Senador José Lacerda, que assumiu como interino recentemente, analisa os problemas e avanços do Estado e defende investimentos para a economia avançar, entre os quais a integração com a Bolívia visando também a saída bioceânica
Por João Negrão e Rodrigo Rodrigues
O senador José Lacerda (PSD), ao assumir no dia 1º de outubro último o lugar do titular Carlos Fávaro, que exerce o cargo de Ministro da Agricultura, estabeleceu uma meta em seu mandato interino: fortalecer a região Oeste de Mato Grosso, suas base eleitoral, que tem como sede do polo sua cidade natal, Cáceres. Nesta empreitada, estão ações diversas, entre as quais a luta pela saída bioceânica, o fortalecimento da agropecuária, e, sua menina dos olhos, a industrialização da região, tendo como base a agroindústria, mas sua visão vai mais além.
Nesta entrevista exclusiva aos repórteres João Negrão e Rodrigo Rodrigues, o senador José Lacerda havia acabado de sair do Plenário da Casa, onde participou de três importantes votações do dia. E se mostrava feliz por ter se articulado com seus pares, os colegas de bancada Jayme Campos (União) e Wellington Fagundes (PL). “Independente de diferenças partidárias, estamos trabalhando juntos em prol de Mato Grosso”, afirmou.
Jornal Kapital – Senador, o senhor assume no Senado em um momento importante em que se intensifica o debate sobre a rota bioceânica. O senhor, como um histórico lutador desta pauta, nos diga, nesse momento que vai se consolidando esse projeto visionário, que era quase uma utopia e vai se tornando realidade, como o senhor está acompanhando isso? Aliás, recentemente, o senhor inclusive esteve na Bolívia, na posse do novo presidente. Como o senhor se sente sendo protagonista desse processo que é meio século aí de luta?

Senador José Lacerda – Na realidade, pra gente que é um campesino, pantaneiro e homem da fronteira, é uma honra estar aqui no Senado da República neste momento. E num momento importante, aonde já votaram aqui a Lei da Faixa de Fronteira, já com a nossa participação. A questão do Imposto de Renda também, com a nossa participação. E eu estive agora na posse do presidente Rodrigo Paz, junto com o vice-presidente Geraldo Alckmin. Inclusive, o vice-presidente fez um convite oficial para o Rodrigo para vir ao Brasil, e já está sendo tratado essa vinda dele para discutir esse projeto da integração e a gente discute isso já há mais de 40 anos, ali saindo de Mato Grosso; porque essa rota, saindo por Mato Grosso e passando pela Bolívia, do Atlântico ao Pacífico, é a única rota bioceânica que atende o nosso estado e que atende a Bolívia. Todas as outras rotas bioceânicas não passam por Mato Grosso.
O ponto fundamental que nós temos hoje é industrializar Mato Grosso. Mato Grosso hoje, individualmente, é o quinto maior produtor de grãos do mundo. Vai produzir este ano 75% do algodão do Brasil e se nós utilizarmos esse potencial que é a nossa produção tanto da base agrícola como do subsolo da base mineral, nós não temos dúvida que Mato Grosso vai ser o melhor estado da Federação.
Então, a Bolívia depende dessa rota e Mato Grosso também. Para o nosso Estado, que é um Estado muito produtor, isso vai ser muito importante. Conseguimos agora a inauguração da Zona de Processamento de Exportação de Cáceres, que é uma luta nossa desde 1988, ainda no governo [José] Sarney, e quando [Carlos] Bezerra ainda era governador. Começamos naquela época, eu e o Márcio [seu irmão, ex-deputado e ex-senador Márcio Lacerda], e, graças a Deus, agora, com o governo Mauro Mendes, ele acabou construindo o prédio. E a legislação, que a gente já tinha aprovado lá na década de 90, se consolidou. E outra coisa importante que foi discutido nessa viagem com o vice-presidente Alckmin, foi exatamente a questão da hidrovia do Rio Paraguai. Porque nós precisamos dessa hidrovia. E também da ferrovia, que precisa chegar até Cáceres, porque a rota Santa Cruz-Corumbá já tem uma rodovia e uma ferrovia e a outra linha que nós tratamos com o governo do Paraguai também é exatamente para ligar até o Paraguai para aproveitar essa ligação que sai de Porto Murtinho até o Pacífico. Então nós vamos ter uma integração no Centro-Oeste ao Sul-Americano e essa integração com certeza vai dar um salto de qualidade na nossa economia para dar qualidade de vida.
