Elite doente

A jabuticaba e a elite brasileira: a singularidade amarga de um país

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Por Rodrigo Rodrigues

A fruta única e o comportamento raro

No Brasil, a expressão “coisa de jabuticaba” virou sinônimo de algo que só existe aqui. A fruta, que cresce diretamente no tronco, é um orgulho nacional, lembrada em canções e crônicas. Mas há uma outra jabuticaba menos celebrada, e muito mais amarga: a forma como a elite brasileira encara seus pobres. Em nenhum outro país do mundo se observa tamanho distanciamento entre os de cima e os de baixo, como se não fossem compatriotas, mas estrangeiros dentro do mesmo território.

Herança da escravidão

A indiferença tem raízes profundas. Estruturado em torno do latifúndio escravocrata, o Brasil foi o último país do Ocidente a abolir a escravidão, em 1888. Fez isso sem qualquer política de integração social para os libertos. Ao contrário, incentivou a imigração europeia, reforçando a exclusão racial. Até hoje, a herança pesa: segundo o IBGE, 75% dos mais pobres do país são negros ou pardos.

Uma República para poucos

A proclamação da República, em 1889, não democratizou o poder. O voto era restrito, os analfabetos — a maioria da população — não participavam, e a elite agrária continuava a mandar. Essa exclusão se reflete até hoje: embora o Brasil seja a 9ª maior economia do mundo, está entre os 10 países mais desiguais do planeta, segundo o Banco Mundial.

Modernização sem povo

No século XX, o Brasil se industrializou, urbanizou e cresceu. Mas a inclusão social nunca acompanhou o ritmo. Hoje, 33 milhões de brasileiros vivem em situação de insegurança alimentar grave, de acordo com a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania Alimentar (2023). Quase metade da população (47%) não tem acesso a saneamento básico, segundo o SNIS (2022). A elite, isolada em condomínios e escolas privadas, convive com esse abismo como se fosse natural.

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O mito da cordialidade

Sérgio Buarque de Holanda falava do “homem cordial”, mas a cordialidade brasileira sempre foi superficial. Enquanto se celebra hospitalidade, mantêm-se desigualdades extremas. O 1% mais rico do Brasil concentra quase 30% de toda a renda nacional, segundo a Oxfam (2023). Para comparação: nos Estados Unidos, o 1% detém 18%; na França, apenas 11%.

O desprezo como projeto

A resistência da elite à inclusão é recorrente. Programas de distribuição de renda, como o Bolsa Família, reduziram a extrema pobreza em 20% na década de 2000, mas sempre foram alvo de críticas de setores que os viam como “assistencialismo”. Nos últimos anos, cortes orçamentários em políticas sociais ampliaram novamente a desigualdade. Em 2022, o Brasil voltou ao mapa da fome da ONU.

 

Comparações incômodas

Nos Estados Unidos, ainda que haja racismo estrutural, há investimento pesado em universidades públicas e fundações privadas que financiam ciência e cultura. Na Europa, a tributação sobre os mais ricos chega a 40% da renda. No Brasil, o sistema é regressivo: os pobres pagam proporcionalmente mais impostos que os ricos. Enquanto famílias de baixa renda destinam até 26% de sua renda ao pagamento de tributos, os mais ricos pagam em média 7%, segundo o IPEA.

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A metáfora da jabuticaba

A jabuticaba é doce, mas tem casca grossa e amarga. Assim é a elite brasileira: suga a polpa do país e descarta o resto. A fruta que brota no tronco simboliza uma nação em que a desigualdade está entranhada no corpo social. A elite vive como se pudesse existir sem o povo — uma jabuticaba que só existe aqui.

O futuro em disputa

O Brasil ainda tem uma das maiores concentrações de renda do mundo: 10% da população detém 59% da riqueza nacional, segundo relatório da Oxfam (2023). O desafio é romper essa estrutura secular. Há avanços tímidos: a expansão do ensino superior, com as universidades federais e programas de cotas, trouxe milhões de jovens pobres ao espaço acadêmico. Mas a reação da elite continua forte — seja na política, seja nos debates sobre impostos ou serviços públicos.

Se a jabuticaba é símbolo de brasilidade, talvez seja hora de reinterpretar sua metáfora. Não há fruto sem tronco, não há elite sem povo. O Brasil seguirá único — mas precisa decidir se continuará sendo o único país em que a elite despreza seus pobres, ou se ousará reinventar a árvore social que sustenta a todos.

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