Por Rodrigo Rodrigues
Pouca gente lembra. Pouca gente cita. Mas antes de JFK… e além de Lincoln… também houve, James Abram Garfield. O 20º presidente dos Estados Unidos, que foi assasinado. Um presidente brilhante, culto, considerado um dos maiores oradores políticos de sua geração, e que ficou apenas 199 dias no cargo.

E o assassino?
Um homem que a história apagou: Charles Julius Guiteau.
Um fracassado crônico que acreditou que o Estado americano devia a ele uma vaga diplomática. Um misto de egolatria, delírio religioso e total incapacidade de conviver com a realidade.
E esta história diz muito sobre política, ego, fanatismo… e sobre como tragédias podem nascer não de grandes conspiradores — mas da ilusão de pequenos medíocres.

James Garfield – o presidente de enorme potencial
Garfield nasceu pobre em Ohio, 1831. Filho de agricultores, autodidata voraz. Leu como Lincoln. Subiu como Lincoln.
Professor → advogado → general da União na Guerra Civil → congressista → ídolo republicano.
Era contra o racismo institucional, defendia direitos civis. Era contra a corrupção. Em 1880, quase sem querer, virou candidato num consenso de convenção do Partido Republicano, que vivia guerra interna entre correntes.
Foi eleito presidente. Tinha um plano claro:
reformar o sistema de cargos públicos que eram distribuídos como feudo político. O famoso “spoils system” — o presidente distribuía cargos para aliados, protegidos, bajuladores.

Isso mexia com interesses gigantes.
Charles Guiteau – o perdedor que achava que era escolhido por Deus
Guiteau era o oposto.
Fracassado em TUDO que tentou:
•fracassou como advogado
•fracassou como pregador
•fracassou como escritor
•fracassou em negócios
Era rejeitado inclusive pela própria família.
Era considerado excêntrico, perturbado, vaidoso, com comportamento delirante. Muitas análises atuais sugerem provável esquizofrenia paranoide.
Ele escreve um discurso de apoio à candidatura de Garfield — e ele ACHOU que isso lhe garantia um cargo diplomático de alto prestígio: em Paris.
E foi pedir. Insistente. Obsessivo. Invasivo.
Chegava na Casa Branca quase todos os dias tentando “ser nomeado”.
E Garfield ignorou.
O narcisismo ferido transformou-se em ódio.

O tiro na estação ferroviária
2 de julho de 1881. Estação de trem de Washington D.C.
Garfield, acompanhado do seu Secretário de Estado James Blaine, iria viajar.
Guiteau esperou, sacou um revólver Webley Bulldog e disparou duas vezes.
Garfield caiu. Mas NÃO morreu na hora.

Os médicos mataram Garfield
Essa parte é importante — pouca gente sabe.
No tiro… ele teria sobrevivido em 80% dos casos modernos.
O problema foi o tratamento.
Os médicos da época enfiavam o dedo dentro da ferida, instrumentos sujos, sem assepsia, sem esterilização. Era pré-Lister.
Ele ficou 79 dias agonizando.
Infecção generalizada.
Pus.
Febre alta.
Desnutrição.
Até que morreu em 19 de setembro de 1881.
O julgamento de Guiteau
Guiteau se defendia dizendo:
“Eu não matei Garfield. Foram os médicos que o mataram.”
Ironicamente — tecnicamente — havia verdade nisso.
Mas ele era o autor da causa inicial e foi condenado.
Ele se comportou como espetáculo. Cantava hinos religiosos no tribunal. Fazia discursos de “escolhido de Deus”.
Foi enforcado em 30 de junho de 1882.

O legado político do crime
A morte de Garfield impulsionou uma das maiores reformas administrativas da história americana:
Pendleton Civil Service Reform Act (1883)
Acabou com o sistema de cargos distribuídos por “favor político”.
O assassinato por um simples lunático foi o gatilho para profissionalizar o serviço público nos EUA.
Dois personagens esquecidos — mas que moldaram o futuro dos EUA
James Garfield poderia ter sido um dos grandes.
Tinha talento intelectual, visão moral e coragem política.
Charles Guiteau é o símbolo do narcisismo destrutivo, do ressentimento transformado em violência, do delírio legitimado como “missão”.
A história dos dois é mais relevante hoje do que nunca.
Porque mostra que:
os sistemas podem ruir não por genialidade conspiratória…
… mas por pequenos homens obsessivos
que acreditam que o mundo lhes deve algo.
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