Entre Deficiências e Potencial — O Desafio de Aproximar o Brasil dos Modelos Europeus de Saúde

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Por Rodrigo Rodrigues

O Sistema Único de Saúde (SUS) é frequentemente lembrado por suas filas, estruturas precárias e pela escassez de recursos humanos. Mas por trás das dificuldades cotidianas está uma das engrenagens públicas mais ambiciosas e bem planejadas do mundo. Criado pela Constituição de 1988, o SUS é um sistema tripartite – financiado e gerido por União, estados e municípios – que oferece atendimento gratuito a mais de 200 milhões de brasileiros, algo que países desenvolvidos ainda não conseguiram universalizar por completo.

A proposta brasileira de saúde pública é ousada: garantir acesso integral, universal e gratuito, do pré-natal ao transplante de órgãos, passando por campanhas de vacinação em massa, vigilância sanitária, atendimento emergencial e até medicamentos de alto custo. Em tempos de crise econômica e aumento da pobreza, o SUS se torna ainda mais vital. No entanto, a distância entre o que está no papel e o que se oferece na ponta é significativa.

Custo e financiamento: um sistema subfinanciado

O SUS consome cerca de 4% do PIB brasileiro, segundo dados de 2024. Em comparação, o Reino Unido investe aproximadamente 9% do PIB em seu National Health Service (NHS), enquanto a França ultrapassa os 11%. Nos países europeus, há maior participação do Estado e da arrecadação em saúde. No Brasil, apesar de ser universal, o SUS convive com um subfinanciamento crônico.

O chamado “teto de gastos”, implementado em 2016, comprometeu a expansão e a modernização do SUS, congelando investimentos por duas décadas. A Emenda Constitucional 95 tornou-se uma barreira para o desenvolvimento do sistema. Enquanto a população envelhece e as doenças crônicas crescem, os recursos permanecem os mesmos.

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Deficiências estruturais: onde o sistema falha

Os principais gargalos do SUS estão na atenção básica insuficiente, nos gargalos da média complexidade e no colapso frequente da alta complexidade. A carência de médicos em áreas remotas, a fila para cirurgias eletivas e exames especializados, além da falta de manutenção em hospitais, afetam diretamente a qualidade do serviço.

As desigualdades regionais também escancaram um país de múltiplos sistemas. Enquanto cidades como Curitiba, Belo Horizonte e Vitória apresentam resultados semelhantes aos países da OCDE, regiões do Norte e Nordeste ainda enfrentam desafios básicos como transporte de pacientes e falta de leitos.

Além disso, há uma sobrecarga burocrática e uma má gestão em muitos municípios, que não conseguem planejar com eficácia a aplicação dos recursos. A corrupção e o uso político da máquina da saúde também seguem sendo entraves.

Caminhos possíveis: o que podemos aprender com França e Reino Unido?

O modelo inglês, com seu NHS, é gerido integralmente pelo governo, com financiamento público, mas forte planejamento e indicadores de qualidade. Já o modelo francês mescla financiamento público com gestão compartilhada e forte presença da iniciativa privada sob regulação estatal.

Para o Brasil se aproximar desses modelos, especialistas apontam alguns caminhos:

1. Maior financiamento público per capita, com vinculação de recursos mais justa e estável.
2. Reforma da gestão, com foco em resultados e controle social efetivo.
3. Valorização dos profissionais da saúde, com planos de carreira, formação continuada e presença nas periferias e zonas rurais.
4. Integração entre atenção básica e média/alta complexidade, rompendo com a lógica fragmentada do atendimento.
5. Uso intensivo da tecnologia, com prontuário eletrônico nacional, telemedicina e integração de dados entre municípios e estados.

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O SUS como patrimônio nacional

Apesar de suas falhas, o SUS demonstrou sua importância durante a pandemia de COVID-19, salvando milhões de vidas por meio da vacinação em massa e do atendimento emergencial. Em tempos normais, realiza cerca de 4 bilhões de procedimentos por ano – desde consultas até transplantes, sendo o segundo maior sistema transplantador do mundo.

“Com todos os seus problemas, o SUS é uma das maiores conquistas do povo brasileiro”, afirma o sanitarista e ex-ministro Arthur Chioro. “Falta priorizar a saúde pública como política de Estado e não apenas de governo.”

Conclusão: do possível ao ideal

Avançar rumo a um sistema próximo ao francês ou britânico exige decisões corajosas: romper com o teto de gastos, taxar grandes fortunas, combater a má gestão e investir onde mais se precisa. O SUS é uma das políticas mais igualitárias da história do Brasil, mas, para cumprir sua promessa, precisa deixar de ser apenas resistente e tornar-se eficiente.

O desafio não é técnico, é político. E, talvez, também moral.

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