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Ronaldo Caiado: o discurso e a realidade por trás da criminalidade em Goiás

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Por David Allen

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), figura entre os nomes cotados para disputar a Presidência da República em 2026. Médico, político de longa trajetória e conhecido pelo tom enérgico de suas declarações, Caiado construiu uma imagem pública de gestor linha-dura, que teria “colocado ordem” em Goiás e “acabado com a criminalidade no estado”. Mas, quando se olha além da retórica, o cenário é bem diferente: facções criminosas se consolidaram, o PCC estabeleceu uma de suas bases mais fortes no Centro-Oeste, e a sensação de insegurança continua alta entre a população.

O discurso do “xerife”

Desde que assumiu o governo, Caiado se apresenta como um “xerife” capaz de enfrentar o crime organizado. Em diversas entrevistas, afirmou que Goiás teria deixado de ser rota de facções criminosas e que “bandidos não teriam vez” no estado.
Contudo, investigações recentes da Polícia Federal e do Ministério Público revelam que o PCC consolidou em Goiás uma das suas principais bases de lavagem de dinheiro e logística de tráfico. O estado, situado estrategicamente no centro do país, virou ponto-chave para escoamento de drogas e armas.

“Goiás é hoje um dos principais nós da rede do PCC, tanto para lavagem de dinheiro em postos de gasolina, construtoras e fazendas de fachada, quanto para o transporte da droga que vem da Bolívia e vai para São Paulo e Rio”, afirma um delegado da PF ouvido sob anonimato.

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A violência que persiste nas ruas

Enquanto Caiado repete que reduziu índices criminais, moradores de Goiânia e de cidades do interior convivem com outra realidade. A sensação de insegurança é tamanha que motoristas de aplicativos evitam rodar à noite.

“Depois das 10 da noite, eu desligo o aplicativo. Já perdi um colega que foi assassinado num assalto em Aparecida de Goiânia. Aqui a gente nunca sabe se está pegando passageiro ou bandido”, relata Paulo*, motorista de Uber há quatro anos.

Em bairros periféricos da capital, relatos de assaltos à mão armada são frequentes. Maria de Lourdes*, comerciante, conta que foi assaltada duas vezes em menos de seis meses:

“Na primeira vez, levaram o dinheiro do caixa e meu celular. Na segunda, entraram no mercado e fizeram eu e meus clientes de reféns por alguns minutos. Quando ligo a TV e vejo o governador dizendo que a criminalidade acabou, parece até piada.”

Outro morador, João Carlos*, que teve a casa invadida, desabafa:

“Eles falam que prenderam os chefes, que desmantelaram quadrilhas, mas a gente sabe que os crimes continuam. A verdade é que o medo faz parte da nossa rotina.”

(*Nomes foram alterados a pedido dos entrevistados.}

A “base invisível” do PCC em Goiás

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Segundo relatórios de inteligência, fazendas de fachada no interior de Goiás são utilizadas para movimentar milhões de reais em dinheiro vivo. Construtoras e até fintechs ligadas a empresários locais são investigadas por facilitar a lavagem de recursos ilícitos.

Essa rede opera “debaixo do nariz” de Caiado. Críticos apontam que o governador, em vez de enfrentar as facções, preferiu reforçar o discurso político, capitalizando sobre operações pontuais da polícia.

De pré-candidato a alvo de questionamentos

Com a pré-candidatura à Presidência, o contraste entre o discurso e a realidade se torna ainda mais evidente. Especialistas avaliam que Caiado se apresenta como líder nacional no combate ao crime, mas que em seu próprio estado não conseguiu impedir que o PCC criasse raízes profundas.

“Se ele não conseguiu blindar Goiás, como pode prometer blindar o Brasil?”, questiona um analista de segurança pública ouvido pela reportagem.

O que se vê é um abismo entre a retórica do governador e a realidade vivida pelos goianos. Enquanto Ronaldo Caiado se projeta nacionalmente como símbolo de força contra o crime, a população continua enfrentando medo, assaltos, homicídios e a presença ostensiva de facções criminosas.

O “xerife” de Goiás pode ser um político habilidoso no palanque, mas para quem vive a insegurança cotidiana, seu discurso soa como falatório vazio — e perigoso.

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