O ponto fundamental que nós temos hoje é industrializar Mato Grosso. Mato Grosso hoje, individualmente, é o quinto maior produtor de grãos do mundo. Vai produzir este ano 75% do algodão do Brasil e se nós utilizarmos esse potencial que é a nossa produção tanto da base agrícola como do subsolo da base mineral, nós não temos dúvida que Mato Grosso vai ser o melhor estado da Federação.
Jornal Kapital – A ministra Simone Tebet está com esse projeto da integração, mas me parece que ela está priorizando muito Mato Grosso do Sul, que é o estado dela, né?
Senador José Lacerda – As duas vias são importantes. Agora, o que tem de diferença nas vias é que essa via passando por Porto Murtinho indo para o Pacífico, passando pelo Paraguai, é muito importante. Mas o custo é alto. E a nossa ligação bioceânica, passando por Vila Bela e por Cáceres, chegando a San Ignácio e indo ao Pacífico, seja por Arica, Iquique ou Hilo, o custo é muito barato porque está pronto praticamente tudo. Nós temos ali aproximadamente 242 quilômetros só para concluir o asfalto.
Jornal Kapital – E a rota San Matias, foi descartada?
Senador José Lacerda – Não, não. A rota San Matias permanece. Por quê? Quem vem de Cuiabá e dessa região de Cáceres, vai passar por San Matias. Mas quem vem de Rondônia, quem vem do Amazonas, das regiões Norte, o Nortão, e o Médio Norte, Chapadão do Parecis, não precisa vir a Cáceres para voltar a San Ignácio. Então, as duas rotas, de Vila Bela e de Cáceres, são importantes.
A pavimentação da rodovia a fronteira com Vila Bela a San Ignácio faz parte do projeto. Só que o governo boliviano está sem capacidade financeira. Porque esses últimos anos do governo boliviano acabou dando uma fragilizada. Inclusive, há poucos dias que eu estive lá em San Ignácio, não tinha combustível. Não tinha diesel, não tinha gasolina. Os carros estavam na fila lá, uma semana esperando para abastecer. O Rodrigo [Paz, recém empossado presidente da Bolívia] fez um acordo com o Paraguai e já levou agora os primeiros abastecimentos.
Jornal Kapital – Então um dos gargalos do projeto é a pavimentação de trechos dentro da Bolívia?
Senador José Lacerda – Sim. Eu acho que isso é fundamental, a gente pegar esse modal de transporte e fazer essas pavimentações. Agora, é importante que Mato Grosso industrialize. Esse é o foco central para um salto de qualidade, inclusive com a nossa Zona de Processamento e Exportação. E discutimos também com o presidente Alckmin e o presidente Rodrigo Paz sobre as linhas aéreas, ligando Cuiabá a Santa Cruz, passando por San Ignácio. Porque não tem linha aérea, por exemplo, de Brasília a La Paz. Não tem voo.
Jornal Kapital – Senador, o senhor falou aqui duas vezes da necessidade de industrializar Mato Grosso. Senador, não é o momento de rever a Lei Kandir?
Senador José Lacerda – Nós precisamos mexer na legislação brasileira, em toda a legislação. A parte tributária, a parte fiscal, a necessidade de se mexer. É claro que ainda precisa entender que tem um grupo que querem que Mato Grosso continue sendo produtor de matéria bruta. Agora, para Mato Grosso isso não interessa mais. A Embrapa já deu um salto de qualidade para a tecnologia do Cerrado, e o processo migratório que teve para Mato Grosso foi fundamental para o desenvolvimento econômico do nosso Estado. Só que agora nós estamos numa outra fase. Quando o Dante [de Oliveira] foi governador e o Márcio Lacerda foi vice-governador, nós não tínhamos energia. Hoje Mato Grosso tem energia. Nós estamos hoje melhorando o nosso sistema intermodal de transportes. Que precisa consolidar, porque antes não adiantava você pensar em indústria. Não tinha energia, como é que você vai montar indústria? Hoje não, hoje o Estado tem energia e a logística. A logística melhorou muito. Não está ideal, mas já melhorou; já melhorou, precisa melhorar mais ainda. O governo do Estado precisa investir mais, o governo federal precisa investir mais em ferrovia e hidrovia. É fundamental para o nosso desenvolvimento, porque nós precisamos entender que o modelo de gestão do Brasil está falido, basta ver a dívida pública, que está acima de R$ 8 trilhões. Então, nós precisamos fazer uma revisão geral no nosso processo de gestão a nível nacional e investir em algumas áreas que são prioritárias, que vai gerar renda para resolver a questão da nossa dívida pública.
