Por Rodrigo Rodrigues
Em 2025, o Brasil convive com uma realidade estarrecedora: 64 facções criminosas ativas em todo o país, com presença nos 26 estados e no Distrito Federal. De acordo com relatórios de inteligência de segurança pública, 26% da população brasileira vive sob domínio direto ou indireto de facções — seja em presídios, periferias, áreas de fronteira ou em atividades econômicas clandestinas. O que antes parecia uma realidade restrita ao PCC em São Paulo ou ao Comando Vermelho no Rio de Janeiro, hoje se transformou em uma malha nacional de grupos organizados, conectados a redes internacionais de tráfico e à política local.

Mais do que um fenômeno criminal, esse avanço é um espelho da impunidade histórica das elites políticas e econômicas do país. Enquanto empresários e políticos envolvidos em corrupção bilionária seguem soltos ou com processos anulados por detalhes jurídicos, jovens pobres continuam a engrossar os exércitos do crime, alimentando a espiral de violência.

O império das facções
O Primeiro Comando da Capital (PCC) segue como a maior e mais estruturada facção da América do Sul. Sua expansão começou nos anos 1990 dentro das prisões paulistas e hoje alcança países vizinhos como Bolívia e Paraguai, controlando rotas de cocaína até portos no Brasil e Europa. Seu faturamento anual é estimado em R$ 2,5 bilhões, segundo a Polícia Federal.
O Comando Vermelho (CV), fundado nos presídios do Rio durante a ditadura, mantém presença forte nas favelas cariocas e em estados do Norte e Nordeste. A disputa com o PCC é sangrenta: entre 2016 e 2022, mais de 5 mil mortes foram registradas em confrontos diretos entre facções, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

No Norte, a Família do Norte (FDN) domina rotas fluviais no Amazonas e tem conexões com cartéis colombianos. No Ceará, o Guardiões do Estado (GDE) aterroriza Fortaleza com execuções públicas e chacinas de grande repercussão. No Maranhão, grupos como o Bonde dos 40 e a Okaida disputam bairros inteiros de São Luís. No Sul, facções como o PGC (Primeiro Grupo Catarinense) e o Bala na Cara, do Rio Grande do Sul, consolidaram controle em presídios e periferias.
No total, os órgãos de inteligência listam 64 facções, entre nacionais e regionais. Muitas se fragmentam e se reagrupam rapidamente, como se fossem startups do crime, adaptando-se a cada contexto local.

Áreas de atuação: do tráfico ao garimpo
O tráfico internacional de drogas continua sendo a principal fonte de lucro, com destaque para a cocaína exportada pela rota amazônica e pelos portos do Nordeste e Sudeste. Mas as facções diversificaram suas frentes:
• Armas – entrada por fronteiras secas do Paraguai e Bolívia; fuzis de alto calibre abastecem periferias do Rio, São Paulo e capitais do Nordeste.
• Extorsão e comércio clandestino – cobrança de taxas sobre mototaxistas, feirantes, donos de bares e até igrejas em comunidades dominadas.
• Economia paralela – fornecimento de internet clandestina, gás, transporte alternativo e segurança privada.
• Sistema prisional – cobrança de mensalidade de presos ligados a facções, custeio de advogados e redes de apoio às famílias.
• Mineração ilegal – PCC e CV já disputam garimpos clandestinos na Amazônia, controlando ouro e manganês, muitas vezes em associação com grupos estrangeiros.
• Política local – infiltração em prefeituras pequenas, compra de votos e financiamento clandestino de campanhas.

“Hoje não existe crime organizado sem algum tipo de diálogo com agentes públicos”, afirma um delegado da Polícia Federal ouvido pela reportagem. “Seja na fronteira, no porto ou na Câmara de Vereadores, sempre há uma interface de corrupção que permite a sobrevivência das facções.

