Os Barões dos grãos

The Grain Barons

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Por Rodrigo Rodrigues

Como quatro corporações controlam o que o mundo come — e o Brasil colhe

Se o planeta fosse um tabuleiro de xadrez alimentar, os reis seriam invisíveis. Seus nomes não aparecem em embalagens de supermercado, mas Cargill, Bunge, ADM e Louis Dreyfus — as chamadas ABCD — decidem quanto custará o pão em Túnis, o frango em Xangai e o combustível em São Paulo. Elas dominam mais de 70% do comércio mundial de grãos. E ninguém as elegeu para isso.

Em um mundo que se especializou em “desglobalização”, essas quatro empresas continuam mais globalizadas do que nunca, com tentáculos assentados onde a terra é mais fértil: o Brasil.

Os impérios discretos

As ABCD nasceram ainda no século XIX — Bunge em 1818, Louis Dreyfus em 1851, Cargill em 1865 e ADM em 1902. O modelo é simples e genial: controlar a rota, não apenas o produto.

Primeiro financiaram agricultores. Depois compraram armazéns, ferrovias, portos, navios. Por fim, indústrias que esmagam soja, refinam óleo, produzem etanol, biocombustíveis, fertilizantes e ingredientes de que ninguém sabe o nome mas todos consomem diariamente.

Hoje as gigantes se apresentam como empresas “de tecnologia e dados”. A narrativa é charmosa: algoritmos que preveem o clima e IA para otimizar rotas. A realidade é bem menos etérea: controle vertical do campo ao contêiner — e da informação ao preço final.

Brasil: o coração do poder

O centro gravitacional da soja migrou. Já não é a Pampa argentina ou as Grandes Planícies americanas. É Mato Grosso, o Cerrado, o MATOPIBA. E é aqui, no país que se orgulha de alimentar 1 bilhão de pessoas, que o poder da ABCD encontra o seu El Dorado.

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Elas financiam a safra, compram a soja, operam os principais terminais de Santos, Paranaguá, Rio Grande e Arco Norte, embarcam para a China e industrializam parte no caminho. A margem mais lucrativa raramente fica com o produtor brasileiro.

O Brasil exporta grão.
E importa valor agregado.

A soberania alimentar nacional segue terceirizada — com contrato perpétuo

Informações são a nova supercolheita

Governos fazem estimativas.
As ABCD, previsões.

Com acesso exclusivo a estoques privados, sensores no campo, satélites próprios e inteligência de mercado que circula em Genebra, Minneapolis e Nova York, elas sabem o que vai acontecer antes que aconteça.

Em crises, isso vale ouro.
• Na pandemia, enquanto cadeias logísticas ruíam, ABCD tiveram lucros recordes
• Na guerra da Ucrânia, quando o pão subiu no Egito, o caixa delas também subiu

O caos global, ironicamente, é bom para quem controla a ordem dos grãos.

Inovação com pegada pesada

As ABCD se vendem como guardiãs ambientais da agricultura sustentável. Mas relatórios independentes contam uma história mais incômoda:
• Pressão econômica ligada ao desmatamento no Cerrado e na Amazônia
• Aquisição de grãos oriundos de áreas de conflito socioambiental
• Dependência de rotas de risco, onde a lei chega depois do lucro

Cargill e Bunge, especialmente, enfrentam litígios internacionais — sempre com a mesma resposta corporativa: “Estamos aprimorando”. E seguem aprimorando seus resultados.

O novo jogo: China, clima e concentração

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O maior desafio às ABCD vem do Oriente: a chinesa COFCO Internacional. Com apoio estatal, ela está comprando ativos no Brasil e disputa originação e portos. Uma corrida silenciosa se arma:
• Estados Unidos: tecnologia, hedge, poder financeiro
• China: apetite, capital estatal e fome crescente
• Brasil: o tabuleiro — mas não o jogador

A concentração aumenta. A transparência, não.

Quem regula quem controla a comida?

Enquanto bancos são monitorados por bancos centrais e plataformas digitais por autoridades de dados, o comércio global de grãos opera em penumbra regulatória. Sem escrutínio público. Sem escrutínio político real.

A ONU, o Banco Mundial e até organismos de concorrência têm pouca ingerência. Afinal, nenhum país quer brigar com quem garante o seu almoço.

Não se trata de demonizar a eficiência logística que impede a fome planetária. O problema é a dependência excessiva: países inteiros presos a quatro logos corporativos.

O risco não é apenas econômico.
É civilizacional.

O Brasil diante do espelho

O país que se orgulha de ser celeiro do mundo opera na “porteira para fora” sob supervisão estrangeira. O Brasil ganhou escala. Mas não poder.

O debate sobre segurança alimentar costuma mirar o arroz no supermercado.
O que deveria nos preocupar é quem controla os navios que levam nossa comida para fora — e trazem política para dentro.

Enquanto isso, as ABCD seguem ampliando seus portfólios digitais, diversificando para proteínas e energia, e reforçando o seu papel histórico:

Não governam países.
Governam a fome e o preço de satisfazê-la.

 

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