Por Flavio Meireles
A queda (e depois a estagnação) da expectativa de vida nos Estados Unidos é um dos fatos mais marcantes da saúde pública recente no país. Antes da pandemia de Covid-19 já havia sinais preocupantes: a mortalidade entre adultos em idade produtiva vinha subindo desde meados dos anos 2000, contrariando a tendência histórica de ganhos contínuos observada em outras nações ricas. Pesquisadores como Anne Case e Angus Deaton popularizaram a expressão “mortes por desespero” para descrever um conjunto de óbitos por overdoses de drogas (especialmente opioides), álcool e suicídio que cresceu rapidamente, com impacto desproporcional entre homens, trabalhadores sem diploma universitário e regiões economicamente fragilizadas.
Entre 2014 e 2017, a expectativa de vida americana já dava sinais de piora ou estagnação, rompendo um século de avanços quase ininterruptos. O choque da Covid-19 a partir de 2020 aprofundou esse quadro: a expectativa de vida caiu de forma aguda (com o pior nível em décadas) e só começou a se recuperar parcialmente em 2022. Mesmo nesse movimento de recuperação, os EUA seguem atrás de pares da OCDE — e uma das razões é a persistência das mortes por desespero, que não apenas não diminuíram, como se agravaram durante e após a pandemia.

O que são “mortes por desespero”
O termo reúne três grandes categorias: overdoses de drogas (com destaque para opioides), doenças e causas relacionadas ao álcool (como cirrose e hepatopatias alcoólicas) e suicídio. O denominador comum não é apenas biomédico: são mortes associadas a condições sociais e psicológicas de perda — de emprego, de renda estável, de vínculos comunitários — e à falta de perspectivas, combinadas a fácil disponibilidade de substâncias altamente letais.
Nos Estados Unidos, essa combinação encontrou um terreno fértil em regiões de desindustrialização, em condados rurais com baixa densidade de serviços de saúde e em comunidades onde o capital social — redes de apoio, igrejas, clubes, associações — se enfraqueceu. A literatura mostra que homens, em média, apresentam maior propensão a comportamentos de risco, menor busca por ajuda, maior consumo pesado de álcool e maior letalidade em tentativas de suicídio (pela maior frequência de uso de armas de fogo), fatores que se acumulam na curva de mortalidade.

Três ondas da crise dos opioides
A epidemia de opioides tem sido descrita em três ondas. A primeira, no fim dos anos 1990 e 2000, veio com a explosão de prescrições de analgésicos potentes (oxicodona, hidrocodona), impulsionada por marketing agressivo, flexibilização na dor como “quinto sinal vital” e falhas regulatórias. A segunda onda, por volta de 2010, foi a transição para a heroína, à medida que controles sobre receita apertaram e usuários migraram para o mercado ilícito. A terceira, desde meados da década de 2010, é a dos sintéticos — principalmente o fentanil e seus análogos, dezenas de vezes mais potentes que a heroína, baratos, onipresentes e frequentemente misturados a outras drogas, elevando dramaticamente o risco de overdose.
Esse deslocamento para os sintéticos explica por que as mortes por overdose continuaram subindo mesmo quando a prescrição de opioides caiu. Os números atingiram patamares históricos por volta de 2021–2022, com mais de cem mil óbitos anuais por overdose no agregado, e a maioria envolvendo opioides sintéticos. Homens são a maioria das vítimas, e a letalidade cresce em ambientes onde o socorro é tardio e o uso é solitário.
Álcool: a epidemia silenciosa
Menos visível que as overdoses, a mortalidade relacionada ao álcool acelerou, sobretudo entre 2018 e 2022. O isolamento social, o estresse e as rupturas de rotina durante a pandemia aumentaram o consumo pesado e crônico. Doenças hepáticas avançam silenciosamente por anos e explodem em mortalidade quando descompensam. Aqui também há um recorte de gênero: homens bebem mais, iniciam antes o consumo pesado e têm maior prevalência de transtorno por uso de álcool.
Suicídio: um pico preocupante
As taxas de suicídio nos EUA vinham em alta desde meados dos anos 2000, tiveram uma breve estabilização e voltaram a subir. O risco é maior entre homens (que morrem por suicídio em taxas cerca de 3 a 4 vezes maiores que as mulheres), entre populações com acesso a armas de fogo e entre grupos enfrentando perdas econômicas e isolamento social. Para homens de meia-idade sem diploma universitário, a soma de dor crônica, depressão não tratada, álcool e armas de fogo é especialmente letal.

