Por Rodrigo Rodrigues – Especial para Jornal Kapital
Em outubro de 2014, após uma das eleições presidenciais mais acirradas desde a redemocratização, o então senador Aécio Neves (PSDB-MG) recusou-se a reconhecer imediatamente o resultado das urnas. Derrotado por uma margem apertada por Dilma Rousseff (PT), Aécio iniciou uma série de questionamentos sobre a lisura do processo eleitoral. O gesto, aparentemente isolado, abriu as portas para uma narrativa que anos depois culminaria nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.
A desconfiança sistemática no sistema eleitoral brasileiro, a criminalização do adversário político e a instabilidade institucional que marcaram os anos seguintes tiveram seu ponto de partida ali. O comportamento do PSDB após a derrota em 2014 criou um ambiente de descrédito que fermentou o antipetismo radical, alimentou a polarização e abriu espaço para a ascensão da extrema-direita.
A derrota que não foi aceita
Naquela eleição, Aécio Neves obteve 48,36% dos votos válidos, contra 51,64% de Dilma Rousseff. A diferença apertada levou o tucano, mesmo com a tradição democrática do partido, a iniciar um discurso perigoso. No dia seguinte ao pleito, Aécio pediu auditoria nas urnas e disse que sua “luta estava apenas começando”.
Essa atitude foi bem recebida por setores conservadores e pela mídia tradicional, que havia demonstrado forte oposição ao governo do PT. A narrativa de que Dilma havia vencido “por pouco” alimentou manifestações de rua e foi o estopim para o movimento pelo impeachment da presidente.
O impeachment de Dilma: golpe institucionalizado
Com a base de apoio do governo fragilizada, a crise econômica agravada e o envolvimento do PT na Operação Lava Jato, o caminho para o impeachment se abriu. Eduardo Cunha (MDB-RJ), então presidente da Câmara e réu em processos de corrupção, aceitou o pedido de impedimento baseado em uma manobra fiscal — as chamadas “pedaladas fiscais” — prática comum entre governos anteriores.
O impeachment de 2016 foi conduzido com respaldo jurídico formal, mas foi, na essência, um movimento político. Economistas e juristas apontaram que as pedaladas não justificavam a remoção da presidente, e o então vice-presidente Michel Temer assumiu com um projeto de governo diferente daquele eleito nas urnas — o que para muitos configurou um golpe parlamentar disfarçado.
A semente do radicalismo
A narrativa do “PT corrupto” e do “governo ilegítimo” foi aprofundada por influenciadores, figuras políticas e parte da grande imprensa. As manifestações populares de 2015 e 2016, que pediam a queda de Dilma, transformaram-se em palanques para o surgimento de novas lideranças conservadoras, como Jair Bolsonaro.
Nesse vácuo, a direita tradicional — encabeçada pelo PSDB — perdeu protagonismo para uma nova extrema-direita que falava sem filtro, apelava para o ódio ideológico e atacava abertamente as instituições. A falta de autocrítica do PSDB em relação ao seu papel no impeachment alimentou essa nova força que, ironicamente, o deixaria à margem da política nacional nos anos seguintes.
O clímax golpista em 2022
Ao ser derrotado nas eleições de 2022 por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Jair Bolsonaro seguiu o mesmo roteiro iniciado por Aécio em 2014, mas de forma muito mais agressiva. Questionou o resultado, insinuou fraude, atacou as urnas eletrônicas e insuflou apoiadores a ocuparem quartéis e protestarem contra o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral.
O desfecho ocorreu em 8 de janeiro de 2023, com a tentativa de golpe que culminou na invasão e depredação das sedes dos Três Poderes em Brasília. Os golpistas — muitos exaltando Bolsonaro — agiram como se a eleição de Lula tivesse sido ilegítima. O argumento central era o mesmo de 2014: o inimigo venceu, mas não pode governar.
O legado do silêncio e da conivência
O PSDB, que em outras épocas foi pilar da democracia, teve um papel crucial na abertura desse ciclo de deslegitimação institucional. Ao questionar sem provas o resultado eleitoral de 2014 e ao se aliar, mesmo que indiretamente, ao movimento pelo impeachment, o partido acabou dando aval a práticas que depois seriam levadas ao extremo por seus próprios rivais ideológicos.
