Por Karen Loren
Após meses de calmaria entre Estados Unidos e China, Donald Trump voltou a atacar nesta sexta-feira (10) ao anunciar novas tarifas de 100% contra produtos exportados pelo gigante asiático. A alíquota se soma aos 30% já em vigor.
Em resposta à limitação de vendas de terras raras pela China, Trump ameaçou também controlar as exportações de peças da Boeing para o país.
Até o momento, Pequim ainda não anunciou retaliações, mas o movimento é esperado, em vista do que foi feito em outras oportunidades, segundo analistas ouvidos.
Para os especialistas, essa nova escalada das tensões entre as duas maiores economias do globo deve favorecer o Brasil, dando continuidade ao o que foi visto desde o início das tarifas dos EUA aplicadas desde o primeiro semestre.
Ian Lopes economista da Valor Investimentos, destaca o papel que o Brasil assumiu na venda da soja à China, ocupando espaço maior que antes era dado aos produtores norte-americanos.
“A gente pode olhar até o que aconteceu com a soja brasileira, que nunca vendeu tanto para os chineses, que pararam de comprar dos americanos. Isso com certeza vai acabar se repetindo em outras cadeias produtivas”, aponta.
A perda de mercado na China foi alertada recentemente por produtores dos EUA. Em relatório publicado nesta semana, a American Farm Bureau Federation, entidade agrícola centenária que representa 6 milhões de agricultores norte-americanos, destacou que o Brasil acabou tomando posição de destaque nesse movimento de rotação.
Em relatório, a instituição aponta que o volume embarcado de soja dos EUA ao mercado chinês recuou quase 78% na comparação entre janeiro e agosto deste ano com o mesmo período de 2024 — quando o gigante asiático foi responsável pela compra quase metade das exportações norte-americanas.
“Mesmo quando os agricultores americanos produzem safras com preços competitivos, a China tem reduzido constantemente sua dependência dos Estados Unidos, voltando-se para o Brasil, a Argentina e outros fornecedores”, cita o relatório.
“As importações de soja da China não estão diminuindo; na verdade, atingiram níveis recordes, mas a maior parte dessa demanda agora está sendo atendida por concorrentes”.
Para o economista da Valor, o cenário deve se intensificar com possíveis retaliações dos chineses.
“Eles já deixaram bem claro, tanto por declarações por vias diplomáticas e não diplomáticas, que não têm medo de tarifas de guerra comercial”.
Além das exportações, Beto Saadia, diretor de investimentos da Nomos, vê o Brasil se beneficiando da escalada das tensões também pela ponta das importações: com maiores barreiras ao mercado dos EUA, os chineses devem buscar novos destinos mais atrativos para escoar a produção.
“A gente consegue ter um escoamento de produto mais abundante para o mercado interno. Ou seja, produtos que a China venderia para os Estados Unidos, ela vai ter que canalizar para o mercado brasileiro. Então, isso acaba aumentando a oferta e abaixando esses preços”, detalha.
Esses efeitos, que podem até ajudar no arrefecimento da inflação brasileira, tendem a ser sentidos em um espaço mais longo de tempo, complementa o especialista.
” A balança comercial se beneficia, mas é um benefício que se estende mais ao longo dos próximos anos”.
As duas maiores economias dependem uma da outra
Os Estados Unidos e a China são as duas maiores economias do mundo. Embora o México tenha recentemente substituído a China como principal fonte de produtos estrangeiros enviados aos Estados Unidos, os norte-americanos dependem dos chineses para centenas de bilhões de dólares em mercadorias.
A China, por sua vez, é um dos principais mercados de exportação dos EUA.
Em particular, eletrônicos, vestuário e móveis estão entre os principais produtos que os Estados Unidos recebem da China.
Trump pressionou CEOs, especialmente na área de tecnologia, a transferir a produção para os Estados Unidos, mas suavizou sua abordagem nos últimos meses, à medida que líderes empresariais satisfizeram o presidente com anúncios de centenas de bilhões de dólares em investimentos na indústria manufatureira americana — mesmo que continuem a fabricar a maior parte de seus produtos no exterior.
Pouco depois de impor tarifas mínimas de 145% sobre produtos chineses — um embargo comercial efetivo —, Trump concedeu uma isenção para eletrônicos , tornando-os sujeitos a tarifas de 20%.
A medida foi, em muitos aspectos, um reconhecimento de que o governo compreendia o sofrimento que estava causando à economia americana com suas tarifas altíssimas.
Então, em maio, autoridades americanas e chinesas consolidaram ainda mais a interdependência comercial ao concordarem em reduzir tarifas entre si. A China reduziu as taxas sobre as exportações americanas de 125% para 10%, e os Estados Unidos reduziram as taxas de 145% para 30%.



























