Por Rodrigo Rodrigues
Enquanto falta água nas torneiras, sobra asfalto para os interesses de sempre
Há algo profundamente errado quando um governo decide transformar uma estrada em vitrine política enquanto uma cidade inteira convive com a insegurança hídrica, o improviso e o medo constante de colapso no abastecimento. É exatamente isso que ocorre hoje em Chapada dos Guimarães.
O drama do Portão do Inferno virou espetáculo administrativo. Promessas grandiosas, anúncios cinematográficos, discursos sobre engenharia de ponta e desenvolvimento turístico. Tudo embalado como se Mato Grosso estivesse diante de uma obra histórica. Mas a pergunta que o cidadão comum faz é simples: histórica para quem?
Porque para milhares de moradores da Chapada, o problema urgente não é a foto aérea da encosta, nem o marketing institucional de novas rotas rodoviárias. O problema é abrir a torneira e não ter água.
A prioridade lógica de qualquer governo minimamente comprometido com interesse público seria resolver definitivamente o colapso hídrico da cidade. Chapada dos Guimarães cresceu sem planejamento proporcional de saneamento e abastecimento. Nos períodos de estiagem, bairros inteiros sofrem. Moradores convivem com racionamentos velados, baixa pressão e insegurança permanente.
Mas, aparentemente, isso não produz o mesmo impacto político que uma estrada nova.
A chamada MT-030, vendida como alternativa moderna ligando Cuiabá a Chapada dos Guimarães, surge cercada de dúvidas, interesses econômicos e um evidente cheiro de valorização imobiliária seletiva. Não por acaso, o atual governador Otaviano Pivetta possui investimentos relevantes na região da Chapada. Ainda que isso não constitua ilegalidade por si só, o conflito moral e político é inevitável.
Quando o poder público direciona bilhões em infraestrutura para regiões onde agentes políticos possuem interesses econômicos diretos ou indiretos, a obrigação de transparência deveria ser absoluta. O problema é que em Mato Grosso frequentemente se tenta naturalizar aquilo que em democracias maduras seria alvo imediato de intenso escrutínio público.
A narrativa oficial tenta vender a MT-030 como solução técnica inevitável. Mas inevitável para quem? Para o trabalhador que sofre com hospitais lotados? Para os municípios sem saneamento? Para regiões inteiras do estado com estradas destruídas pelo escoamento agrícola? Para cidades que ainda convivem com precariedade estrutural básica?
Mato Grosso possui prioridades muito mais urgentes do que criar novos corredores de valorização imobiliária em áreas já cobiçadas economicamente.
A situação da água em Chapada dos Guimarães deveria constranger qualquer governo sério. O município possui vocação turística internacional, cresce demograficamente e, ainda assim, não consegue garantir abastecimento estável à população. Isso não é detalhe administrativo. É falência de planejamento público.
Turismo sem água é ficção.
Desenvolvimento urbano sem segurança hídrica é irresponsabilidade.
Expansão imobiliária sem infraestrutura básica é convite ao colapso.
Enquanto isso, milhões são direcionados para projetos rodoviários cercados de forte simbolismo político. O Portão do Inferno virou uma espécie de monumento à inversão de prioridades. A encosta ganhou mais atenção do que a dignidade cotidiana dos moradores.
Há também uma dimensão ambiental perigosamente negligenciada. Chapada dos Guimarães não é apenas um ativo turístico: trata-se de uma região sensível, estratégica para nascentes, biodiversidade e equilíbrio ecológico. Grandes intervenções viárias exigiriam um debate público profundo, transparente e técnico — não apenas campanhas publicitárias embaladas em linguagem de progresso inevitável.
O mais irônico é que governos frequentemente justificam obras desse tipo falando em “futuro”. Mas não existe futuro sustentável quando a prioridade deixa de ser o básico. Água vem antes de asfalto. Saneamento vem antes de marketing. Planejamento urbano vem antes de corredores de valorização fundiária.
O cidadão mato-grossense não é ingênuo. Ele percebe quando determinadas obras parecem atender muito mais aos interesses econômicos de grupos específicos do que às necessidades reais da população.
Chapada dos Guimarães precisa, acima de tudo, de:
* segurança hídrica,
* ampliação do sistema de abastecimento,
* preservação ambiental,
* saneamento,
* planejamento urbano,
* gestão sustentável do turismo.
O resto pode esperar.
Porque nenhuma estrada bonita consegue esconder uma torneira seca.


























