Por David Allen
No Brasil recente, a história política tem nos brindado com ironias que beiram a sátira. De um lado, o chamado “golpe parlamentar” contra a ex-presidente Dilma Rousseff, costurado pelo seu vice Michel Temer, e que terminou com sucesso absoluto para os articuladores. Do outro, a tentativa de Jair Bolsonaro de virar a mesa em 8 de janeiro de 2023 — uma trama malfeita, que ruiu de forma grotesca e deixou rastros de fracasso.

A diferença? Um golpe “de salão” e outro “de boteco”.

O golpe que deu certo
Michel Temer, com sua fleuma de professor de Direito Constitucional, soube jogar o jogo. Foi discreto, paciente e calculista. Enquanto Dilma patinava no Congresso e perdia apoio popular, seu vice costurava alianças, unia o chamado “centrão” e ganhou a cumplicidade de um Congresso disposto a depor a presidente em nome da governabilidade — ou de seus próprios interesses.

O processo de impeachment de Dilma, vendido como “remédio constitucional”, teve o verniz da legalidade. Mas a essência era política: não houve crime de responsabilidade robusto, apenas a disputa pelo poder.

Para dar ainda mais ar de legalidade ao processo, Temer tinha ao seu lado figuras estratégicas. Uma delas: Alexandre de Moraes, seu ministro da Justiça, que ajudava a blindar o governo e a dar sustentação jurídica à transição de poder. Anos depois, o mesmo Moraes seria indicado por Temer para o Supremo Tribunal Federal (STF).
Resultado: o golpe foi limpo, com ata registrada, carimbo no Diário Oficial e toga dando aval. Ninguém foi punido, e o Brasil seguiu em frente como se nada tivesse acontecido.

O golpe que não deu certo
Bolsonaro, ao contrário, preferiu o improviso. Em vez de articulação de bastidores, optou pelo grito nas ruas. Apostou em caminhoneiros, em mensagens no WhatsApp, em teorias da conspiração e, por fim, em uma turba enfurecida que depredou as sedes dos Três Poderes.
Enquanto Temer operava com bisturi, Bolsonaro usou marreta.
O resultado foi previsível: a tentativa de golpe fracassou de forma tão caricata que, além de não se sustentar, deixou provas por todos os lados. Quem antes queria “salvar o Brasil do comunismo” agora enfrenta a Justiça, responde a inquéritos e pode acabar inelegível ou até preso.

A ironia do destino
O detalhe mais sarcástico dessa história é que quem julga Bolsonaro por tentativa de golpe é justamente Alexandre de Moraes — aquele mesmo que, como ministro de Temer, ajudou a dar legitimidade ao impeachment de Dilma.
Ou seja: o homem que participou do “golpe que deu certo” agora se apresenta como guardião da democracia diante do “golpe que fracassou”.
E não para por aí: em 2016, quem atacava o STF com unhas e dentes era o PT, ressentido com a Corte que avalizou o impeachment. Hoje, é a direita bolsonarista que demoniza o Supremo, enquanto a esquerda o defende como pilar da democracia. O roteiro inverteu, mas o palco é o mesmo.

Dois pesos, duas medidas?
A comparação inevitável escancara uma máxima da política brasileira:
•Golpe bem-sucedido: chama-se de “processo constitucional”. Todos se recompõem, ninguém vai preso e a vida segue.
•Golpe fracassado: chama-se de “atentado à democracia”. E aí, sim, a punição vem com todo o peso da lei.
Dois “meliante” sairão para roubar dois carros. Cada um para um lado da cidade. Um teve êxito. O outro tentou mas não conseguiu. Dias depois o que “tentou” e não conseguiu foi preso. Já o outro que conseguiu ficou livre, leve e “solto”,
Como diz a sabedoria popular, “feio não é roubar — feio é roubar e não dar conta de levar”. Temer levou. Bolsonaro tropeçou antes da porta de saída.
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