Um país sob jugo
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública estima que 55 milhões de brasileiros vivem em áreas sob influência direta de facções. Isso significa que, em bairros inteiros de capitais como Rio, Fortaleza, São Luís, Belém, Porto Alegre e Manaus, a lei do Estado foi substituída pelo “código do crime”.
Nas periferias, o crime impõe toque de recolher, julga disputas pessoais e até financia festas religiosas e cestas básicas para conquistar apoio social. Em muitos lugares, moradores reconhecem que a facção dá mais “resposta rápida” do que a polícia.
“Quando a gente liga para a polícia, eles demoram ou nem vêm. Se tem problema na rua, quem resolve é o ‘movimento’”, diz uma moradora da zona norte do Rio, sob anonimato.

A impunidade como combustível
O crescimento das facções é indissociável da impunidade dos mais ricos. Nas últimas décadas, sucessivos escândalos de corrupção bilionária — de bancos quebrados a empreiteiras e esquemas de compra de votos no Congresso — mostraram que políticos e empresários raramente cumprem penas.
Enquanto isso, o sistema carcerário se tornou a incubadora perfeita para o crime organizado: superlotado, sem controle do Estado e dominado por lideranças de facções. O resultado é que as cadeias brasileiras, em vez de reabilitar, servem como centros de negócios do crime.
“A mensagem é clara: quem tem dinheiro, não vai preso. Quem é pobre, paga com a vida ou com a liberdade. As facções são o espelho dessa injustiça estrutural”, analisa o sociólogo Luiz Eduardo Soares, especialista em segurança pública

A sombra sobre o futuro
O Brasil convive hoje com uma situação paradoxal: um dos maiores sistemas de justiça do mundo em tamanho, mas um dos mais frágeis em eficácia. A corrupção sistêmica e o colapso penitenciário alimentam diretamente o crescimento das facções.
Enquanto não houver reforma profunda no judiciário, políticas sociais consistentes e combate real à lavagem de dinheiro das elites, a tendência é que o mapa do crime continue se expandindo.
A cada facção criada, o Brasil se divide em territórios paralelos. Em vez de uma nação soberana, o país parece caminhar para se tornar um arquipélago de poderes fragmentados, em que milhões de cidadãos vivem sob as leis do crime — leis nascidas justamente do vazio deixado por um Estado ausente e seletivo.

Dossiê: As 64 facções criminosas do Brasil (2025)
Nacionais / Interestaduais
1. PCC (Primeiro Comando da Capital) – SP, MS, PR, MT, Bolívia e Paraguai – maior do país; tráfico internacional de drogas, armas, assaltos a bancos; >30 mil membros.
2. CV (Comando Vermelho) – RJ, Norte e Nordeste – controle de favelas, tráfico internacional; >25 mil membros

Região norte
3. Família do Norte (FDN) – AM – tráfico na rota Solimões/Colômbia.
4. Cartel do Norte – AM/PA – dissidência da FDN.
5. Sindicato do Crime do RN – AM/RN (ramificação).
6. Comando Classe A – PA – controle em Belém.
7. Comando Revolucionário do Pará – PA – prisões regionais.
8. CV do Acre – AC – braço do CV.
9. Bonde dos 13 – AC – rival do CV local.
10. Comando da Amazônia – RR – atua em Boa Vista e fronteiras.
11. União do Norte – AP – presença em Macapá.

