Não há evidências de que o desaparecimento de duas ampolas de urânio enriquecido de uma fábrica das Indústrias Nucleares do Brasil (INB) tenha relação com dois navios de guerra iranianos que atracaram no Rio de Janeiro em 2023.
Postagens, opens new tab no Instagram e no Facebook compartilham um vídeo que insinua que o material foi extraviado para o programa de armamento nuclear do Irã.

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No entanto, o conteúdo desconsidera que o urânio extraviado não era enriquecido o suficiente para uso bélico, entre outras imprecisões.
Segundo a postagem, um navio militar do Irã atracou no Rio de Janeiro em março de 2024 e “permaneceu ali por vários dias”. O vídeo diz que “a poucas horas dali, na costa de Angra dos Reis”, duas ampolas de urânio enriquecido sumiram das “usinas brasileiras” e que, “um mês depois, o Irã anunciou avanços no seu programa de armamento nuclear”.
Na realidade, os dois episódios aconteceram com cerca de quatro meses de diferença.
O governo brasileiro autorizou que dois navios militares do Irã atracassem no porto do Rio de Janeiro entre 28 de fevereiro e 4 de março de 2023 — não de 2024, como diz o vídeo –, conforme registros no Diário Oficial da União, opens new tab.
Já o sumiço das ampolas de urânio foi identificado em julho do mesmo ano, após uma transferência interna entre áreas de armazenamento na Fábrica de Combustível Nuclear da INB, em Resende (RJ), disse, opens new tab a estatal à época. A instalação fica a mais de 160 quilômetros, opens new tab do complexo nuclear de Angra dos Reis.
No ano passado, o Ministério Público Federal (MPF) arquivou, opens new tab uma investigação sobre o desaparecimento do material ao concluir que não havia indícios de crimes no caso. A decisão considerou relatórios finais de inquéritos policiais e uma sindicância interna da INB.
O MPF indicou suspeitas de falha na manipulação do produto.
A INB disse em e-mail, opens new tab que nunca enviou urânio ao Irã, e que “não tem qualquer negócio com o Irã e jamais teve”. A estatal também citou o arquivamento do inquérito pelo MPF.
“A investigação concluiu que se tratou de erro operacional interno, sem qualquer consequência externa. Qualquer narrativa que sugira risco ou ilegalidade é falsa, irresponsável e totalmente desconectada da realidade dos fatos oficiais. Não houve crime, dano ambiental, nem qualquer risco à população no episódio citado”, afirmou.
POTENCIAL BÉLICO
O vídeo checado diz que, um mês após o desaparecimento das ampolas de urânio enriquecido, o Irã anunciou “avanços” em seu programa nuclear, mas não especifica qual seria este anúncio.
Na época do incidente, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) disse, opens new tab que os produtos perdidos continham 8 gramas de urânio enriquecido a 4,25% e eram usados na fabricação de combustíveis nas usinas de Angra 1 e 2.
Segundo o governo federal, opens new tab, este tipo de urânio não é aplicável para fins bélicos.
A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), opens new tab também diz que o urânio abaixo de 5% é considerado de “baixo enriquecimento, opens new tab” e comumente utilizado na produção de combustível de reatores comerciais.
Já o urânio com concentração acima de 20%, afirma a AIEA, pode ter aplicações em armas nucleares.
A Eletronuclear, que administra as usinas de Angra dos Reis, afirmou, opens new tab que o episódio não envolveu as instalações da companhia e que elas operam exclusivamente para fins pacíficos de geração de energia elétrica.
“Informações que relacionam as usinas ou o setor energético brasileiro a qualquer atividade de caráter ilícito, bélico ou conspiratório carecem totalmente de fundamento”, afirmou a estatal.
(Texto atualizado em 17 de julho de 2025 com resposta da INB no décimo parágrafo.)
VEREDICTO
Sem evidências. Não há indícios de relação entre o sumiço de ampolas de urânio e a passagem de navios iranianos pelo Rio em 2023. O MPF não encontrou sinais de crime, e o material extraviado não era suficientemente enriquecido para aplicações bélicas.
Este artigo foi produzido pela equipe da Reuters Fact Check. Envie sugestões de checagem via WhatsApp pelo número (11) 91599-9278, opens new tab. Leia mais sobre nosso trabalho de checagens de afirmações nas redes sociais aqui.
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