Por David Allen
A célebre frase do ex-governador Leonel Brizola — “a política ama a traição, mas abomina o traidor” — volta a ecoar com força no cenário político brasileiro, especialmente diante das especulações sobre os rumos do Partido Liberal (PL) em Mato Grosso.

Nos bastidores, comenta-se que o presidente nacional da sigla, Valdemar da Costa Neto, estaria inclinado a apoiar um nome de fora da estrutura partidária local, o que poderia significar o preterimento do senador Wellington Fagundes, figura histórica e consolidada do PL no estado.
Embora a decisão oficial ainda não tenha sido anunciada, o simples rumor já provocou desconforto entre prefeitos e lideranças regionais do partido, reacendendo o debate sobre a concentração de poder nas mãos de dirigentes nacionais — os chamados “donos” de partidos.

Os caciques que mandam sem votos
O caso do PL, mesmo que ainda em hipótese, é sintomático de um problema maior. Hoje, parte expressiva dos grandes partidos brasileiros é comandada por dirigentes que não possuem mandato, mas exercem poder absoluto sobre parlamentares e filiados.
Entre eles, destacam-se:
• Valdemar da Costa Neto (PL),
• Gilberto Kassab (PSD),
• Luciano Bivar e Antônio Rueda (União Brasil),
• Carlos Lupi (PDT).
São nomes que controlam o destino de suas legendas, definem alianças e decidem quem pode — ou não — disputar eleições. Tudo isso tendo sob seu domínio os bilionários fundos partidário e eleitoral, verdadeiras fontes de poder e influência política.

O Brasil dos “donos de partidos”
O fenômeno é, em si, uma aberração democrática. A política, que deveria se basear em representatividade e debate interno, transformou-se em um sistema centralizado e patrimonialista, onde o comando partidário vale mais do que o voto popular.
Candidatos com trabalho prestado e respaldo eleitoral acabam à mercê de quem controla o CNPJ partidário. E as decisões que afetam diretamente os estados são tomadas em gabinetes de Brasília, muitas vezes distantes da realidade local.
Traições antigas, lógicas novas
Brizola conhecia bem o peso das traições na política. Desde o Império, a história brasileira foi escrita em meio a rupturas e golpes silenciosos — de Vargas a Juscelino, de Tancredo a Lula, todos enfrentaram conspirações e deserções.
Mas há uma diferença crucial: antes, as traições eram ideológicas; hoje, são administrativas e orçamentárias.
Não se trai mais um projeto político, mas quem ameaça o controle do fundo eleitoral.

Quando a democracia é sequestrada pelo controle
O poder absoluto de dirigentes partidários sem mandato é a antítese do espírito democrático.
Eles controlam candidaturas, alianças e recursos, muitas vezes ignorando a vontade das bases que realmente dão sustentação ao partido.
Prefeitos e parlamentares eleitos passam a ser reféns da cúpula nacional, obrigados a seguir decisões que nem sempre refletem o interesse de seus eleitores.
A frase que segue atual
A advertência de Brizola soa quase profética:
“A política ama a traição, mas abomina o traidor.”
Num sistema onde a lealdade se tornou descartável e o voto vale menos que a assinatura do presidente do partido, a política brasileira parece ter institucionalizado a lógica da traição — não mais entre adversários, mas dentro das próprias trincheiras.
Enquanto não se rediscute o poder quase monárquico dos caciques partidários, a democracia seguirá sendo uma palavra bonita — mas sequestrada por quem dela se serve, e não por quem a serve.




