Quem mais sofre: educação, raça, território
Um dos achados mais robustos é o “gradiente educacional”: desde os anos 1990, a mortalidade despencou para pessoas com diploma universitário, mas aumentou para quem não o tem, abrindo uma lacuna de expectativa de vida de uma década ou mais em alguns recortes. As primeiras ondas de “mortes por desespero” afetaram desproporcionalmente brancos não hispânicos sem diploma, especialmente em áreas industriais em declínio. Nos últimos anos, porém, o fentanil e os sintéticos expandiram o impacto para além desse grupo: mortes por overdose entre homens negros cresceram acentuadamente, particularmente em grandes centros urbanos, onde há contaminação de múltiplas cadeias de drogas.
O mapa é desigual. Appalachia, partes do Meio-Oeste industrial (“Rust Belt”), o interior da Nova Inglaterra e áreas rurais do Oeste aparecem recorrentemente entre os piores indicadores. Condados com poucos médicos, escassez de tratamento para dependência e longas distâncias até serviços de emergência têm piores resultados. Em algumas comunidades indígenas, a combinação de pobreza persistente, trauma histórico e acesso precário a cuidados maximizou danos.
Homens em desvantagem
Por que os homens? Além dos padrões de consumo e risco, há dimensões estruturais. A perda de empregos industriais bem remunerados afetou mais os homens sem ensino superior. A reconfiguração do mercado de trabalho (automação, terceirização, “gig economy”) corroeu rendas e a previsibilidade que sustentava famílias e identidades masculinas tradicionais. A menor procura por cuidado em saúde mental, o estigma sobre tratamento, e o uso mais letal de meios no suicídio contribuíram para uma lacuna de mortalidade que se ampliou em vários grupos e regiões.
Covid-19: acelerador e multiplicador
A pandemia foi um choque direto (por mortalidade viral) e indireto (por exacerbar fatores de risco). Interrupções de serviços de saúde, sobrecarga de hospitais, isolamento social, desemprego e ansiedade alimentaram recaídas, uso solitário de drogas (mais fatal), atrasos em tratamento de hepatopatias e piora de quadros depressivos. Em 2022, quando a Covid-19 recuou, as “mortes por desespero” permaneceram elevadas, amortecendo a recuperação da expectativa de vida.
Por que os EUA ficaram para trás
Os Estados Unidos gastam mais em saúde per capita que qualquer outro país rico, mas obtêm piores resultados em mortalidade evitável por duas razões-chave: foco em cuidado hospitalar e tecnológico caro (e menos em atenção primária e saúde pública) e profunda desigualdade socioeconômica e territorial. O acesso a cuidados para transtorno por uso de substâncias é fragmentado; tratamentos baseados em evidências como buprenorfina e metadona ainda enfrentam barreiras regulatórias, estigma e “desertos” de provedores. Políticas de redução de danos (distribuição de naloxona, testagem de fentanil, programas de seringas) avançaram em alguns estados e recuaram em outros, produzindo um mosaico de resultados.
O papel da indústria e das políticas públicas
A responsabilização civil de fabricantes de opioides (como a Purdue Pharma) e de distribuidores expôs práticas de marketing e distribuição que alimentaram a primeira onda da crise. Programas de monitoramento de prescrições reduziram o uso médico inadequado, mas, sem rede de tratamento suficiente, muitos usuários migraram para o mercado ilícito, onde o fentanil domina. Hoje, a fronteira de política pública se desloca para: expansão de tratamento medicamentoso para dependência (MAT), integração com atenção primária e saúde mental, descriminalização do porte para uso pessoal em alguns locais, leis de “bom samaritano” (que protegem quem chama socorro num overdose) e ações de saúde pública voltadas a habitação, emprego e renda.
O que funciona — e onde
As evidências mais consistentes apontam para um pacote: (1) acesso rápido e sem barreiras a buprenorfina/metadona e acompanhamento psicossocial; (2) naloxona amplamente disponível e treinamento comunitário; (3) testagem de substâncias para fentanil/xilazina; (4) serviços de redução de danos, inclusive troca de seringas; (5) integração com cuidado de saúde mental e manejo de dor crônica; (6) abordagens econômicas — requalificação profissional, políticas ativas de emprego, apoio a famílias — que atacam determinantes sociais. Estados e condados que implementaram esse conjunto com consistência viram reduções mensuráveis em overdoses fatais e melhor engajamento em cuidado.
Obstáculos persistentes
O estigma permanece um freio. Dependência ainda é tratada como falha moral, e não como transtorno crônico tratável. A fragmentação do sistema — múltiplos pagadores, redes desconectadas, variação regulatória entre estados — produz “buracos” na jornada do paciente. Nas prisões e cadeias, onde a prevalência de transtorno por uso de opioides é alta, o acesso a tratamento medicamentoso é irregular; a transição para a comunidade, momento de alto risco de overdose, frequentemente carece de continuidade de cuidados. Em paralelo, o mercado ilícito é dinâmico: quando autoridades restringem uma molécula, novos análogos surgem rapidamente.
Além do clínico: laços sociais e sentido
Case e Deaton argumentam que as “mortes por desespero” refletem a erosão de um “modo de vida” — a perda de status, de comunidade e de sentido, sobretudo para homens sem diploma universitário. A resposta, portanto, não pode ser apenas clínica. Intervenções que fortalecem vínculos (clubes, igrejas, centros comunitários), investem em escolas e capacitação, ampliam oportunidades de trabalho decente e estabilizam moradia têm efeitos reais na saúde. O desenho urbano (transporte, espaços públicos), o acesso a lazer e a políticas de renda mínima também importam.
Uma questão de equidade e de futuro
A queda da expectativa de vida americana não é um “acidente estatístico”: é o somatório de escolhas de política, falhas de mercado e desigualdades históricas. Reverter a tendência exige visão de longo prazo, coordenação federativa e investimento sério em saúde pública, prevenção e coesão social. Colocar homens — e, especialmente, homens de meia-idade sem diploma — no centro de estratégias de prevenção passa por reduzir estigma, levar cuidado onde eles estão (locais de trabalho, clínicas móveis, teleatendimento), envolver pares (peer support) e remover barreiras burocráticas.
O que acompanhar daqui em diante
1. Trajetória das overdoses por sintéticos: se a difusão do fentanil estabiliza ou se novas combinações (como xilazina) ampliam danos.
2. Tratamento medicamentoso: expansão de buprenorfina e metadona na atenção primária e em ambientes de justiça criminal.
3. Álcool pós-pandemia: se o pico de mortalidade alcoólica recua com reabertura e campanhas, ou se consolida em patamar alto.
4. Gradiente educacional: a lacuna de mortalidade por escolaridade é um termômetro da coesão social.
5. Lacunas raciais e regionais: se políticas conseguem reduzir o aumento recente entre homens negros e em condados rurais.



















