MAMATA

Vaca de divinas tetas; governador de Mato Grosso e candidato à reeleição acumula mais de R$ 500 milhões em renúncias fiscais

publicidade

JK

Há uma velha expressão popular — “vaca de divinas tetas” — usada para designar aquilo que parece ter leite inesgotável para alguns, mas que nunca chega igualmente a todos. Em Mato Grosso, ela ajuda a ilustrar uma discussão que precisa sair do discurso eleitoral e entrar no centro do debate público: quem realmente se beneficia das riquezas produzidas pelo Estado?

O governador Otaviano Pivetta tem feito, reiteradamente, críticas ao serviço público e aos servidores, chegando a estimular que aqueles que não estejam satisfeitos com suas condições de trabalho busquem o empreendedorismo. A ideia pode parecer atraente em um palanque empresarial. O problema é que um Estado não funciona apenas com empreendedores.

Quem atende o cidadão na madrugada é o policial. Quem recebe o paciente em uma unidade de saúde é o servidor público. Quem alfabetiza a criança, prepara o adolescente para a universidade e sustenta diariamente a rede de ensino é o professor. São profissionais que exercem funções essenciais e que não podem simplesmente abandonar seus postos para abrir uma empresa.

A questão, portanto, não é ser contra o empreendedorismo. Mato Grosso precisa — e muito — de empresas, investimentos, inovação e geração de empregos. O problema aparece quando se transforma o servidor público em uma espécie de responsável pelos próprios problemas enquanto empresários recebem do Estado mecanismos de incentivo, benefícios tributários e condições especiais para ampliar seus negócios.

É nesse ponto que a discussão sobre incentivos fiscais ganha importância.

Segundo o levantamento utilizado para este debate, o governo Pivetta acumula mais de R$ 500 milhões em renúncias fiscais. O número, por si só, exige explicações: quais empresas receberam os benefícios? Quanto deixaram de recolher aos cofres públicos? Quantos empregos foram efetivamente criados? Qual foi o retorno econômico e social para Mato Grosso?

E há uma questão ainda maior: qual é o critério utilizado para definir quem merece o apoio do Estado?

Leia Também:  Marechal Cândido Rondon: o pacificador dos sertões e arquiteto da integração nacional

Porque, quando o discurso oficial diz ao servidor “empreenda”, é legítimo perguntar se esse servidor terá acesso às mesmas condições oferecidas aos grandes grupos empresariais. Terá crédito favorecido? Incentivo tributário? Estrutura pública? Tratamento diferenciado? A mesma capacidade de interlocução com quem decide os rumos da política econômica?

O debate não começou agora. O modelo de aproximação entre grandes interesses econômicos e o poder político em Mato Grosso atravessa diferentes governos. Também durante a administração do ex-governador Mauro Mendes houve ampla utilização de políticas de incentivos fiscais, o que torna necessário discutir não apenas quem recebe benefícios, mas quais são os mecanismos de controle, transparência e contrapartida.

Há mais de três décadas, empresários mato-grossenses participam ativamente da política e, em diferentes momentos, ocupam posições centrais no poder. Não há nada de ilegítimo nisso. Empresários têm, como qualquer cidadão, o direito de participar da vida pública.

O problema começa quando a fronteira entre governar para todos e governar sob forte influência de grupos econômicos fica tênue demais.

Mato Grosso produz uma riqueza extraordinária. É potência agrícola, pecuária, mineral e energética. Mas riqueza produzida não significa automaticamente riqueza distribuída. O Estado pode ser extremamente rico enquanto parte de sua população continua enfrentando dificuldades para ter acesso a serviços públicos de qualidade.

É justamente por isso que a eleição de 2026 deveria discutir mais do que nomes, alianças e pesquisas eleitorais. Deveria discutir o modelo de Estado que Mato Grosso pretende construir.

Um Estado para quem já tem capital suficiente para negociar com o poder? Ou um Estado que também reconheça o valor de quem acorda todos os dias para prestar serviço à população?

A crítica aos servidores públicos também merece ser examinada sob essa perspectiva. Não é razoável tratar uma categoria inteira como obstáculo ao desenvolvimento quando policiais, professores, profissionais da saúde e tantos outros sustentam serviços dos quais dependem milhões de mato-grossenses.

Leia Também:  Deputado que apoiou Bolsonaro vai relatar processo contra Eduardo

Servidor público não é inimigo do empreendedor.

Tampouco empresário é inimigo do servidor.

O verdadeiro problema é quando um modelo político cria a impressão de que alguns podem recorrer ao Estado para crescer enquanto outros são aconselhados a se virar sozinhos.

Essa é a contradição que precisa ser colocada sobre a mesa.

Se o Estado dispõe de recursos para abrir mão de centenas de milhões de reais em impostos em favor de determinados setores empresariais, precisa explicar com a mesma clareza por que não consegue oferecer aos seus servidores condições dignas de trabalho e remuneração compatíveis com a responsabilidade que carregam.

E é aí que a velha imagem da “vaca de divinas tetas” volta ao debate.

Quem pode mamar nessa vaca?

Apenas os grandes empresários próximos do poder ou também aqueles que, todos os dias, mantêm o Estado funcionando?

Essa talvez seja uma das questões centrais da eleição em Mato Grosso: até que ponto o poder econômico deve influenciar o poder político e até onde pode chegar a utilização do Estado como instrumento de expansão de patrimônios privados?

O Estado não pode ser sequestrado por nenhum grupo — empresarial, político ou ideológico. Seu patrimônio pertence à sociedade. Seus incentivos precisam ter transparência. Suas políticas econômicas precisam apresentar contrapartidas. E seus servidores precisam ser tratados como parte essencial da máquina pública, não como um problema a ser transferido para a iniciativa privada.

Por isso, ao governador Otaviano Pivetta, fica uma pergunta simples, direta e inevitável:

O servidor público que quiser empreender gozará dos mesmos benefícios, incentivos e condições de que o senhor e seus empresários aliados desfrutam?

Porque, se a resposta for não, talvez seja hora de explicar quem realmente está sendo convidado a empreender — e quem continua tendo acesso às tetas da vaca.

COMENTE ABAIXO:

Compartilhe essa Notícia

publicidade

publicidade