Tarcisio uma farsa?

Tarcísio de Freitas: da promessa de gestor técnico ao centro de escândalos e crise de credibilidade

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Por David Allen

São Paulo – Tarcísio Gomes de Freitas construiu sua imagem como um gestor técnico, preparado e supostamente acima das disputas políticas. Hoje, porém, sua trajetória se vê marcada por suspeitas de corrupção, promessas não cumpridas e uma gestão estadual sob pressão, com crises na saúde, na educação e denúncias envolvendo o PCC e o mercado financeiro da Faria Lima.

Mais recentemente, Tarcísio gerou controvérsia ao defender a anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que responde a investigações sobre os ataques de 8 de janeiro. A fala, que o aproxima ainda mais do bolsonarismo radical, trouxe desconfiança, inclusive entre setores que antes o viam como alternativa moderada.

“Tarcísio tenta se apresentar como racional, mas está se consolidando como uma versão mais sofisticada e perigosa do bolsonarismo”, analisa a cientista política Helena Abreu, professora da USP.
“Sua defesa da anistia a Bolsonaro reforça a percepção de que ele está disposto a proteger elites políticas e econômicas, mesmo que isso agrave a crise institucional do país.”

Infância em Brasília e carreira militar

Criado em Brasília, Tarcísio seguiu carreira militar, formando-se no prestigiado Instituto Militar de Engenharia (IME), no Rio de Janeiro. Ainda jovem, conquistou espaço em projetos de logística e obras públicas, construindo a imagem de técnico disciplinado e eficiente.

Após deixar o Exército, assumiu cargo como consultor legislativo no Senado Federal, onde se especializou em temas ligados à infraestrutura e logística. Essa experiência lhe permitiu transitar pelos bastidores do poder em Brasília, aproximando-se de políticos de diferentes partidos, incluindo figuras do PT, do MDB e, posteriormente, do grupo de Jair Bolsonaro

DNIT e o caso Cavalca: a primeira grande crise

O primeiro grande cargo de projeção veio durante o governo Dilma Rousseff, quando Tarcísio foi nomeado diretor-geral do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes).

Sua gestão, porém, foi marcada por polêmicas. Em 2014, ele acabou exonerado sob suspeita de irregularidades envolvendo a empresa Cavalca, empreiteira que mantinha contratos milionários para obras rodoviárias.

Documentos do Tribunal de Contas da União (TCU) apontaram falhas graves na fiscalização, com indícios de prejuízos de dezenas de milhões aos cofres públicos. Embora não tenha sido formalmente acusado, Tarcísio deixou o cargo de forma abrupta e sem explicações claras.

“A exoneração dele aconteceu de repente, o que nos pegou de surpresa. O clima na época era de pressão intensa, com denúncias de superfaturamento e contratos suspeitos”, afirma João Ribeiro, engenheiro que trabalhou no DNIT durante a gestão de Tarcísio.

O caso, abafado à época, hoje volta ao centro do debate diante das novas acusações que rondam sua administração em São Paulo.

Ministro da Infraestrutura: discurso x realidade

Com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, Tarcísio foi alçado ao comando do Ministério da Infraestrutura, um dos cargos mais estratégicos do governo federal.

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Durante quatro anos, construiu forte presença nas redes sociais, apresentando-se como um gestor moderno e dinâmico. Em seus vídeos, destacava supostas entregas de obras e concessões históricas.

Mas, na prática, nenhum grande projeto estruturante foi executado ou sequer planejado, como:
• Novas ferrovias de integração nacional,
• Duplicações estratégicas em rodovias federais,
• Hidrelétricas de grande porte.

Segundo levantamento do atual governo federal, em apenas dois anos, o ministro sucessor de Tarcísio já entregou três vezes mais obras do que ele em todo o mandato anterior.

“A gestão de Tarcísio foi muito mais marketing do que resultado. Ele focava em concessões, mas não deixou legado em infraestrutura física”, critica Paulo Saldanha, economista especialista em logística.
“O Brasil precisa de ferrovias, portos modernos e rodovias duplicadas. Isso não aconteceu no período em que ele esteve à frente do ministério.”

Privatizações sob suspeita

Outro ponto controverso foram as privatizações conduzidas por Tarcísio, principalmente nos setores de rodovias, portos e aeroportos. Embora ele tenha defendido esses processos como essenciais para modernizar a infraestrutura, especialistas e órgãos de controle apontaram valores de venda muito abaixo do mercado.