Região nordeste
12. Guardiões do Estado (GDE) – CE – chacinas, domínio em Fortaleza.
13. Comando Vermelho do Ceará (CV-CE) – CE – braço aliado ao CV.
14. Primeiro Comando de Fortaleza (PCF) – CE – dissidência.
15. Primeiro Comando do Maranhão (PCM) – MA – tráfico e presídios.
16. Bonde dos 40 – MA – facção armada em São Luís.
17. Okaida – MA – rival do Bonde dos 40; inspiração jihadista.
18. Comando Organizado do Maranhão (COM) – MA – dissidência.
19. Primeiro Grupo da Bahia (PGB) – BA – tráfico em Salvador.
20. Katiara – BA – tráfico no interior.
21. Comando da Paz (CP) – BA – facção rival ao PCC.
22. Bonde do Maluco (BDM) – BA – maior facção baiana.
23. Sindicato do RN (SDC) – RN – rival do PCC.
24. Crime do RN (CDRN) – RN – braço dissidente.
25. Estados Unidos (facção) – RN – originada nos presídios.
26. Irmãos da Morte – RN – células em Mossoró.
27. Primeiro Comando da Paraíba (PCPB) – PB – tráfico e roubos.
28. Facção Estados Unidos da Paraíba – PB – dissidência.
29. Facção Anjos da Morte – PB/PE – execuções seletivas.
30. Tropa do Lampião – PE/AL – origem sertaneja.
31. Primeiro Comando de Pernambuco (PCPE) – PE – tráfico em Recife.
32. Comando da Ilha – PE – células em Fernando de Noronha.
33. Primeiro Comando de Alagoas (PCA) – AL – tráfico local.
34. Primeiro Grupo de Sergipe (PGS) – SE – atua em Aracaju.

Centro-Oeste
35. Comando Vermelho do Mato Grosso (CV-MT) – MT – braço do CV.
36. Primeiro Comando do Mato Grosso (PCM) – MT – ligado ao PCC.
37. Comando do Pantanal – MS – rota de drogas/armas.
38. Primeiro Comando do Planalto (PCP) – GO – influência prisional.
39. Família União do Cerrado – GO/DF – células em presídios.
40. Primeiro Comando do Centro-Oeste – DF – prisões da Papuda.

Sudeste
41. Amigos dos Amigos (ADA) – RJ – rival do CV, perdeu força.
42. Terceiro Comando Puro (TCP) – RJ – rivalidade com CV.
43. Milícia da Zona Oeste – RJ – grupos paramilitares controlando gás, transporte e internet.
44. Milícia de São Gonçalo – RJ – facção mista com tráfico.
45. Milícia de Duque de Caxias – RJ – braços com vereadores locais.
46. Liga da Justiça – RJ – origem em policiais militares.
47. Comando Mineiro da Máfia (CMM) – MG – tráfico em Belo Horizonte.
48. Primeiro Comando de Minas (PCM) – MG – ligado ao PCC.
49. Primeiro Comando do Espírito Santo (PCES) – ES – prisões de Vitória.
50. Primeiro Comando Jovem – ES – células juvenis.

Sul
51. Primeiro Grupo Catarinense (PGC) – SC – tráfico e ataques organizados.
52. Comando da Capital Catarinense (CCC) – SC – dissidência.
53. Bala na Cara – RS – atua em Porto Alegre, tráfico e execuções.
54. Os Manos – RS – histórico em roubos a bancos.
55. Anti-Bala – RS – rival do Bala na Cara.
56. Facção dos Abençoados – RS – célula religiosa usada como fachada.
57. Facção Serpentes Negras – RS – braço prisional.
58. Comando da Serra Gaúcha – RS – tráfico em Caxias do Sul.
59. Comando do Paraná (CPR) – PR – braço do PCC.
60. Primeiro Comando do Sul (PCS) – PR – prisões de Curitiba.
61. Facção União dos Campos Gerais – PR – regional.
62. Família União de Londrina – PR – ligada ao PCC.
63. Facção Caveira – PR – origem prisional.
64. Máfia Paranaense – PR – tráfico em Foz do Iguaçu.
Observações
• Estimativas indicam mais de 100 mil integrantes ativos em todas as facções.
• O PCC e o CV concentram quase 60% desse total.
• Em estados do Norte e Nordeste, há sobreposição de 3 a 5 facções atuando no mesmo território.
• As milícias do Rio de Janeiro, embora não se identifiquem como “facções” no sentido clássico, são hoje os grupos mais lucrativos, controlando até R$ 7 bilhões/ano em serviços clandestinos.


