Jornal Kapital – O senhor mencionou também a hidrovia Paraguai-Paraná duas vezes. Ela tinha alguns gargalos, especialmente a questão ambiental. Está resolvido isso? O que você está pensando em relação à hidrovia?

Senador José Lacerda – Na realidade, nunca teve esse problema ambiental. Não. Foi criado, foi fabricado um problema ambiental. Inclusive quando o Pedro Taques era procurador da República, ele acabou embargando o sistema hidroviário. Eu fui presidente do Conselho de Hidrovia Paraguai-Paraná, em 82, em Mato Grosso do Sul. A diferença que nós definimos pelo modelo modal da hidrovia é adequar o barco ao rio e não o rio ao barco. E nós criamos na época também o rebocador Brasil. O que é o rebocador Brasil? Ele ia na frente das chatas e, quando tinha uma curva, liga esse rebocador Brasil e ela manobra as chatas para que não tivesse nenhum problema de qualquer…
Jornal Kapital – Ou seja, não havia a necessidade de intervenção nas margens do rio Paraguai…
Senador José Lacerda – Não precisa. O rio Paraguai precisa, única e exclusivamente, da limpeza do canal e balizamento. É porque com as chuvas que são torrenciais, com os plantios próximos à cabeceira, sujou o leito do rio. Então nós precisamos tirar a sujeira que está no leito do rio. O que aconteceu com o rio Taquari? O rio Taquari, por que teve um alagamento no rio Taquari de 1 milhão e 400 mil hectares no Pantanal? Porque o leito do rio ficou mais alto do que a lateral, porque foi entrando sujeira, sujeira, sujeira, que foi descendo das áreas da agricultura, entrou pro leito do rio e pela falta de limpeza, que pra mim foi uma irresponsabilidade, acabou alagando 1 milhão e 400 mil hectares no rio Taquari, e precisa ser limpeza.
Nosso papel é que o Estado sirva o cidadão, não que o cidadão sirva o Estado. Independente de diferenças partidárias, estamos trabalhando juntos em prol de Mato Grosso. Esse é o princípio. Não vim para cá para discutir no campo das pessoas. Eu estou aqui para discutir no campo das ideias. Eu acho que o Brasil está cometendo um erro discutindo no campo das pessoas. Nós precisamos voltar para o país a discutir no campo das ideias.
Jornal Kapital – Essa crise na Bolívia que o senhor menciona pode afetar, de alguma forma, a questão do gasoduto que vai do país vizinho para Cuiabá? Está tudo tranquilo com o gasoduto?
Senador José Lacerda – Não. O gasoduto está tranquilo. Só que a Bolívia está ficando sem gás, porque quando tirou a Petrobras de lá, acabaram seus investimentos. Então, nessa discussão com os dois presidentes, essa questão do gás tem que ser revista. Nós precisamos, inclusive, levar assistência técnica para eles, que seria o braço da Petrobras para a Bolívia. Hoje a empresa estatal do gás boliviano, a YPFB [Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos], tem um contrato exclusivo com a aquela usina, por exemplo, de Cuiabá, e agora eles abriram ações da Bolívia. Bolsa, já prometendo triplicar a produção de energia nessa usina de Cuiabá. A época quando foi feito o acordo, em agosto de 1988, quando assinou esse acordo do gás, que foi o presidente Sarney e o Vitor Paz Estenssoro, que era presidente lá na Bolívia na época. De lá para cá isso teve um avanço muito grande e ajudou esses 500 megas que vieram para Cuiabá. Na época Mato Grosso não tinha energia. Qualquer crescimento econômico não tinha energia. Então o gasoduto ajudou muito o desenvolvimento do Estado. E agora nós já temos outras fontes de energia. Então eu acredito o seguinte: há necessidade de ampliar. Por exemplo, a Zona de Processamento e Exportação em Cáceres vai precisar de mais energia. Mas o gasoduto passa por Cáceres. A nossa briga é por um ramal do gasoduto para Cáceres. Ainda quando nós discutimos isso lá em 88 da ZPE, quando discutimos o gasoduto, era para deixar também um ramal em San Matias para também se precisar ter um ramal para Cáceres.
Jornal Kapital – Senador, vamos falar de Política? São quantos meses de interino aqui, quanto tempo em exercício o senhor terá? Vai ficar mais dos quatro meses? Tem acordo para isso?
