Por Rodrigo Rodrigues
Há quem diga que a história não tem culpados, apenas processos. Mas quando se observa o mapa das tragédias contemporâneas — guerras no Oriente Médio, tensões nucleares no sul da Ásia, disputas territoriais na África, desigualdades profundas e fronteiras absurdas — um ator comum emerge com força: o extinto (mas ainda muito influente) Império Britânico.
Durante mais de dois séculos, o Reino Unido foi a maior potência do planeta. Dominou rotas comerciais, controlou oceanos e submeteu povos inteiros. Porém, ao invés de construir estabilidade, preferiu metodicamente implantar um método brutal de poder: dividir para dominar. Décadas após a bandeira britânica deixar de tremular, as cicatrizes desse imperialismo seguem abertas — inflamadas e sangrando.

Índia e Paquistão: a partilha que plantou uma bomba-relógio nuclear
A região do Raj britânico era diversa e complexa. Hindus, muçulmanos, sikhs e dezenas de minorias conviviam com tensões, sim — mas sob domínio britânico, essas diferenças foram incentivadas, institucionalizadas e aprofundadas.
Em 1947, ao abandonar o subcontinente às pressas, Londres traçou uma fronteira artificial — a Linha Radcliffe — dividindo Índia e Paquistão em poucas semanas. Resultado?
• 14 milhões de deslocados
• Mais de 1 milhão de mortos
• Um conflito que dura até hoje pela Caxemira
• Duas potências nucleares em constante estado de guerra

O colonialismo criou a ferida; a descolonização malfeita garantiu que ela nunca cicatrizasse.
China: a humilhação como arma geopolítica
Os britânicos impuseram o ópio a milhões de chineses, destruindo a economia e desestabilizando o império Qing. Após as Guerras do Ópio (1839–1842 e 1856–1860):
• O Reino Unido tomou Hong Kong
• Abriu portos à força
• Criou tribunais extraterritoriais

A narrativa de “século da humilhação”, que molda até hoje a política externa chinesa, começa diretamente com os ingleses. O ressentimento histórico da China com o Ocidente — e sua busca atual por hegemonia — é alimentado por essa memória.
Oriente Médio: fronteiras riscas-a-régua e guerras infinitas
Não há região mais marcada pelo dedo imperial britânico que o Oriente Médio. O traçado feito por Sykes-Picot (1916), dividindo territórios otomanos em esferas de influência britânica e francesa, ignorou:
• Etnias
• Línguas
• Tradições religiosas milenares
Criaram países que nunca foram países, apenas enclaves de controle colonial:
• Iraque reunindo curdos, xiitas e sunitas à força
• Jordânia inventada para premiar aliados tribais
• Palestina sendo promessa simultânea aos árabes e aos judeus
(Declaração Balfour, 1917)
O que vemos hoje — ISIS, guerras civis sírias, conflito israelo-palestino — deve muito a essa engenharia política insana feita em Londres.

África: a partilha que transformou vidas em quadrados no mapa
Na Conferência de Berlim (1884–1885), os ingleses lideraram e inspiraram a lógica de colonizar como quem reparte um bolo. Sem a presença de um único africano, definiram fronteiras que cortaram:
• Povos inteiros ao meio
• Reinos milenares em dúzias de colônias
• Comunidades inimigas dentro do mesmo território
Nigéria, Quênia, África do Sul, Sudão, Uganda — todas carregam conflitos interétnicos e desigualdades estruturais sem respaldo histórico ou cultural. E pior: Londres aplicou diferentes modelos de opressão, explorando trabalho escravo, recursos naturais e apoiando elites que melhor servissem seus interesses.
O ciclo não terminou
Após a independência, os britânicos não saíram: deixaram bases militares, garantiram contratos petrolíferos, sustentaram ditadores “amigos” e manipularam Economias inteiras para manter dependências.
Economia global: o berço da desigualdade contemporânea
O capitalismo industrial que enriqueceu Londres faliu regiões do mundo até hoje atrasadas. As engrenagens do poder britânico:
• Monopólios comerciais da Companhia das Índias Orientais
• Escravidão e tráfico no Atlântico
• Pilhagem de matérias-primas (algodão indiano, borracha africana, ouro, diamantes)
A Revolução Industrial britânica criou a riqueza da Europa ao mesmo tempo em que institucionalizava a pobreza no hemisfério sul.

Quando o império cai, as sombras ficam
Não se trata de negar que outros atores — EUA, URSS, potências regionais — agravaram conflitos no século XX e XXI. Mas é impossível ignorar que os britânicos estabeleceram as estruturas do caos:
• fronteiras artificiais
• ódios étnicos e religiosos exacerbados
• estados fracos e dependentes
• riquezas drenadas
• sociedades divididas
Como escreveu o historiador Kwasi Kwarteng:

“O império morreu, mas seus fantasmas governam o mundo.”
Talvez os britânicos não sejam os únicos culpados. Mas foram, com folga, os maiores arquitetos das tragédias que insistimos em reviver. E enquanto o mundo tentar compreender suas crises sem enfrentar esse passado, continuaremos prisioneiros do império que nunca termina.



























