Terras raras

Em tempos de transição energética. Terras raras.

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Por Rodrigo Rodrigues

Em tempos de transição energética, corrida tecnológica e disputas geopolíticas, um grupo de 17 elementos químicos se tornou protagonista silencioso no cenário global: as chamadas terras raras. Essenciais na produção de baterias, turbinas eólicas, celulares, chips, veículos elétricos, mísseis e satélites, esses elementos tornaram-se objeto de disputa entre potências. E o Brasil, dono da segunda maior reserva do mundo, começa a despertar para o papel estratégico que pode exercer nesse xadrez.

Segundo dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas de reservas estimadas de terras raras, atrás apenas da China. No entanto, enquanto o gigante asiático domina cerca de 70% da produção mundial e refino, o Brasil ainda engatinha na exploração comercial desses recursos.

O contraste: potência no subsolo, inércia na superfície

Apesar do vasto potencial geológico, o país enfrenta gargalos na extração e principalmente no beneficiamento das terras raras. Faltam políticas públicas específicas, incentivos à pesquisa, infraestrutura tecnológica e um marco regulatório claro que estimule investimentos.

“O Brasil tem reservas ricas, especialmente em estados como Minas Gerais, Goiás, Amazonas e Pará, mas ainda depende de parcerias com países que detêm o know-how tecnológico”, explica o geólogo Claudio Salles, especialista em recursos minerais estratégicos.

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Atualmente, poucas empresas operam de forma efetiva na área, como a Serra Verde, em Minas Gerais, e a mineradora Vale, que iniciou pesquisas exploratórias. Boa parte do material extraído é exportado em estado bruto, o que impede a criação de uma cadeia produtiva de alto valor agregado no país.

A dependência norte-americana e o jogo geopolítico

Enquanto isso, os Estados Unidos enfrentam um dilema estratégico: são altamente dependentes da China para o fornecimento e refino das terras raras — um calcanhar de Aquiles em tempos de disputa por liderança tecnológica. Segundo o USGS, mais de 70% das importações americanas vêm da China, o que levou o governo norte-americano a considerar o fornecimento de terras raras como questão de segurança nacional.

Nos últimos anos, Washington buscou diversificar suas fontes e fortalecer alianças estratégicas com países como Austrália, Canadá e, mais recentemente, o Brasil. O país sul-americano aparece como peça-chave para uma cadeia de fornecimento mais segura e politicamente neutra.

Em 2023, um memorando de entendimento foi assinado entre o governo brasileiro e o Departamento de Energia dos EUA, prevendo cooperação técnica, intercâmbio de dados e até financiamentos para projetos de extração sustentável em território brasileiro.

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O momento é agora

Especialistas apontam que o Brasil tem a chance histórica de se posicionar como um player relevante, desde que encare as terras raras como questão de Estado — assim como faz com o pré-sal e o agronegócio. Com investimentos em pesquisa, inovação e formação de mão de obra, o país pode não apenas exportar matéria-prima, mas também desenvolver tecnologias e produtos de alto valor, agregando riqueza e soberania.

Além disso, diante da crescente demanda global por veículos elétricos, painéis solares e dispositivos tecnológicos, o mercado mundial de terras raras pode triplicar até 2040, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). O Brasil, se preparado, pode colher os frutos.

Promessa de potência

A corrida por terras raras já começou. E o Brasil, que hoje é visto como um celeiro agrícola, tem potencial para se tornar também um fornecedor estratégico de insumos tecnológicos do século XXI. A janela de oportunidade está aberta — e fechará rapidamente. A diferença entre protagonismo e irrelevância será a capacidade de agir com visão, planejamento e soberania.

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