Senador José Lacerda – Bom, eu estou aqui há 40 dias. A Margareth [Buzetti, primeira suplente do senador Carlos Fávaro, ministro da Agricultura] a se afastou por um período de quatro meses. Então eu devo ficar quatro meses e vamos ver depois como é que vai ser o encaminhamento com ela e com o próprio Fávaro. Mas para mim, esses quatro meses, está sendo uma grande aula. Porque o Senado da República é o equilíbrio do país, dos poderes de Estado. E é muito interessante, estou aprendendo muito aqui com todos os outros senadores da República. Aqui você tem contato com os senadores do Brasil inteiro. A gente tem trabalhado – eu, o senador Wellington [Fagundes] e o senador Jayme Campos – em conjunto todas as questões mais importantes, a gente tem trabalhado em conjunto, que é para beneficiar o Estado. Nosso papel é que o Estado sirva o cidadão, não que o cidadão sirva o Estado. Independente de diferenças partidárias, estamos trabalhando juntos em prol de Mato Grosso. Esse é o princípio. Não vim para cá para discutir no campo das pessoas. Eu estou aqui para discutir no campo das ideias. Eu acho que o Brasil está cometendo um erro discutindo no campo das pessoas. Nós precisamos voltar para o país a discutir no campo das ideias.
Jornal Kapital – Senador, 2026 está aí. Qual é a pretensão que o senhor tem?
Senador José Lacerda – Eu não tenho mais pretensão de disputar eleição. Não pessoal. O Fávaro vem candidato ao Senado ano que vem. E o meu filho, Irajá Lacerda [secretário-executivo do inistério da Agricultura], vem candidato a deputado federal. Então, o meu papel vai ser ajudar na campanha do Fávaro e na campanha do Irajá. E parte de governador e presidente da República, nós vamos defender de como o partido vai conduzir, porque hoje eu estou no PSD. Eu saí do MDB. E o PSD está com essa articulação. Então vai depender, porque hoje eu tenho que cumprir o estatuto do PSD. O que o PSD nacional decidir, eu vou cumprir. E eu, se for disputar alguma coisa, eu vou na suplência do Fávaro, conforme for as articulações em torno da sua reeleição, o que vai depender também do PSD essa questão.

Jornal Kapital – Como o senhor está avaliando o governo Mauro Mendes?
Senador José Lacerda – Bom, o governador de Mato Grosso está com bastante recurso. O orçamento do Estado hoje está na casa de R$ 50 bilhões. Então é um orçamento representativo. Ele tem feito muitas obras, está conseguindo pagar tudo em dia, com o recurso próprio. Muito diferente do que foi na época do governo Júlio Campos, do governo Carlos Bezerra, do governo de Jayme Campos e no governo do Dante. Então houve uma mudança muito grande com a tecnologia do cerrado, com a produção que é o Estado tem hoje. Então o governo está indo bem.
Uma vaga é do Carlos Fávaro. São duas vagas. Acho que ele se reelege. Os partidos de centro-esquerda em Mato Grosso sempre tiveram de 30 a 35% dos votos. Mas aí somaria também que ele é o candidato do agronegócio. Ele é candidato do agro (…) o trabalho que o Fávaro está fazendo aqui no Ministério o projetou bastante. Ele já conseguiu abrir 462 novos mercados para o Brasil. E o projeto dele, até ele sair em abril, é de chegar a 500 mercados novos para o país.
Jornal Kapital – O Mauro está ensaiando a vir candidato ao Senado. O Senado vai ter lá cinco, seis candidatos. Então toda aliança política que puder ser feita, quem fizer a melhor aliança, tem possibilidade de vencer as eleições. E o senhor como um bom analista político, não só pela vivência de uma vida inteira, o senhor acha que o senador Fávaro, que é do chamado campo progressista, está navegando sozinho? E direita, o senhor vê ela bem fragmentada e sem unidade? Seria um quatro mais favorável o senador Fávaro?
