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Com conflitos avançando pelo mundo, os gastos militares seguem em tendência de alta.
E o Brasil também vive uma espécie de “boom” do seu setor bélico — os gastos militares no país aumentaram 13% no ano passado, muito acima da média global de quase 3% no mesmo período. Além de gastar mais, o Brasil tem exportado mais, com ampla demanda global por equipamentos brasileiros, que vão de munição convencional a aviões.
Com esse mercado aquecido, grandes negócios no setor militar brasileiro chamaram a atenção de investidores e analistas nos últimos meses.
Um deles foi o aporte milionário de diversos investidores na Avibrás, empresa brasileira líder na produção de sistemas de defesa e do setor aeroespacial, especializada em foguetes e mísseis.
Fundada em 1961, a Avibrás estava desde 2022 em recuperação judicial. No mês passado, após uma crise financeira que incluiu uma greve de 1.281 dias, a Avibrás retomou suas atividades em sua fábrica de São José dos Campos (SP) — agora rebatizada de Avibrás Aeroco.
Nos últimos anos, movimentos pela aquisição da Avibrás por grupos da China e dos Emirados Árabes chegaram a ser reportados. Mas a produção de mísseis e foguetes está sendo retomada graças a um aporte de R$ 300 milhões de diversos investidores, entre eles o bilionário Joesley Batista, do grupo JBS.
Outros grandes investimentos no setor armamentista brasileiro também chamam atenção.
Na última semana, a Embraer anunciou que fechou o maior pedido internacional já feito por um único país, os Emirados Árabes, para o cargueiro C-390 Millennium, o maior avião desenvolvido pela companhia.
Segundo o último relatório sobre o tema elaborado pelo Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), os gastos militares mundiais aumentaram 2,9% em termos reais para US$ 2,887 trilhões em 2025. Foi o 11º ano consecutivo de crescimento e o maior nível de gastos já registrado pelo SIPRI. O total representou 2,5% do PIB global em 2025.
O Brasil foi o país que mais investiu na América do Sul, aumentando seus gastos militares em 13% em 2025, chegando a US$ 23,9 bilhões. Esse aumento se deveu principalmente ao maior investimento em desenvolvimento tecnológico naval e aos custos mais elevados com pessoal militar, segundo o SIPRI.
Um dos destaques neste rearmamento global são os países europeus integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Com conflitos e ameaças à região, nações menos militarizadas nas últimas décadas como a Alemanha vêm ampliando gastos com o setor.
Como resultado, entre os cinco maiores compradores de equipamentos militares do Brasil no último ano, três são da região: Alemanha, Bulgária e Portugal. Os outros foram Emirados Árabes e Estados Unidos.
Em 2025, a indústria de defesa brasileira atingiu novo recorde histórico de exportações. Foram US$ 3,1 bilhões em autorizações para exportações de produtos e serviços, crescimento de 74% em relação a 2024 (US$ 1,78 bilhão), segundo o ministério da Defesa. O valor é mais que o dobro do registrado em 2023 (US$ 1,45 bilhão). Houve um aumento acumulado de cerca de 114%, entre 2023 e 2025.
A Base Industrial de Defesa (BID) — que é o conjunto de empresas estatais e privadas articuladas pelo Ministério da Defesa que desenvolve, produz e mantém produtos estratégicos militares — comercializa atualmente para 140 países em todos os continentes, com 80 empresas exportadoras. O setor representa cerca de 3,5% do PIB e gera quase 3 milhões de empregos diretos e indiretos.
“Há certo grau de segurança em dizer que os gastos militares globais seguirão crescendo. Houve uma mudança na percepção das pessoas. Observamos mais de 100 países aumentando seus gastos em 2025, o que mostra que é algo mais generalizado”, aponta à BBC News Brasil Diego Lopes, pesquisador sênior do programa de despesas militares e produção de armamentos do SIPRI.
“A guerra está no horizonte, ainda que os países não estejam envolvidos, mas pensam em se preservar. Há um paradoxo, já que quando há aumento dos gastos de um país, os vizinhos tendem também a elevar seus investimentos, gerando uma espiral”, acrescenta.
Investimento na criação de oferta
Mas como um país que tem em sua tradição diplomática o afastamento de conflitos ganhou destaque na indústria militar global?
“O Brasil é um grande exportador de armas e munições leves desde os anos 70”, conta Marcos Barbieri, professor de economia da Unicamp e especialista em indústria de defesa. Entre as grandes empresas do setor, estão a Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) e a IMBEL, estatal criada durante o regime militar.
A CBC é uma das líderes globais do segmento e conta atualmente com fábricas nos Estados Unidos e na Europa, e é atualmente grande fornecedora de munição para os países da Otan.
