Rush

Rush: os profetas do rock que anteciparam o mundo da tecnocracia e do controle algorítmic

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Por Rodrigo Rodrigues

Por volta de 1976, em um estúdio no Canadá, três músicos ousaram questionar o futuro. Talvez nem imaginassem que, quase cinco décadas depois, suas distopias se tornariam assustadoramente familiares.

A banda que fez da filosofia seu combustível

Rush nunca foi uma banda apenas de riffs virtuosos. Geddy Lee (voz, baixo e teclados), Alex Lifeson (guitarra) e Neil Peart (bateria e principal letrista) construíram uma obra que mistura rock progressivo, ficção científica, política, literatura e filosofia — de Ayn Rand a George Orwell.

Numa era de ditaduras políticas e conservadorismo cultural, o trio ousou atacar exatamente o que regimes de controle mais temem: a liberdade criativa e de pensamento.

2112 (1976): Quando a arte é proibida e a mente é controlada

No álbum 2112, Rush descreve um futuro governado pela Federação Solar, controlada pelos sacerdotes do Templo de Syrinx — metáfora para elites tecnocratas que definem cada passo do cidadão: o que você vê, o que você pensa, o que você consome.

A arte desapareceu porque a criatividade liberta.

O personagem principal encontra uma guitarra escondida, descobre o poder transformador da música — e acredita que essa revelação mudará o mundo. Mas, ao apresentá-la aos dominadores, recebe a pior confirmação possível:

“Eles a destroem. Porque a liberdade assusta os tiranos.”

2112 não é só ficção científica. É um alerta sobre sistemas que esmagam qualquer expressão que não caiba em suas planilhas e algoritmos — exatamente o debate que hoje envolve Big Tech, vigilância digital, IA e controle comportamental das massas.

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Tom Sawyer (1981): A resistência do indivíduo

No clássico Tom Sawyer, Rush reinventa o herói rebelde de Mark Twain como símbolo da independência moderna. O personagem não se deixa moldar:

“Ele é descolado demais para obedecer;
muito livre para se curvar.”

Uma mensagem de não se vender, não ser absorvido pela máquina social que transforma pessoas em peças de um jogo de interesses.

Hoje, quando carreiras, opiniões e emoções são moldadas por métricas digitais — likes, views, engajamento — a canção ecoa com ainda mais força.

Subdivisions (1982): A solidão de não se encaixar

Dois anos antes da internet nascer, Rush já falava sobre uma juventude presa a rótulos, padrões e zonas obrigatórias de pertencimento.

A letra descreve cidades rígidas, tribos que vigiam comportamentos e o jovem que, ao não se adaptar, é excluído. Quase como:

um algoritmo decidindo seu destino social.

“Conform or be cast out”
(“Conforme-se ou seja excluído”)

Hoje chamamos isso de cancelamento, bolhas digitais, score social. Rush viu tudo de antemão.

Profetas do presente

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Quando Rush denunciou o domínio da tecnocracia, muitos viram apenas fantasia prog rock.
Quando alertou sobre o esmagamento do indivíduo, acharam exagero juvenil.
Quando falou de segregação comportamental, chamaram de drama adolescente.

Mas agora vivemos:
• O controle da atenção por inteligência artificial
• A vigilância das redes sociais
• A censura algorítmica que decide o que aparece e o que se apaga
• A padronização de comportamento para “ser aceito”
• A indústria cultural que empacota rebeldia como produto

Rush estava certo desde o princípio.

A música que ainda pode nos salvar

O trio canadense apostou que a arte — música, imaginação, criatividade — seria sempre o último reduto da liberdade humana. E que todo sistema controlador teme justamente isso.

Mais do que rock progressivo, Rush fez o rock da resistência.

2112, Tom Sawyer, Subdivisions: cada obra é um convite para acordar e lembrar que:

Pensar diferente é um ato revolucionário.
Criar é resistir.
A música liberta.

E, como Neil Peart escreveu, com baquetas que parecia m escrever filosofia em cada virada:

“A mente não deve morrer antes do corpo.”

Enquanto existir arte, ainda há esperança.

Rush segue tocando — dentro de quem não aceita se tornar apenas mais um número na federação dos algoritmos.

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