Senador José Lacerda – Uma vaga é dele, eu não tenho dúvida disso. Uma vaga é do Carlos Fávaro. São duas vagas. Acho que ele se elege. Ele se reelege. Os partidos de centro-esquerda em Mato Grosso sempre tiveram de 30 a 35% dos votos. Mas aí somaria também que ele é o candidato do agronegócio. Ele é candidato do agro, mas existe uma divergência do agro com o campo da esquerda. Existe ainda uma polêmica. Mas o trabalho que o Fávaro está fazendo aqui no Ministério o projetou bastante. Ele já conseguiu abrir 462 novos mercados para o Brasil. E o projeto dele, até ele sair em abril, é de chegar a 500 mercados novos para o país. Então isso é extremamente importante. Basta ver esse episódio do presidente norte-americano, do Tarifaço. Isso acabou não tendo o reflexo que poderia ter se não tivesse aberto os mercados.
Jornal Kapital – O senhor lembrou que a decisão de candidatura para governo e presidente passa por uma definição do PSD nacional, mas em Mato Grosso os senhor já se articulam em torno do nome do senador Jayme Campos. O senhor tem conversado aqui no Senado com ele sobre isso?
Senador José Lacerda – Olha, hoje está se desenhando que o candidato a governador do grupo seria mesmo o Jayme Campos. Está tendo uma costura, tenho conversado com ele e ele tem conversado com o ministro Carlos Fávaro também. Agora isso vai depender do momento político.
Jornal Kapital – Mesmo o senador sendo do União? Há a possibilidade de o senador Jayme Campos ir para o PSD?
Senador José Lacerda – Não, não, essa discussão não tem. Mas o que ocorre? O senador Jayme Campos tem uma divergência com o governador Mauro Mendes. E o senador Wellington também e também quer ser candidato a governador, mas o PL nacional já desautorizou em tese a candidatura dele apoiando o vice-governador Otaviano Pivetta (Republicanos). O PL tá fechando com o Pivetta. Isso pelo menos é o que está posto na mídia. Mas dentro do União Brasil a tendência é fechar com a candidatura do Jayme. Eu não posso falar por ele, mas é o que percebo que está se desenhando. Aqui, no Senado, por exemplo, o presidente Davi Acolumbre, já garantiu apoio à candidatura dele. Mais uma vez, eu não posso falar por ele, mas o senador Jayme, pelo menos pela conversa que tenho com ele, tem o apoio do partido aqui a nível nacional, especialmente do presidente Alcolumbre.

Jornal Kapital – O senhor tem notícias de como que o Mauro Mendes está reagindo a isso?
Senador José Lacerda – Não tenho, porque eu não tenho participado muito dessa discussão mais doméstica, porque é muito partidária, a gente não tem como interferir lá. É exatamente ali na cúpula dos partidos, da qual não faço parte.
Jornal Kapital – Senador, a gente vê que tantos senadores importantes para Mato Grosso e para o Brasil, sentaram nessa cadeira aqui, tanto outros ilustres mato-grossenses, Felinto Muller, Roberto Campos, Jonas Pinheiro, Márcio Lacerda… Aliás, o senhor tem conversado com seu irmão, buscado orientações e aconselhamentos dele?
Senador José Lacerda – Tenho pedido orientações a ele. A escola tem um bom professor. O Márcio Lacerda é um bom analista político, conhece muito bem o Congresso Nacional. Viveu aqui como deputado federal, como senador, então teve uma vivência, tá certo? Porque era um momento diferente de hoje. É outro momento da vida brasileira, né? Mas nós participamos, eu acompanhei. Eu e ele, desde a época de pós-64, nós trabalhamos a redemocratização do Brasil. Tanto que aqui tem duas Constituições que eu uso aqui na mesa [ele mostra as edições originais das Constituições de Mato Grosso e a Federal, na mesa de reuniões em seu gabinete]. Uma que é a Constituição Federal, que o Márcio assinou [com deputado federal constituinte], e a outra que é a Constituição Estadual, que eu assinei como deputado [estatual constituinte]. Então, nossa família deu uma contribuição na Constituição Federal e na Constituição Estadual, e é onde ali está definido toda a linha da democracia brasileira. Falando em democracia, essa contribuição é importante do Márcio como deputado, senador constituinte, juntamente com outros notáveis deputados na época do Márcio.
Jornal Kapital – Como o senhor vê essa polarização em torno da Segurança Pública? A questão da PEC da Segurança Pública, o PL Antifacção, por exemplo. O senhor acha que estão politizando muito?