Neste século, o país passou a investir na produção de equipamentos militares de maior complexidade. “Em 2008, se estabeleceu no Brasil uma estratégia nacional de defesa que reuniu projetos e criou diretrizes, o que acabou levando à formação de programas estratégicos”, explica Barbieri.
Ele destaca o projeto da Embraer C-390, avião militar que vem sendo amplamente buscado no exterior.
A empresa já vendeu unidades para mais de dez países, com aeronaves em operação atualmente em Portugal, na Hungria e na Coreia do Sul, além do recente contrato com os Emirados Árabes. Segundo Barbieri, atualmente, a Otan usa o KC-390, denominação do C-390 quando equipado com a capacidade de reabastecimento em voo, como padrão da aliança.
“Desde então, o Brasil passou a ter produtos de qualidade que passaram a ser exportados”, afirma o especialista. Outro exemplo é a fragata Tamandaré, navio nacional que a Marinha vem defendendo como possível exportação visando aquecer a indústria local.
No caso da Avibrás, Barbieri afirma que é uma empresa estratégica que conta com toda a competência técnica para a produção de itens como mísseis de cruzeiro. Por sua vez, ao longo dos últimos anos, a empresa esteve envolvida em dificuldades administrativas. Procurada, a Avibrás não se manifestou.
Um raro consenso no cenário de incerteza internacional na economia é o de que a demanda do setor seguirá aquecida. Na visão de Barbieri, este cenário traz oportunidades para as empresas brasileiras em uma série de frentes.
“Há expectativa de o setor crescer muito. O conflito na Ucrânia tem sua importância em razão das munições, que vêm sendo essenciais e auxiliam na demanda pelos produtos brasileiros. É uma guerra com tropas paradas com grande necessidade de artilharia”, explica.
O conflito no Irã, que vem sendo marcado pelo uso de mísseis é um reforço das oportunidades para a Avibrás, avalia.
“No processo de rearmamento que várias regiões do mundo estão passando, há aumento na demanda, o que aumenta o mercado e cria maior escala”, aponta Lopes. Neste contexto, a produção brasileira depende da exportação destes equipamentos, já que é uma forma como consegue elevar seu nível de vendas que não é sustentado apenas pela demanda interna, diminuindo os custos de produção, explica.
Na visão de Barbieri, o fato do Brasil ser percebido como não alinhado é uma grande vantagem geopolítica. Segundo ele, o país é visto sem desconfianças por grande parte dos importadores, o que vem sendo cada vez mais relevante em um mundo preocupado com a dependência de equipamentos estrangeiros.
Armas nas mãos de quem
O destino destes materiais é alvo de intensa preocupação por analistas do setor. Governos repressivos, crime organizado, mercenários e até grupos terroristas são eventuais receptores finais das armas, especialmente as mais leves e munições.
“Há exportação para regiões instáveis, como na África e no Oriente Médio, incluindo a governos autocráticos que podem usar estas armas contra a população civil”, afirma Bruno Langeani, consultor-sênior do instituto Sou da Paz e analista de dados do Conflict Armament Research
Em 2024, o Brasil registrou uma disparada nas exportações de armas e munições para Burkina Faso. Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior, naquele ano as vendas ao país da África Ocidental somaram US$ 8,4 milhões. No final de 2022, o país sofreu um golpe militar e vive desde então com denúncias constantes sobre a morte de civis pelo governo.
Na década passada, a empresa brasileira Condor, que produz armamentos não letais, foi denunciada pelas vendas ao Bahrein, país cujo governo vinha reprimindo manifestações.
À época, circularam imagens de artefatos de gás lacrimogênio com o logo da companhia que estariam sendo usados para dissuadir os protestos. No mesmo período, o uso de armas brasileiras na guerra do Iêmen foi bastante criticado.
“O cenário de grandes guerras pelo mundo faz com que a pressão pela regulamentação e maior controle perca a força”, aponta Langeani. Ele aponta que nos mercados ilegais, já é observada uma grande circulação de armas brasileiras.
Um risco é ainda o chamado efeito bumerangue. Neste cenário, exportações para países vizinhos ao Brasil podem acabar retornando ao país através do crime organizado transfronteiriço. Segundo o especialista, material bélico brasileiro vem sendo apreendido em países da região nas mãos de criminosos.
A CBC conta com um código de conduta para terceiros visando o combate ao tráfico de armas. Segundo a empresa, é necessário “realizar operações de exportação ou importação somente mediante autorização dos órgãos competentes, como: Ministérios da Defesa e das Relações Exteriores, Diretoria de Produtos Controlados do Exército e o Departamento de Estado norte-americano”.
Além disso, não é permitido “realizar operações com países cujo momento civil esteja em conflito interno e possa gerar sofrimento para a população local ou que sejam usadas para fins não autorizados”, aponta. Procurada, a CBC não se manifestou.

























