Pistolagem

“A última confissão de um pistoleiro”

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Por Rodrigo Rodrigues

Entrevista em Natal com um dos maiores matadores de aluguel do Brasil, que admite mais de 129 crimes

Natal, novembro de 2024. Em viagem pelo nordeste com um primo, fui contactado por uma grande revista nacional, para fazer um free-lance, por um colega que sabia que estava por lá. Entrevistar um dos maiores matadores de aluguel vivo do país. O tempo era curto, estava indo para São Paulo reencontrar uma ex namorada de adolescência. Topei na hora, mas como o entrevistado não era muito de falar, a revista acabou não publicando.

O ar-condicionado fraco do hotel mal disfarça o calor úmido da capital potiguar. Em um quarto de cortinas fechadas, um homem de 84 anos respira com a ajuda de um cilindro de oxigênio portátil. Corpo frágil, mãos trêmulas, mas olhar ainda firme. Ele pede para ser chamado apenas de “Seu Neco”, apelido que atravessou sertões, fronteiras estaduais e tribunais silenciosos.

Diante do gravador, confessa pela primeira vez: matou 129 pessoas por encomenda, em mais de meio século de atividade. Sua trajetória, embora excepcional pelo número, está longe de ser única. Ela se inscreve em uma história sombria do Brasil, onde pistoleiros de aluguel foram — e ainda são — peças de engrenagem em disputas de poder, de terra e de política

 

“Eu não matava, eu trabalhava

Repórter: Por que o senhor resolveu falar agora?

Neco: Porque tô no fim. Doente, cansado. A morte vem chegando, e eu já levei muita gente até ela. Agora, quero deixar o peso aqui.

Repórter: Quantos homens o senhor matou?

Neco: Homens, mulheres… uns 129. Não guardava conta. Pra mim, era trabalho. Eu não matava, eu trabalhava.

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Os pistoleiros no Brasil profundo

A história de Neco ecoa o destino de centenas de pistoleiros que atuaram, sobretudo, no Nordeste, a partir dos anos 1950. O crescimento do latifúndio, os conflitos de terra e o coronelismo criaram um mercado estável para os matadores de aluguel. Em estados como Paraíba, Pernambuco e Maranhão, pistoleiros eram contratados para eliminar rivais em disputas fundiárias.

Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) mostram que entre 1985 e 2023 mais de 2 mil pessoas foram assassinadas em conflitos rurais no Brasil, e grande parte das mortes foi executada por pistoleiros. O fenômeno, antes restrito ao campo, migrou também para as cidades, associado ao crime organizado e à política local.

Do sertão à capital

Repórter: Como foi o primeiro crime?

Neco: Eu tinha 15 anos, sertão da Paraíba. Um fazendeiro me deu uma espingarda e uns trocados pra matar um vizinho que brigava por terra. Quando acabei, virei o menino que resolvia problema. Nunca mais voltei atrás.

Repórter: O senhor foi contratado por políticos?

Neco: (silêncio longo) Já. Deputado, prefeito, coronel de polícia. Eu nunca perguntava muito. Só dizia: “quem é o alvo?” e quanto pagava.

No auge, pistoleiros como Neco podiam cobrar o equivalente a 50 salários mínimos por uma execução. Alguns chegavam a viajar entre estados, transportados por intermediários que garantiam proteção. Era um mercado profissionalizado do c

Entre o poder e o medo

O uso de pistoleiros como instrumento político atravessou décadas. Um dos casos mais emblemáticos ocorreu em 1963, com o assassinato de João Pedro Teixeira, líder camponês na Paraíba, morto a mando de latifundiários. Anos depois, na década de 1990, casos semelhantes se repetiram em Rondônia, Pará e Maranhão.

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O Brasil nunca erradicou essa prática. O massacre de Dorothy Stang, missionária americana assassinada em Anapu (PA) em 2005, é exemplo mais recente da força letal de pistoleiros a serviço de fazendeiros e grileiros.

O preço da consciência

Repórter: O senhor se arrepende?

Neco: No começo, não. Era só trabalho. Depois, cada rosto volta na noite. Uma vez matei uma mulher grávida, sem saber. Isso nunca saiu da minha cabeça.

Repórter: O senhor acredita em perdão?

Neco: Da justiça dos homens já escapei. Mas da de Deus, não tem fuga. Hoje, cada vulto me cobra na madrugada.

Um Brasil que ainda sangra

Especialistas em segurança afirmam que o Brasil atual ainda convive com essa herança. A ausência do Estado em regiões rurais, a impunidade e a corrupção política mantêm pistoleiros ativos. Segundo dados do Global Witness, em 2022 o Brasil foi o país que mais matou defensores da terra e do meio ambiente no mundo.

O caso de Neco, portanto, é memória viva de uma violência estrutural que atravessa gerações. Seu testemunho revela a engrenagem: quem paga, quem mata, quem se beneficia e quem é enterrado no silêncio.

A última fala

Antes de encerrar a conversa, Neco pede água e faz uma pausa longa. Depois, quase num sussurro, deixa seu epitáfio pessoal:

“Se tivesse ficado na roça, criado bode, plantado feijão, talvez ainda tivesse paz. Dinheiro de sangue compra tudo, menos sossego.”

No quarto silencioso de um hotel em Natal, um dos maiores pistoleiros do Brasil entrega, no fim da vida, o retrato de uma era que insiste em não acabar.

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