Senador José Lacerda – É, na realidade é o seguinte, esse embate de discussão de nomes e de direita e esquerda não traz nenhum benefício para o país. Isso não traz nenhum benefício para ninguém. A sociedade brasileira está cansada disso, Precisamos retomar o diálogo, sentar na mesa o poder Executivo, o poder Legislativo e o poder Judiciário, sentar na mesa com a iniciativa privada. Não é possível que o Brasil continue nessa polarização de direita e esquerda. Isso tem causado um prejuízo para o Brasil muito grande. Eu defendo que essa polarização seja resolvida. Eu digo o seguinte: quem está com o poder de mando, de mandato, quem está com a caneta no Judiciário, quem está com a caneta como presidente da República, governador, prefeito, Câmara municipal, tem que ter mais responsabilidade e entender que a sociedade está sofrendo por causa dessa polarização. Não é possível que isso continue no Brasil. Eu acho que está na hora de chamar a responsabilidade das autoridades políticas do Brasil, independente de que partido político seja, e sentar na mesa para pacificar o Brasil. Nós tínhamos uma população alegre, cortês, amiga, que nós estamos perdendo essa cortesia, as pessoas estão ficando mais amargas e isso está abrindo aquilo que você me perguntou da PEC da Segurança. Vamos ver como está a segurança no Brasil hoje. Eu me lembro quando comecei a vida pública lá, há 50 anos atrás discutindo a vida pública, nós falávamos nos comícios que a praça era do povo, que a rua era do povo, e será que nós podemos continuar com esse discurso? Não, por quê? Porque hoje nós estamos refém dentro de casa, com grade, com câmera, com automóvel blindado. A rua, quem está tomando conta, não é a população de bem do Brasil. A população de bem do Brasil está começando a ficar refém. Então está na hora do Estado brasileiro tomar uma posição.
A pergunta é a seguinte: uma pessoa que não consegue consumir nada, que falta comida na mesa para ele, o que você pode esperar que essa pessoa seja capaz de fazer? E a culpa não é dele. A culpa é que o Estado não está conseguindo enxergar essas pessoas. Não é possível que o Estado não consiga enxergar essas pessoas que menos têm.
Já que estão tratando desse assunto, também é fato que tratar essa questão de segurança pública, de violência, criminalidade, que não resume somente na repressão policial ou na inteligência de investigação. Ela envolve com outros fatores muito mais profundos, como a educação, tirar as pessoas, as crianças das situações vulneráveis, esse não seria primeiro dever de caso primordial. A questão da segurança está prevista na Constituição. O que é? Saúde, educação, habitação, direito à alimentação, política externa, porque a questão de segurança pública não é matéria de polícia. É questão de política internacional também, resolver as questões de fronteira, para o ao tráfico de drogas, o tráfico de armas. Nós estamos com esse problema do Rio de Janeiro. A minha pergunta é o seguinte, o armamento que vem para o Brasil, quem é o fabricante? De onde vem? Então, precisamos chamar a atenção do mundo, porque aqui no Brasil proibiu-se o uso de armamento para as pessoas de bem. O narcotraficante, o bandido, não precisa de porte de arma. As pessoas de bem perderam esse direito. E além de perder esse direito, foram orientadas que não é para reagir, sob pena de ser vitimado. Agora, o marginal que está cometendo o crime, ele não vai pedir porte de arma para a Polícia Federal nem para lugar nenhum. Ele está trazendo a arma de contrabando de algum lugar do mundo, essa arma está chegando no Brasil. Então, nós precisamos tratar isso como política internacional de que todos os responsáveis, quem fabrica armamento, quem vende armamento para o Brasil, quem faz contrabando de arma, quem faz contrabando de droga, quem faz contrabando de ouro, quem faz contrabando de outros tipos de produtos, seja o responsabilizado todos. E isso não tem nenhum mistério. Todo mundo sabe que a folha de coca é uma folha verde, que é o melhor componente medicinal. Mas você coloca éter e acetona e transformou em cocaína. Quem está fazendo isso? Não é difícil descobrir.
Com o consumismo induz algumas pessoas irem para o descaminho, nós estimulamos o consumo. Mas a pergunta é a seguinte: uma pessoa que não consegue consumir nada, que falta comida na mesa para ele, o que você pode esperar que essa pessoa seja capaz de fazer? E a culpa não é dele. A culpa é que o Estado não está conseguindo enxergar essas pessoas. Não é possível que o Estado não consiga enxergar essas pessoas que menos têm. Eu vejo muitas pessoas que falarem do mal da Bolsa Família, mas se não fosse a Bolsa Família, muitas pessoas provavelmente teriam entrado para um mundo desnecessário. Até pela necessidade. Na vulnerabilidade.





