Há suspeitas de que um grupo restrito de empresas tenha sido favorecido, concentrando ativos estratégicos a preços irrisórios.
Em alguns casos, o retorno financeiro foi tão baixo que auditores do TCU recomendaram revisões nos contratos.

“Foi uma entrega do patrimônio público sem a devida contrapartida para a sociedade”, afirma Marcos Pinheiro, advogado especialista em direito administrativo.
“As privatizações feitas por Tarcísio foram questionadas não só pelo baixo valor arrecadado, mas também pela falta de transparência e concorrência real.”

Governador de São Paulo: queda nos serviços e escândalos

Eleito em 2022 com apoio direto de Jair Bolsonaro, Tarcísio prometeu transformar São Paulo em um modelo de eficiência. Dois anos depois, a realidade aponta na direção oposta.

Relatórios da Fundação Seade e do Conselho Nacional de Saúde mostram queda na qualidade da educação e da saúde:
• Hospitais estaduais sofrem com superlotação e falta de insumos,
• Professores relatam cortes orçamentários e precarização das condições de trabalho,
• Índices de aprendizagem no ensino médio caíram pela primeira vez em uma década.

O que vemos é um estado rico, mas que trata a população mais pobre como descartável”, desabafa Maria do Carmo Ferreira, professora da rede estadual há 18 anos.
“Enquanto isso, vemos milhões sendo destinados a obras de interesse de grupos empresariais próximos ao governo.”

PCC e Faria Lima: a sombra do crime organizado

O maior escândalo envolvendo a atual gestão diz respeito a investigações sobre a infiltração do PCC no mercado financeiro paulista, especialmente na região da Faria Lima.

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Segundo relatórios da Polícia Federal, empresas de fachada e fintechs ligadas ao crime organizado teriam movimentado milhões por meio de operações aparentemente legais. Alguns dos investigados possuem vínculos com pessoas próximas ao núcleo político do governo estadual.

Embora Tarcísio negue qualquer relação, a oposição exige explicações.

“Estamos falando de uma das maiores organizações criminosas do mundo lavando dinheiro no coração financeiro do país, com gente ligada ao governador citada em investigações”, afirma o deputado estadual Rogério Lima (PSOL).
“É um escândalo que precisa ser investigado até o fim.”

Defesa da anistia a Bolsonaro: um “Bolsonaro piorado”

Em meio a esse cenário, Tarcísio se posicionou a favor da anistia de Jair Bolsonaro, investigado por tentativa de golpe de Estado e pelos ataques às instituições em 8 de janeiro.

A declaração gerou críticas intensas de diversos setores, inclusive de aliados.

“Essa defesa cega da anistia não é apenas uma questão jurídica, mas política. É a mensagem de que ele está disposto a proteger os mais poderosos, mesmo que isso destrua a credibilidade do sistema democrático”, analisa a cientista política Helena Abreu.

Para críticos, a postura de Tarcísio confirma sua transformação em um “Bolsonaro piorado”: mais articulado, mas igualmente comprometido em proteger interesses específicos, mesmo em detrimento da população.

Desigualdade social em alta

Dados do IBGE e da Fundação Getúlio Vargas revelam que, nos dois primeiros anos de sua gestão, a desigualdade social em São Paulo aumentou:
• A renda dos 10% mais pobres caiu 6%,
• A dos 10% mais ricos cresceu 8%,
• O número de pessoas em situação de pobreza extrema subiu 4,3%.

“O governo Tarcísio tem beneficiado setores empresariais e grupos privilegiados, enquanto a maioria da população enfrenta queda na renda e perda de serviços públicos essenciais”, aponta o economista Rafael Guimarães, da FGV.

De promessa técnica a político tradicional

Tarcísio de Freitas iniciou sua trajetória como técnico, prometendo eficiência e neutralidade política. Hoje, porém, é visto por muitos como um político tradicional, envolto em escândalos, alinhado a interesses da elite econômica e cada vez mais distante das necessidades da população.

Sua defesa intransigente de Bolsonaro e de grupos privilegiados consolida sua imagem como um gestor que falhou em modernizar o estado e aprofundou desigualdades.

O futuro político de Tarcísio dependerá de como ele enfrentará as investigações em curso e responderá às crises que se acumulam em São Paulo — crises que, segundo seus críticos, foram agravadas por escolhas políticas que colocaram os interesses de poucos acima do bem comum

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