Gov. Mendes rebate Carlos Bolsonaro

Mauro Mendes enfrenta Carlos Bolsonaro e se projeta como voz da nova direita moderada

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Por Rodrigo Rodrigues

A recente investida de Carlos Bolsonaro contra os governadores brasileiros escancarou novamente o estilo agressivo da família Bolsonaro no debate público. Em uma postagem nas redes sociais, o vereador carioca chamou os governadores de “ratos” por, segundo ele, não se insurgirem contra o “tarifaço” de Donald Trump, que elevou em 50% as tarifas sobre produtos brasileiros. A provocação caiu como uma bomba política, mas apenas um governador decidiu responder: Mauro Mendes, de Mato Grosso.

Enquanto Ronaldo Caiado (Goiás), Romeu Zema (Minas Gerais), Tarcísio de Freitas (São Paulo) e Ratinho Júnior (Paraná) optaram pelo silêncio, Mendes quebrou a regra não escrita de blindagem ao clã Bolsonaro. Primeiro, classificou a fala de Carlos como “um desrespeito às instituições e ao esforço coletivo de quem governa”. Depois, em declaração ainda mais dura na manhã desta quarta-feira, afirmou: “Carlos Bolsonaro fala pela boca o que deveria sair por outro lugar”.

A frase, carregada de ironia, repercutiu rapidamente em Brasília e nos bastidores do agronegócio. Para aliados do governador, não se tratou apenas de uma resposta pessoal, mas de um movimento calculado para marcar território político no vácuo de uma direita moderada, que não encontra hoje um porta-voz nacional consolidado.

O setor agropecuário, principal base econômica de Mato Grosso, foi um dos primeiros a reagir. Produtores e representantes de entidades empresariais interpretaram a defesa de Mendes como um gesto de liderança num momento em que o tarifaço americano ameaça exportações de soja, milho e carne. “Os governadores estão tentando segurar as pontas, buscar diálogo e proteger o emprego. Não precisamos de ataques, precisamos de soluções”, afirmou um dirigente de cooperativa mato-grossense, em tom de apoio ao governador.

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No Congresso, a reação foi dividida. Parlamentares ligados ao agronegócio — inclusive de partidos tradicionalmente alinhados ao bolsonarismo — reconheceram em conversas reservadas que Mendes vocalizou um sentimento real de frustração dos empresários com a postura destrutiva de Carlos Bolsonaro. “Não dá para chamar governador de rato quando eles estão tentando manter a economia funcionando”, resumiu um senador do Centrão.

Já entre aliados fiéis ao bolsonarismo, o tom foi de críticas pesadas a Mendes. Deputados próximos a Jair Bolsonaro acusaram o governador de “querer se cacifar às custas da família” e afirmaram que ele “não representa a verdadeira direita”. Apesar das reações inflamadas, o núcleo bolsonarista evitou dar mais visibilidade ao episódio para não reforçar a imagem de Mendes como contraponto ao radicalismo.

Nos bastidores do Planalto, o comentário é que Mauro Mendes conseguiu “dois gols de uma vez só”: mostrou independência em relação ao bolsonarismo e se projetou como voz política de defesa do setor produtivo diante do impacto da política protecionista americana. A leitura é de que, ao se colocar como alguém capaz de enfrentar Carlos Bolsonaro, Mendes ampliou sua projeção para além das fronteiras de Mato Grosso.

Outro ponto destacado foi o contraste com o silêncio de governadores com perfil nacional. Ronaldo Caiado, que já ensaiou movimentos de autonomia em relação a Bolsonaro, preferiu não se manifestar. Romeu Zema, frequentemente lembrado como presidenciável, recuou. Tarcísio de Freitas, visto como o mais próximo de Bolsonaro, não quis melindrar sua base. E até Ratinho Júnior, do Paraná — ironicamente apelidado pelo próprio nome associado ao ataque de Carlos — se manteve calado.

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Esse isolamento de Mendes, paradoxalmente, o fortaleceu. Na ausência de vozes que se contrapusessem ao bolsonarismo, foi ele quem assumiu o papel de liderança de uma direita mais pragmática. Analistas políticos lembram que a coragem de enfrentar a família Bolsonaro, ainda hegemônica no campo conservador, pode render dividendos eleitorais no futuro.

Empresários do agronegócio ouvidos pela reportagem também enxergam na postura de Mendes um diferencial. Ao se apresentar como gestor preocupado com emprego e produção, ele dialoga diretamente com as demandas do setor que mais sustenta a balança comercial brasileira. “Não é hora de guerra ideológica, é hora de abrir mercado. Mendes entendeu isso”, resumiu um exportador de carne bovina.

No Congresso, cresce a percepção de que o governador de Mato Grosso pode ocupar espaço na disputa nacional, seja como articulador de uma nova direita moderada, seja como eventual candidato em 2026. Parlamentares do PSD e do União Brasil avaliam que a postura firme contra Carlos Bolsonaro pode ser o primeiro passo para consolidar essa imagem.

No fim das contas, ao rebater Carlos Bolsonaro com firmeza e ironia, Mauro Mendes mostrou que não teme enfrentar o radicalismo. Mais do que isso: reforçou a imagem de líder capaz de articular interesses econômicos e políticos em defesa da estabilidade, num momento em que o país precisa de vozes equilibradas. Em meio ao silêncio dos demais governadores, Mendes saiu maior do embate e acendeu o alerta de que pode se tornar o rosto de uma direita menos barulhenta, mas muito mais estratégica.

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