Enquanto Flávio enfrenta aumento da rejeição nas redes sociais, os pré-candidatos à Presidência Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) ganharam espaço nas conversas.

Zema apareceu com 24,3% das menções ligadas ao debate monitorado pela AP Exata, atrás apenas de Flávio Bolsonaro. O crescimento ocorreu após críticas públicas do ex-governador mineiro ao senador.

Em vídeo publicado nas redes sociais, Zema, que chegou a ser cogitado como vice de Flávio, afirmou que as mensagens trocadas entre o senador e Vorcaro “eram um tapa na cara dos brasileiros de bem” e classificou como “imperdoável” a cobrança feita ao banqueiro.

Antes do episódio, o ex-governador de Minas Gerais reunia cerca de 10% das menções monitoradas. Após a repercussão do caso, ele ampliou sua visibilidade em cerca de 14 pontos percentuais.

Caiado também cresceu ao longo do dia e registrou alta de 9,6 pontos percentuais. Assim como Zema, o ex-governador de Goiás se manifestou sobre o episódio, mas adotou um tom mais moderado e chegou a alfinetar o ex-governador de Minas, dizendo que não era “oportunista”.

Ronaldo Caiado
setembro de 2025

Até às 18h, Caiado acumulava 9,8% das menções monitoradas pela AP Exata. Segundo Sergio Denicoli, foi a primeira vez que Caiado apresentou crescimento relevante nas redes desde o início do monitoramento da consultoria.

“Esse crescimento de visibilidade do Zema e do Caiado mostra que o eleitor começa a olhar para o lado em uma crise como essa. Eles começam a aparecer como alternativas”, afirma o cientista de dados.

Denicoli pondera, porém, que o avanço de Zema veio acompanhado de desgaste dentro do próprio campo bolsonarista. Segundo a AP Exata, as menções negativas ao ex-governador cresceram 4,1 pontos percentuais após as declarações sobre Flávio Bolsonaro.

As críticas partiram principalmente de perfis ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que passaram a acusá-lo de oportunismo político.

Um deles foi Eduardo Bolsonaro. Nas redes sociais, Eduardo respondeu a uma publicação de Zema: “Não houve desvio de dinheiro, Lei Rouanet ou recursos públicos. Não seja tão baixo, tão vil, Romeu Zema.”

Ainda assim, Denicoli avalia que Zema conseguiu romper a barreira de visibilidade imposta pela polarização política nas redes sociais.

“A gente está falando da economia da atenção. Quem chama atenção, aparece. O Zema está sendo muito falado porque chamou atenção”, destacou.

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“O centro tem dificuldade de entrar nesse debate, mas ele [Zema] conseguiu furar esse bloqueio da polarização mais radical e entrar na discussão de forma forte”, afirma.

Crise ainda sem lucro para Lula

Presidente Lula

Antes da crise envolvendo Flávio Bolsonaro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) concentrava o pior índice de confiança entre os principais nomes monitorados pela AP Exata.

Em 8 de janeiro, Lula registrou seu pior índice de confiança, marcando 13,8%. Na ocasião, o petista participou de um ato esvaziado que lembrou os três anos da tentativa de golpe de Estado e anunciou o veto ao chamado PL da Dosimetria — decisão posteriormente derrubada pelo Congresso Nacional.

Segundo Denicoli, a fragmentação da direita vinha favorecendo gradualmente a imagem do presidente nas redes sociais. Mas o episódio envolvendo Flávio Bolsonaro ainda não se converteu em ganho direto para o presidente nas redes sociais.

“O Lula ainda não teve um benefício direto em sua imagem com essa crise, ainda não está lucrando, pelo menos nas redes”, diz.

Segundo dados da AP Exata, Lula registrou alta de apenas 0,4 ponto percentual nas menções positivas após a repercussão do caso Master. Já o índice de confiança associado ao presidente caiu no mesmo patamar, também 0,4 ponto percentual.

A dinâmica da corrida presidencial

Apesar das reações online analisadas funcionarem apenas como um termômetro do episódio nas redes sociais, cientistas políticos ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro pode embaralhar a disputa presidencial de 2026.

Até aqui, o cenário de um segundo turno entre Flávio e o presidente Lula vem sendo considerado o mais provável para as eleições de 2026. O Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil mostra estimativas de intenções de voto similares para o filho de Jair e o petista em um eventual segundo turno. (Clique aqui para ver).

Para o cientista político Claudio Couto, da Fundação Getulio Vargas, o episódio do pedido de dinheiro a Vorcaro tem potencial de interromper o crescimento de Flávio nas pesquisas, mas pondera que ainda é cedo para medir a dimensão do desgaste.

“Isso tende a produzir um certo estancamento na subida que ele vinha apresentando”, afirma.

Segundo ele, o senador pode sofrer alguma queda nas próximas pesquisas, ainda que a polarização limite perdas mais profundas no curto prazo.

Couto avalia que a gravidade do caso pode aumentar caso novas revelações sejam divulgadas nos próximos dias. “Se isso acontecer de novo, como ocorreu na Vaza Jato, pode ser que hoje tenha aparecido isso e amanhã apareça outra coisa. Aí o comprometimento é muito maior.”

Para Yuri Sanches, diretor de risco político da AtlasIntel, o principal desafio de Flávio era ampliar sua imagem para além do núcleo bolsonarista mais fiel.

“Flávio precisa desconstruir a rejeição dele atrelada ao sobrenome e aos casos de corrupção. Ao mesmo tempo, ele tenta construir uma imagem de gestor diferente do pai, de um Bolsonaro moderado, que tomou vacina e alguém experiente, ainda que não tenha experiência de gestão”, afirma.

Segundo ele, as revelações sobre a relação com Vorcaro atingem diretamente essa estratégia de reposicionamento. “Esse caso vem como um balde de água fria nesse processo de desconstrução que estava sendo feito.”