Expoente do movimento MAGA (“Make America Great Again”), Steve Bannon disse à coluna hoje que se o Brasil extinguir os processos judiciais pelos quais Bolsonaro é réu, o governo de Donald Trump retiraria as tarifas de 50% sobre os produtos brasileiros, anunciadas em uma carta da Casa Branca ontem.
“Derrubem o caso, derrubamos as tarifas”, disse Bannon, ao ser questionado pela coluna se via alguma forma de o governo brasileiro negociar. Ele é ex-estrategista-chefe da Casa Branca, mas não possui cargo no segundo mandato de Trump. No entanto, ele segue sendo figura influente na órbita trumpista..
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva já descartou publicamente qualquer possibilidade de que as instituições brasileiras sejam pressionadas a mudar o curso de suas ações pelas pressões de Washington. “O processo judicial contra aqueles que planejaram o golpe de estado é de competência apenas da Justiça Brasileira e, portanto, não está sujeito a nenhum tipo de ingerência ou ameaça que fira a independência das instituições nacionais”, afirmou Lula em nota na noite desta quarta.
Segundo Bannon, os brasileiros ainda podem esperar “mais ações” do governo americano. Ele cita particularmente sanções financeiras contra o Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, relator dos processos a que Bolsonaro responde por tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, entre outros crimes, os quais ele nega. Este é um pleito dos bolsonaristas nos EUA que até agora não se concretizou.
As novas taxas devem entrar em vigor no dia 1?º de agosto. Em suas justificativas para a medida, Trump citou o que qualificou como um “caça às bruxas” a Bolsonaro e chamou o processo judicial contra ele de uma “vergonha internacional”.
Além disso, a carta de Trump citou “ordens ilegais e secretas” do Supremo Tribunal Federal para retirar do ar conteúdos “de usuários americanos” em redes sociais dos Estados Unidos.
A declaração parece ser uma referência ao caso que a própria empresa de mídia de Trump, a Trump Media and Technology Group (controladora da rede Thruth), e a rede social Rumble movem contra Moraes na Flórida desde fevereiro. Na ação, ambas acusam Moraes de tentar extrapolar sua jurisdição ao enviar para o e-mail dos funcionários das empresas nos EUA decisões judiciais que atingiriam bolsonaristas radicados no país. Atualmente, as empresas pedem indenização financeira a Moraes. O ministro e o STF negam que a jurisdição de ambos tenha sido extrapolada.
Elon Musk fora do loop‘
O trecho da carta de Trump também poderia ser uma referência à contenda entre o bilionário Elon Musk, dono da rede X (ex-Twitter) e Moraes e o STF. Em 2024, Musk descumpriu ordens da Corte para que retirasse do ar conteúdos falsos ou discursos de ódio da rede social e para que mantivesse um representante legal da empresa no país. Por isso, a rede acabou retirada do ar em território brasileiro. À época, Musk chegou a sugerir que, na Casa Branca, Trump poderia punir o Brasil com confiscos, mas, mais tarde, recuou e cumpriu as decisõe.
Bannon, porém, rechaça completamente a possibilidade de que Musk possa ter intercedido por medidas contra o Brasil junto a Trump. Até pouco mais de um mês atrás, Musk liderava o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) da Casa Branca, o qual deixou em meio a uma desavença pública com o atual presidente.
“Elon Musk ficou completamente fora desse ‘loop’ (de negociação por tarifas e sanções). Nunca o vi fazer qualquer menção a Brasil”, diz Bannon, desafeto de Musk. Recentemente, o ideólogo do MAGA chegou a sugerir a deportação de Musk, que é cidadão americano, mas nasceu na África do Sul. Musk respondeu dizendo que Bannon deveria estar preso.
“Elon Musk não disse nada sobre Brasil, assinou um ‘checão’ para entrar na campanha mas já foi expulso do círculo íntimo do presidente Trump. Mas não, ele nunca tocou no assunto. Ele nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca tentou fazer nada pelos Bolsonaros. Nunca fez nada. Ele só pensa em ganhar dinheiro. E agora ele está tentando perseguir o presidente Trump. Ele não teve nada a ver com isso”, disse Bannon.
Durante o governo de Jair Bolsonaro, Musk chegou a visitar o Brasil para implementar projetos da Starlink, sua empresa de internet via satélite, na Amazônia.
“Qualquer um que pense assim (que Musk foi importante pra sanções ou tarifas contra o Brasil) não entende realmente a política de poder aqui nos Estados Unidos”, disse Bannon. Segundo ele, Musk não tinha identificação alguma com Bolsonaro.
“Lembre-se que foi o MAGA e o presidente Trump que apoiaram os Bolsonaros, porque Bolsonaro é o Trump dos Trópicos. Os Bolsonaros são amados aqui porque nós nos vemos neles, pessoas comuns indo às ruas e dizendo: ‘Ei, nossas vozes contam'”, diz Bannon.
Segundo o ideólogo, “Musk é brilhante em engenharia e uma criança de 11 anos em política. Por isso foi moído e cuspido fora em Washington”, diz.
Segundo ele, todo o trabalho de articulação para convencer Trump e sua administração de que o judiciário brasileiro teria sido instrumentalizado contra Bolsonaro foi do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro e do comentarista político Paulo Figueiredo. Segundo Bannon, ambos acionaram dezenas de pessoas, tanto no Executivo quanto no Congresso, e convenceram Trump a agir. O próprio Bannon também conversou com o secretário de Estado Marco Rubio e o presidente Trump sobre o assunto.



















