EDITORIAL
Neste domingo, 10 de agosto de 2025, enquanto o país celebra o Dia dos Pais com abraços, mensagens e almoços em família, um tema ainda pouco explorado permanece à margem das conversas: a vulnerabilidade emocional dos homens. Em um país onde o machismo ainda molda comportamentos e expectativas, admitir fragilidade é, para muitos pais, um ato de coragem silenciosa.

Por trás dos sorrisos nas fotos e das homenagens nas redes sociais, há homens que enfrentam diariamente pressões psicológicas intensas — cobrança profissional, sobrecarga financeira, sensação de fracasso, medo de não corresponder às expectativas familiares. Depressão, ansiedade, síndrome do pânico e outros transtornos mentais afetam também os pais, mas a cultura ainda impõe que “homem aguenta”, “homem não chora” e “homem tem que ser forte”.
Dados do Ministério da Saúde mostram que, no Brasil, 78% das mortes por suicídio registradas em 2024 foram de homens. Segundo a Organização Mundial da Saúde, eles têm três vezes mais chances de tirar a própria vida do que as mulheres, justamente porque tendem a não procurar ajuda. Entre os homens de 35 a 59 anos, faixa etária em que muitos já são pais, a incidência de depressão e transtornos de ansiedade cresceu quase 40% na última década.
“Muitos só procuram tratamento quando a situação já está grave, porque aprenderam desde cedo que demonstrar fragilidade é sinal de fraqueza”, explica a psicóloga clínica Carla Menezes. “O problema é que esse silêncio adoece e, muitas vezes, mata.”
A paternidade, longe de ser apenas um papel de provedor, exige hoje presença afetiva, participação ativa e equilíbrio emocional. Mas como exercer esse papel plenamente se a própria saúde mental é negligenciada? O peso de sustentar financeiramente a casa, somado à necessidade de estar emocionalmente disponível, pode se tornar insustentável sem apoio.

Histórias de coragem e superação
José Carlos, 46 anos, pai de dois filhos, viveu por anos um quadro severo de ansiedade e depressão sem contar a ninguém. “Eu não queria que meus filhos me vissem como fraco. Mas chegou um dia em que não consegui sair da cama. Foi quando percebi que precisava de ajuda.” Ele procurou atendimento psicológico e psiquiátrico, e hoje faz questão de conversar com os filhos sobre emoções e autocuidado.
Rogério Lima, 39, autônomo, descobriu que estava à beira de um colapso mental durante a pandemia. “A pressão para manter a renda e não deixar faltar nada foi enorme. Eu bebia para dormir, acordava cansado e vivia irritado. Só melhorei quando aceitei que eu não precisava enfrentar tudo sozinho.” Hoje, ele participa de grupos de apoio para homens e defende que “chorar na frente dos filhos é ensinar que sentir não é fraqueza”.

Esses relatos mostram que quebrar o silêncio não é sinal de derrota, mas de maturidade e amor. Romper o tabu passa por mudar a cultura: permitir que os pais chorem, falem sobre seus medos, peçam ajuda e cuidem de si mesmos. Afinal, a figura paterna forte não é a que nunca cai, mas a que encontra forças para se levantar — e, quando necessário, sabe que não precisa fazê-lo sozinho.
Neste Dia dos Pais, a homenagem que talvez mais importe não esteja nas vitrines ou nos cartões, mas no compromisso coletivo de enxergar o homem além do provedor — como um ser humano que sente, sofre, e precisa, tanto quanto qualquer outra pessoa, de acolhimento e compreensão.




