Aécio Neves, que não chegou à Presidência, foi protagonista de um processo que desestabilizou o país, minou a confiança na democracia e abriu caminho para o autoritarismo. Hoje, enquanto figuras do PSDB tentam resgatar um discurso de centro, o estrago já está feito: a extrema-direita se apropriou do antipetismo, do discurso anticorrupção e da contestação das urnas — e levou isso ao limite da ruptura institucional.
Conclusão:
O Brasil de 2022 não começou em Bolsonaro. Começou em 2014, com um candidato derrotado que se recusou a reconhecer a vontade popular. O preço da irresponsabilidade democrática foi alto — e o país ainda paga a conta.
– Linha do tempo
•Outubro/2014 – Aécio Neves é derrotado por Dilma Rousseff e questiona o resultado das eleições.
•2015 – Começam os protestos massivos contra o governo Dilma.
•Dezembro/2015 – Eduardo Cunha aceita o pedido de impeachment.
•Agosto/2016 – Dilma é oficialmente afastada. Michel Temer assume.
•2018 – Jair Bolsonaro é eleito presidente, derrotando o PT.
•2022 – Lula vence Bolsonaro.
•Janeiro/2023 – Tentativa de golpe com invasão aos Três Poderes.
Em 27 de outubro de 2014, um dia após o segundo turno, Aécio Neves concedeu entrevista coletiva afirmando:
“Não posso aceitar um resultado baseado em uma campanha tão sórdida, tão mentirosa.”:
– Aécio Neves, pós-derrota em 2014.
– Prof. Dr. Carlos Mendonça, cientista político da UFMG“: O Aécio abriu uma porta que nunca deveria ter sido aberta. O PSDB, ao flertar com a ideia de fraude sem provas, corroeu uma confiança que havia sido construída desde a redemocratização. Essa ruptura simbólica com o reconhecimento dos resultados foi uma concessão perigosa ao populismo autoritário que viria depois.”
“Não há crime de responsabilidade. Há, sim, um golpe em curso.”
– Dilma Rousseff, em discurso no Senado, antes de ser afastada.
– Maria Clara Borges, professora de Direito Constitucional da PUC-Rio: O impeachment de 2016 é o marco de uma nova lógica: a lógica da desestabilização permanente. Foi juridicamente frágil, politicamente tóxico e abriu precedentes para que governos eleitos passem a ser contestados sistematicamente sem base legal sólida.”
O antipetismo como combustível da extrema-direita
Durante o processo de impeachment e nos anos seguintes, a criminalização do PT e a personalização do ódio político foram intensificadas.
“Vamos varrer o PT do Brasil!”
– Frase repetida por manifestantes nas ruas e nas redes sociais entre 2015 e 2018.
– André Furtado, sociólogo da UFRJ: “O antipetismo se tornou um projeto político em si. Bolsonaro entendeu isso antes do PSDB e surfou nessa onda. Quando a política vira guerra, vence quem promete aniquilar o inimigo, não quem propõe diálogo.”
Bolsonaro repete — e radicaliza — o roteiro

Desde 2021, Jair Bolsonaro passou a semear dúvidas sobre o sistema eleitoral. Durante um evento com embaixadores, em julho de 2022, declarou:: As urnas não são confiáveis. Não podemos aceitar eleições com esse sistema que só o Brasil usa.”
Sem apresentar provas, atacou o TSE e o STF, preparando terreno para a contestação da eleição que perderia meses depois.
– Beatriz Campos, analista do Instituto de Estudos Democráticos: “Bolsonaro levou a deslegitimação eleitoral às últimas consequências. Aécio questionou, mas recuou. Bolsonaro foi além: incitou, mobilizou e assistiu calado à tentativa de golpe em 8 de janeiro.”
A resposta institucional e o peso do STF
Após os ataques aos Três Poderes, o STF foi firme:
“Não haverá anistia. A democracia venceu e vencerá novamente.”
– Min. Alexandre de Moraes, 9 de janeiro de 2023.
“Estamos lidando com criminosos, não manifestantes.”
– Min. Luís Roberto Barroso, presidente do STF, após visitar o Congresso depredado
E por fim, um dos mais respeitados analistas de época arrematou:
“O PSDB foi traído por suas próprias contradições. Plantou ventos e colheu tempestades.”
– Dr. Carlos Mendonça