ele fica com receio, e este receio, essa falta de credibilidade, dada pela falta de ética na magistratura faz com que cada vez mais tumultuemos a atuação do Poder Judiciário.”

Calmon diz que, além de julgadores, os magistrados são também cidadãos, que devem obedecer às leis.

“Eu, cidadã brasileira, obedeço às regras do Coaf, Receita Federal, Tribunal de Contas. Para os ministros do STF, eles se excluem dessas formas de limitações comportamentais. Eles não admitem, por exemplo, que a Receita Federal investigue o patrimônio deles ou da família deles.”

‘STF sofre de uma deformação’

Calmon tornou-se juíza federal em 1979, foi promovida a desembargadora em 1989 e, em 1999, nomeada a primeira mulher ministra do STJ. Mas avalia que o Judiciário hoje está “muito pior”.

Para ela, um dos motivos do Supremo ser alvo de críticas hoje é o excesso de poder que acumulou.

“O STF sofre de uma deformação, que atendeu à exigência do próprio Supremo, quando não aceitou ser uma corte constitucional.”

Ela se refere ao fato de que o STF atua não apenas como uma corte constitucional pura, mas também como última instância para recursos e responsável por julgar casos de autoridades com foro privilegiado.

“O entendimento é que o que dá visibilidade ao STF é o julgamento do controle difuso dos processos. Julgarem governadores, as autoridades. É isso que entendem que dá prestígio ao STF. Isso precisa ser consertado urgentemente.”

Calmon afirma que esse tipo de crítica tem sido vista como algo que é “contrário à democracia” e que os críticos são tidos como “bolsonaristas ou subversivos”.

“Não é. Estou aqui falando, até historicamente. Me recordando e reportando o que se passou na discussão da constituinte de 1988, onde isso foi questionado e não foi aceito.”

E complementa: “Não podemos, por exemplo, entender como é que o STF pode fazer todos esses absurdos que vem fazendo. Inclusive as leis que não são do agrado do Supremo, eles dizem que são inconstitucionais. Leis julgadas pelo Congresso Nacional, sancionadas pelos presidentes, que têm anos e anos de aplicação”.

Outro ponto criticado pela ex-corregedora é a participação de ministros da Suprema Corte em eventos e palestras patrocinados por grandes empresas com processos no tribunal.

“Estamos usando muito esta forma de patrocínio de empresas que estão, muitas vezes, dentro do Poder Judiciário, precisando das decisões judiciais. E eles fazem os eventos para direcionar os julgadores a se sentirem constrangidos de julgar um processo.”

Para ela, o juiz “tem dever não apenas de ser [correto], mas também parecer [correto].”

Em sua visão, o problema não é a realização de eventos em si, mas sim a participação dos magistrados.

“É óbvio que essas entidades podem perfeitamente patrocinar eventos. Eu, como advogada, depois que deixei a magistratura, faço muitos eventos de multinacional, de construtoras, de entidades filantrópicas, de entidades estudantis e de entidades multimilionárias. Posso fazer isso porque elas têm um único propósito de esclarecer aquele público a que é dirigida. Mas como magistrada não posso fazer isso.”

Citando o Código de Ética da Magistratura, publicado em 2008 pelo CNJ, à época presidido pelo ministro Gilmar Mendes, Calmon diz: “Um Judiciário altivo e respeitado é essencial em uma sociedade democrática. E para tanto a confiança pública no sistema judicial e na autoridade moral dos membros do Poder Judiciário é de extrema importância”.