Câmeras de segurança instaladas a poucos metros da biblioteca flagraram dois homens carregando as obras até um carro estacionado ali próximo. O material está com a polícia.

As oito obras de Matisse roubadas foram Le ClownLe CirqueMonsieur LoyalCauchemar de L’Eléphant BlancLe Codomas, La Nageuse Dans L’AquariumL’Avaleur de Sabres Le Cowboy.

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Montagem com gravuras

Já as gravuras de Portinari eram de uma série sobre o romance Menino de Engenho, de José Lins do Rego (1901-1957).

A exposição foi realizada em parceria pela biblioteca com o museu. Ficou em cartaz desde o início de outubro até ontem e celebrou a conexão histórica de ambas as instituições com o modernismo, tendo como fio condutor o papel do sociólogo, artista e escritor Sérgio Milliet (1898-1966), que dirigiu a Mário de Andrade e ajudou a fundar o MAM — foi diretor artístico do museu e organizou três bienais, na época em que estas eram realizadas pela entidade.

Gravuras em preto e branco

Interpol acionada

Em nota enviada à BBC News Brasil, a secretaria de Cultura ressaltou que “obras de acervos públicos” como as que foram subtraídas no domingo, por terem “valor cultural, histórico e artístico”, não podem ser mensuradas apenas quanto ao valor econômico.

“Para fins administrativos e de gestão de risco, as obras contam com avaliação técnica e cobertura por apólice de seguro, conforme critérios de mercado e de preservação patrimonial”, disse a pasta.

As gravuras de Matisse que foram roubadas

A principal preocupação das autoridades é que as obras sejam enviadas ao exterior, o que dificultaria a recuperação delas. Ainda no domingo, a prefeitura acionou a Interpol, por meio da Polícia Federal.

De acordo com informações repassadas pela prefeitura, a Interpol conta com um “banco de dados global” que auxilia na busca e na recuperação de obras de arte roubadas.

A prefeitura também notificou diversas instituições ligadas ao patrimônio artístico sobre o roubo de domingo.

A informação já consta no Cadastro Nacional de Bens Musealizados Desaparecidos, do Instituto Brasileiro de Museus, e no Banco de Bens Culturais Procurados, mantido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. A Associação de Galeria de Artes do Brasil também foi informada oficialmente do crime.

Com essas notificações, a tática é dificultar ao máximo que os bandidos consigam comercializar as peças.

As instituições e os artistas

Considerada a mais importante biblioteca pública de São Paulo, a Mário de Andrade foi fundada há 100 anos e é a mais antiga coleção pública de livros do município. Tem hoje o segundo maior acervo documental do país, somente atrás da Biblioteca Nacional, do Rio de Janeiro.

Entre livros, periódicos, mapas, fotos e outros documentos, são mais de 7 milhões de itens em suas coleções.

Já o Museu de Arte Moderna, cuja sede atual fica no Parque do Ibirapuera, é uma instituição fundada em 1948, sob inspiração do homônimo nova-iorquino, o MoMA. Em seu acervo, de cerca de 5 mil obras, predominam criações de artistas brasileiros do século 20.

O francês Henri Matisse é considerado, ao lado de Pablo Picasso (1881-1973) e de Marcel Duchamp (1887-1968), como um dos três nomes seminais da arte do século 20. Ao longo de sua carreira ele trafegou entre o fauvismo à defesa da tradição clássica na pintura.

Portinari é considerado um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos. Costuma ser lembrado globalmente pelos painéis Guerra e Paz, realizados especialmente para adornar a sede da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York.

Não à toa, o artista é o nome brasileiros das artes plásticas que alcançou maior projeção internacional.

Foto da Biblioteca Mario de Andrade

Caso anterior

Em 2006, 12 gravuras do século 19 foram furtadas da Biblioteca Mario de Andrade. Raras, as obras de 1834 e 1835 tinham como destino o mercado clandestino de colecionadores de arte.

São ilustrações pintadas à mão pelo artista suíço Johann Jacob Setinmann (1800-1844), mostrando paisagens brasileiras. As pinturas integram a obra Souvenirs de Rio de Janeiro, uma publicação do alemão Karl Hermann Konrad Burmeister (1807-1892).

Elas foram recuperadas em 2024 pela Polícia Federal. Conforme divulgado na época, o material estava com um colecionador brasileiro que havia adquirido as peças de forma legal em um casa de leilões de Londres.

Ex-secretário nacional de Segurança Pública, o coronel reformado da Polícia Militar (PM) de São Paulo e consultor de segurança José Vicente da Silva Filho diz à reportagem que tanto o caso da Mário de Andrade quanto o recente furto a obras do Museu do Louvre, em Paris, demonstram como essas instituições não investem em equipamentos básicos de segurança.

“Há pelo menos 20 anos existem sensores que alertam para qualquer entrada indevida, com barulho ou mesmo com nuvens de fumaça que não prejudicam nenhum bem mas atrapalham [a visibilidade de] o assaltante”, diz ele. “É curioso como essas instalações não adotam procedimentos comezinhos de segurança, que são muito baratos e muito eficientes”.

O consultor de segurança Eytan Magal, especialista em riscos e soluções, explica que todo crime parte de um “clássico triângulo”, ou seja, precisa da motivação, do atrativo e da vulnerabilidade.

Em casos como o ocorrido na biblioteca, o ponto que precisa ser reforçado é justamente este último. “É nítida a falta de controle no acesso. Assim como no Louvre, houve acesso rápido, os bandidos entraram e saíram rapidamente, em plena luz do dia”, comenta.

Para ele, esse tipo de ação, ou seja, roubo de obras de arte, geralmente ocorre sob encomenda de interessados.

Presidente do Conselho Empresarial de Segurança da Associação Comercial do Rio de Janeiro, o consultor Vinícius Cavalcante avalia como deficitária a segurança em instituições culturais do Brasil, em geral. “Colocam câmeras em monitoramento panorâmico e vigilantes, normalmente desarmados, mas o planejamento praticamente inexiste”, critica.

“Na maioria dos locais, não há qualquer tipo de ensaio para nortear como a segurança se comportará em caso de ocorrências reais de sinistro e a ação das forças de segurança pública em socorro nunca são ensaiadas”, diz Cavalcante.

O especialista afirma que “não há receitas de bolo” para evitar casos assim, mas que cada caso precisa ser avaliado conforme “fatores estruturais e conjunturais”, para que a segurança seja efetiva em exposições e eventos culturais.